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Artigo – Bela mensagem de natal 

Artigo – Bela mensagem de natal
Foto: Pixabay.com

J. Pedro Corrêa aborda a mais impactante mensagem de natal que viu sobre segurança no trânsito e a torcida para que ela não seja muito repetida pelas famílias brasileiras.

J. Pedro Corrêa*

Faz 30 anos mas parece que foi ontem, tamanha a clareza da lembrança que ainda guardo daquele momento. Trabalhava há poucos anos com segurança no trânsito e cada visita ao exterior representava mais oportunidades de conhecer coisas novas. Naquela vez eu estava visitando a sede da ROSPA, Royal Society for Prevention of Accidents, em Birminghan, na Inglaterra, a mais antiga ONG britânica dedicada à prevenção de acidentes em geral.

Fundada em 1916, é respeitadíssima em todo o Reino Unido e seus trabalhos são apreciados no mundo todo.

Caminhávamos – meu cicerone e eu – por um longo corredor para chegar à sala de vídeos de campanhas de segurança no trânsito. Nas paredes laterais do corredor, muitos cartazes para todas as finalidades: trânsito, trabalho, residências, escolas, etc. Bonitos, sérios, coloridos, sombrios, enfim, havia para todos os gostos.

De repente, um deles me chama a atenção e peço para me deter um pouco para vê-lo melhor.

Era um pôster de natal com uma mensagem que marcaria minha carreira como interessado no trânsito para o resto da vida. Não me ocorreu fotografá-lo (não havia celular, na época) nem de comprar uma cópia para trazer comigo para o Brasil.

Tratava-se de um desenho naive, retratando a sala de jantar de uma família de classe média com quatro pessoas: a mãe e três filhos. A mesa posta, todos bem arrumados para o jantar de natal. Numa cômoda, junto à parede ao fundo, uma pequena árvore de natal devidamente decorada. A cabeceira da mesa, vazia, evidenciava a falta de alguém. Era uma peça bonita, que chamava a atenção pela singeleza da cena.

No pé da ilustração, em letras bem pequenas, uma legenda que teve influência decisiva na minha escolha para trabalhar pela segurança no trânsito:

Que bom seria se papai estivesse conosco neste natal. Dirija com atenção”.

Minha espinha gelou. Não esperava um frase tão forte numa peça tão simples, tão bonita.

Refeito do impacto provocado pelo cartaz, na volta do trem para Londres, comecei a anotar as várias lições que a visita à ROSPA me haviam deixado. A principal delas – e o cartaz de natal ajudou a solidificar – é que uma mensagem, publicitária ou não, para produzir efeito, não precisa ser contundente, agressiva e nem apelar para o horror – basta ser criativa e adequada. O pôster da ROSPA não continha qualquer elemento de trânsito nem insinuava situação de risco mas o tema – natal – levava à uma associação dolorosa para muitas famílias que era a ausência de um ente familiar em razão de sinistro, seja de trânsito, seja qual for.

Achei oportuno dividir com você esta história para marcar este natal de 2021 que, como os de tantos anos, será de grande dor para parentes e amigos daqueles que não mais estão no nosso meio. Isto vale para inúmeras situações de riscos de trânsito que enfrentamos cotidianamente. Bem como, para os ataques da pandemia que tem sido devastadores para todo mundo.

Chama a atenção como estes eventos fatais se reproduzem com tanta frequência, há tanto tempo. E, pior, a sociedade parece não se dar conta disso a ponto de continuar cometendo os mesmos equívocos. Observe que não estou me referindo apenas às vítimas que não tinham formação suficiente ou que pertenciam às camadas menos abastadas mas a todos os segmentos da sociedade.

É ainda mais impactante quando se sabe que este não é um fenômeno brasileiro mas mundial. Isso significa que explicar o comportamento humano diante de riscos continua sendo um desafio enorme para pesquisadores, cientistas de todo o mundo.

Me lembro de uma passagem quando, junto com um grupo de brasileiros vencedores do Prêmio Volvo, visitávamos o Instituto de Pesquisas em Segurança no Trânsito, em Linköping, Suécia. Perguntei a um cientista sueco porque o primeiro mundo não conseguia apressar as pesquisas sobre comportamento do homem para atenuar tantos sinistros. Ele me disse que conseguir explicar o comportamento inadequado de pessoas de um determinado país não significaria que se tenha conseguido a solução para evitar as mesmas situações noutros países, tamanhas as diferenças de características entre as populações, suas culturas, seus valores com os quais convivem. A lógica da resposta me deu a sensação – quase certeza – de que este seria um tabu para o resto da vida e no mundo todo.

Quando vejo que, em 2021, o Brasil não possui ainda uma instituição científica voltada a estudos sobre comportamento dos usuários no trânsito, imagino a dor de tantas família que repetirão a frase do cartaz da ROSPA, no início dos anos 1990.

Bem que gostaria que minhas perspectivas para o trânsito em 2022 fossem bem positivas e promissoras. O andar da carruagem, porém, não me autoriza a esperanças muito sonhadoras.

Oportunidades para melhorar, certamente temos, recursos não devem ser problema se soubermos optar pelas escolhas corretas. A grande falta é de vontade política por parte das lideranças nacionais. O temor tem sua justificativa: num ano eleitoral como o que está começando, imaginar que segurança no trânsito venha a ser uma prioridade nacional, seria algo completamente fora de questão.

Meu conselho, então, é que cuidemos de nós mesmos e dos nossos com o máximo cuidado no dia-a-dia do trânsito. Ao mesmo tempo, que tenhamos palavras e ações de apoio aos programas de seguranças municipais que continuarem sendo desenvolvidos durante o ano e estimulando as cidades que estiverem começando a se dedicarem ao máximo nesta missão.

Em resumo: vamos procurar fazer o que estiver ao nosso alcance e torcer para que os outros façam a parte deles e que não precisemos repetir muito repetir muito a legenda que vi em Birminghan: “Que bom seria se papai estivesse conosco neste natal. Dirija com atenção”.

Bom natal a todos!

*J. Pedro Corrêa é consultor de programas de segurança no trânsito


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