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Ensinando a aprender

Explicar o óbvio é necessário 

Explicar o óbvio é necessário
Foto: Pixabay.com

Quem educa precisa, muitas vezes, ensinar o óbvio. Parece uma grande perda de tempo, mas não é bem assim. Não só é necessário, muitas vezes é decisivo. 

Cinto de segurança
Foto: Pixabay.com

Tudo o que é óbvio não deveria carecer de maiores explicações ou detalhamentos. Mas isso depende muito da percepção e da capacidade de compreender o que está sendo visto, ouvido, sentido.

 

Óbvio – adjetivo: o que é fácil de descobrir, de ver, de entender; que salta à vista; manifesto, claro, patente.”Era óbvio que alguma coisa estava errada na receita”; que não se pode pôr em dúvida; axiomático, evidente, incontestável.

A maçã da ciência

Provavelmente a queda de uma maçã madura da macieira na frente do observador que ali descansava, já tinha ocorrido milhões de outras vezes na frente de milhões de observadores desatentos. Mas não foi o caso de Newton.

Hoje todos achamos óbvio que existe uma força de atração dos corpos para centro do planeta. Mas até ali, ninguém tinha observado uma maça madura cair com o olhar de quem quer entender o porquê daquilo.

Ninguém tinha prestado realmente atenção e pensado, aquele tantinho a mais, fundamental para a descoberta e a compreensão de como o mundo funciona: se a maçã cai, é por resultado de uma força de atração. Se não, ela poderia rolar para algum dos lados, ficar paradinha onde está, ou ainda, “cair para cima”. Mas não: é sempre para baixo. E funciona assim para tudo. Para uma pena ou para um elefante. É óbvio. Mas no início, acredite, Newton teve que explicar isso muitas e muitas vezes.

O desafio de um instrutor fazer seus alunos perceberem o que está por trás das regras e normas de trânsito pode não render uma história tão boa quanto a de Newton, mas vale o esforço.

Nas aulas de trânsito

Quem educa precisa, muitas vezes, ensinar o óbvio. Parece uma grande perda de tempo pois, se é óbvio, não carece de maiores esclarecimentos ou convencimentos. Mas não é bem assim, por incrível que pareça. Não só é necessário, muitas vezes é decisivo, para se obter sucesso.

Considere o uso do cinto de segurança.

Ele salva vidas, certo? Os benefícios são inegáveis e facilmente verificáveis, não é? Mas então porque, até hoje, ainda tem condutor que reluta em usar? Ou usa no banco da frente, mas não no banco de trás?

Nosso diretor Celso Alves Mariano conta uma história interessante sobre isso em suas palestras sobre percepção de riscos.

“Sempre que entro em um táxi e o cinto de segurança não está disponível, pergunto, antes da sairmos, onde está o amado dispositivo de segurança? O motorista normalmente responde outra coisa, diferente do que perguntei, dizendo ‘aí atrás não precisa’. Então eu mudo para o banco da frente e informo que não vou colocar o cinto. Geralmente, ouço o seguinte: aqui na frente, precisa. Aí a conversa fica boa. Pergunto por que quem senta na frente precisa usar o cinto, mas na parte de trás, não? E a reposta é reveladora: porque aqui na frente o guarda vê.”

Ou seja, conclui Mariano, “a pessoa faz a coisa certa, para quem senta na frente, mas pelo motivo errado: ele está com medo da multa, não da inércia. A percepção dos riscos está calibrada para o bolso e para o prontuário da CNH, não para a física. Ele tem medo da lei de trânsito, mas deveria ter medo da lei da natureza. Essa distorção deixa protegido quem está na frente, mas expõe quem senta atrás. E só até certo ponto porque, pessoas que estão atrás sem cinto, numa colisão, irão por em risco quem está na frente. O que deveria ser óbvio, é solenemente ignorado”.

Recentemente, o conhecido biólogo brasileiro Átila Iamarino, que tem sido uma voz lúcida para vários assuntos da ciência, publicou um vídeo em seu canal do YouTube abordando, justamente, o assunto cinto e segurança.

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Didática boa

Em meio a muitas dúvidas “normais” por parte que quem não parou para pensar, ou tem poucos conhecimentos sobre determinados assuntos, estamos tendo que lidar com muitos mitos e, o pior, com as fake news, que encontram campo fértil em ambientes onde reina a desinformação, os pré-conceitos e a baixa escolaridade.

Informar e, especialmente, educar, pode se transformar em tarefa árdua neste contexto. Nada que uma boa e adequada didática não dê conta.

Observe neste vídeo a sequência da ambientação e introdução do tema, a exposição do assuntos relacionados, o foco nos pontos críticos e a habilidade de contrapor as ideias de forma equilibrada.

Tudo para chegar a uma contundente mensagem de que usar os dispositivos de segurança, POR ÓBVIO, deve ser adotado por todos. É explicar o óbvio, sim. O que, neste caso, é necessário.

Assista aqui:

Vídeo Atila Iamarino

Vídeo – Por que o cinto de segurança funciona, do canal Youtube de Átila Iamarino

Eis aqui uma mensagem importantíssima para instrutores e professores que lidam com o tema trânsito:

“É preciso mais do que expor o conhecimento. É preciso provocar atitudes. Nem tudo é só percepção. O motorista de taxi da história acima tinha percepção de risco. Mas sobre o risco de tomar multa, não sobre o risco de se machucar”, diz Mariano. E complementa: “para o óbvio funcionar sozinho, gerando um comportamento adequado, é preciso colocar luzes. E é a boa didática que ajuda nessa hora, iluminando as percepções para que o aluno chegue lá por si só e, então, o óbvio faça jus a sua definição”.


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