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Artigo: Pelé, Garrincha e Scaringella 

Artigo: Pelé, Garrincha e Scaringella
Engenheiro Roberto Scaringella em evento de 2008. Foto: ARPEN-SP

Falta ao trânsito porta-vozes para que os meios de comunicação possam utilizá-los para repercutir os fatos que ocorrem na área. Por isso, o título acima. Leia o artigo de J. Pedro Corrêa.

J. Pedro Corrêa*

Scaringella
Engenheiro Roberto Scaringella em evento de 2008. Foto: ARPEN-SP

Na histórica e inédita Semana Nacional do Trânsito de 2020, marcada por centenas de
transmissões de debates, seminários e todo o tipo de outras manifestações pela Internet, a
Câmara dos Deputados aprovou modificações do Projeto de Lei 3267/19 que, como marca
principal, afrouxou o Código de Trânsito Brasileiro. Cabe, agora, ao Presidente da República
sancioná-las, mas como foi ele mesmo quem propôs, como cumprimento de promessa de
campanha, não há dúvidas que as aprovará, com eventuais exceções.

Por que tão pouca cobertura na mídia sobre algo que afeta tantos brasileiros?

Na minha opinião por um motivo que merece reflexão: falta ao trânsito porta-vozes para que os meios de comunicação possam utilizá-los para repercutir os fatos que ocorrem na área. Por isso dei o título acima, talvez estranho, para este artigo juntando jogadores famosos e um importante gestor de trânsito.

Há muitos anos venho defendendo que precisamos ter mais Pelés e Garrinchas no trânsito, gente
que represente o setor e que possa ser referência cada vez que acontecer alguma coisa que
mereça explicações e comentários na área. Se estivesse vivo semana passada, o engenheiro
Roberto Scaringella estaria nos telejornais, páginas de jornais e nas emissoras de rádio
comentando o desastre do PL 3267 no Congresso Nacional. Não iria modificá-lo, mas boa parte da sociedade brasileira tomaria conhecimento do absurdo cometido por deputados e senadores.

Scaringella recebeu merecida homenagem no início do Conatran Online, seminário organizado
pelo Coronel Israel Moura, do Recife, na quarta-feira, 23 de setembro. Roberto morreu em junho
de 2013 e deixou um vácuo ainda não preenchido no universo do trânsito brasileiro.
Criador da CET, Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, em 1976, teve a habilidade de
convencer o prefeito Olavo Setúbal a fazer de São Paulo a primeira cidade brasileira a
municipalizar o trânsito. Foi ele quem criou a primeira escola de engenharia de tráfego do Brasil, a CET-SP, em 1976.

Foi Presidente do Contran mas frustrava-se por sentir a falta de prioridade ao trânsito não só na esfera governamental, mas também no setor privado. Uma de suas observações mais ácidas sobre o meio era a de que “quem assina orçamento de trânsito neste país, não conhece e quem conhece, não assina”.

Deixou sua marca.

É o único brasileiro presente no Hall da Fama, do National Safety Council, nos Estados Unidos, que reconhece personalidades mundiais que se destacaram no campo da segurança no trânsito. Por ter sido figura importante no trânsito, era muito procurado pelos jornalistas para analisar o que acontecia (e o que não acontecia) no trânsito brasileiro. Quando digo que nos faltam Pelés e garrinchas no trânsito quero dizer que faltam personagens que representem efetivamente o trânsito, que façam a defesa das principais propostas e que sejam capazes de, eventualmente influenciar decisões importantes sobre o setor.

Como a matéria nunca foi uma prioridade, muitos dos que são indicados para dirigir órgãos de
trânsito são pessoas não compromissadas com a área, muitas vezes sem familiaridade com o
setor, não se cercam de técnicos para montar seus planos de ação e terminam seus mandados
sem, ao menos, terem sido percebidos. Com isto, sofre o trânsito.

Fica claro, assim, que a questão não está em exigir das autoridades do andar de cima que deem
poder ao trânsito, mas que cabe a quem assumir função na área estar comprometido com ela,
usar a criatividade para buscar um lugar ao sol e, assim, tornar-se um Scaringella ou… um Pelé ou
Garricha.

Importante ressaltar que o momento oferece excelente oportunidade para gestores do trânsito na medida em que ele está às vésperas de um período desafiador: vem aí a II Década Mundial de
Ações de Segurança no Trânsito, de 2021 a 2030 e o Brasil, que não atingiu sua meta na primeira
década, precisa se redimir, recuperar o passo e tornar o trânsito mais fluido e mais seguro.

Quando falo de gestores me refiro a todos eles, nas esferas federal, estaduais e municipais.

Cada um pode escolher o universo onde comandar sua década e atingir seus objetivos de melhorar o trânsito. Competência será importante, mas comprometimento, indispensável.

*J. Pedro Corrêa é Consultor em programas de trânsito

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