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Artigo – Vida Urgente 

Artigo – Vida Urgente
Foto: Divulgação Thiago Gonzaga.

J. Pedro Corrêa aborda os 25 anos de atividades da Fundação Thiago Gonzaga, que desenvolve o programa Vida Urgente. E questiona por que não temos mais ONGs como esta pelo Brasil.

*J. Pedro Corrêa

Borboleta no asfalto
Foto: Divulgação Thiago Gonzaga.

No próximo 13 de maio, o Brasil como um todo e o setor de segurança no trânsito em especial, terão um fato especial a comemorar: os 25 anos de criação da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, de Porto Alegre, casa da ONG Vida Urgente. Não fosse a enorme folha de contribuições prestadas à comunidade brasileira, trata-se de uma das histórias mais bonitas que se tem notícias na área do nosso trânsito.

Thiago Gonzaga era um “guri” (como chamam no RS) de 18 anos que saiu para uma balada na noite de 20 de maio de 1995 na capital gaúcha.

Na volta, pegou uma carona com um amigo que chocou seu carro contra um contêiner mal estacionado na rua e morreu. A história, em si, é bastante comum no Brasil e no mundo. O que não foi comum, foi o seu desdobramento.

A mãe de Thiago, a arquiteta Diza Gonzaga, fortemente impactada, promete que as coisas não ficariam assim. Determinada, sai em busca de informações de como poderia honrar a memória do filho perdido. E, juntamente com seu marido Regis, professor de cursinho em Porto Alegre, decidem criar um movimento para mobilizar jovens para não repetir o exemplo de Thiago.

Exatamente um ano depois da morte de Thiago, 20 de maio de 1996, nascia o programa Vida Urgente. Este se tornou o movimento popular de maior envergadura no gênero no Brasil.

Começando por Porto Alegre, onde juntou milhares de jovens que se dispunham a sair nas noites gaúchas para convencer milhares de outros jovens a não pegarem o volante depois de beber, o movimento ganhou amplitude. Primeiro tornou-se um fenômeno em todo o estado do Rio Grande do Sul. Dali, saiu para outros estados, assumindo grande protagonismo no Espírito Santo onde teve atuação bastante destacada por alguns anos.

A garra, o ativismo do seu exército de voluntários é a marca registrada do movimento. O carisma da sua líder, Diza Gonzaga, é o fator maior de sustentação de uma luta que parece não ter fim. Vida Urgente já teve mais de 20.000 voluntários. Isso dá a dimensão da complexa estrutura e da enorme demanda de organização. Além da balada segura, o objetivo maior é preservar e valorizar a vida de crianças, adolescentes, jovens e adultos. Através de programas educativos, culturais e informativos no intuito de ampliar a humanização no trânsito.

Mais de uma dúzia de atividades diferentes são realizadas debaixo do guarda-chuva do Vida Urgente. A começar pelas blitzes, passando pelas ações nas madrugadas, nas escolas, praias, estádios de futebol para chegar a concertos musicais sempre buscando arregimentar mais jovens para a mobilização.

Jovens convencendo jovens a assumir comportamentos seguros!

Em lugar da estrela de xerife do trânsito no peito, o desenho de uma borboleta para simbolizar a metamorfose, a mudança de comportamento do jovem. Não substituindo o prazer da diversão, mas adotando o princípio da segurança.

Conheço bastante bem o que significa manter uma ONG deste porte e por tanto tempo. Alimentada pelo desejo de servir e tendo como fontes de incentivo a persistência e o sonho de salvar vidas. Fator importante na realimentação da disposição de continuar a luta tem sido o reconhecimento pela sociedade. E até mesmo de instituições internacionais que veem no Vida Urgente um modelo a ser seguido em qualquer lugar.

O fato de o programa ser mostrado como exemplo pela Organização Mundial de Saúde, de ter sido destacado na Conferência de Brasília da ONU/OMS(2015), de ser parte integrante da cúpula da YOURS, organização mundial de jovens de 100 países para tornar o trânsito mais seguros, são apenas algumas evidências de reações provocadas pelo mundo afora.

Me pergunto porque não conseguimos ter mais ONGs do tipo Fundação Thiago Gonzaga em outras cidades brasileiras.

Tive vários pedidos para ajudar a montar instituições voltadas a apoiar comunidades locais. Grande parte dos que me procuraram eram pessoas que perderam um parente próximo e queriam fazer algo para que outros não sentissem a mesma dor que sentiam, caso da Diza Gonzaga.

Dizia sempre que a motivação inicial é vital para erguer uma ONG mas está longe de ser tudo. É importante focar a área(s) que quer atingir, com quem pode contar, que recursos poderá dispor, de onde virão, enfim, pontos essenciais de um plano de ação que sirva de bússola para guiar o caminho. Não é algo nem difícil e muito menos impossível mas, pelo jeito, tem sido empecilho para esta gente.

Há obviamente outras instituições sem fins lucrativos no país que conseguiram ganhar visibilidade nacional com trabalhos de grande expressão e reconhecimentos. O Observatório Nacional de Segurança Viária é, possivelmente o maior exemplo delas com seu Maio Amarelo se destacando como o maior programa brasileiro. Trata-se de uma OSCIP que atua nas áreas de educação, pesquisa, planejamento e informação.

O trânsito brasileiro necessita muito de organizações não governamentais capazes de realizar ações regionais de suporte à sociedade na organização e manutenção de programas locais que apoiem a segurança no trânsito.

Muitas cidades mostram que têm potencial de desenvolver bons programas, mas muitas vezes lhes faltam um plano de ação, um modelo de estrutura básica para se organizar. Suportes que podem vir de ONGs ou de organizações sociais como a Fundação Thiago Gonzaga.

A 2ª Década Mundial de Ações de Trânsito que vai de 2021 a 2030 ainda vai demandar muitas ações das cidades brasileiras e novas Vidas Urgentes serão bem-vindas. Estrelas fulgurantes como da Diza Gonzaga, claro, sempre são importantes para catalisar mais ações em prol da segurança no trânsito. A sociedade, porém, já se contentaria com a chegada de novas lideranças que passariam a assumir, doravante, o comando de movimentos sociais para ajudar o trânsito brasileiro a ser aquilo que precisa há muito tempo.

Que as asas das borboletas da Vida Urgente levem este incentivo ao restante do país. E que coloquem seus ovos em cidades férteis, que germinem e produzam resultados importantes para nossa sofrida sociedade.

*J. Pedro Corrêa é Consultor em Programas de Segurança no Trânsito

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