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Vidas em risco: o perigoso uso do celular ao volante 

Vidas em risco: o perigoso uso do celular ao volante
Foto: Banco Free.

celular_volante_menor“Eu me lembro que era aluna da faculdade de administração e trabalhava como secretária de um consultório médico que mal pagava minhas contas.  Através de um amigo surgiu uma oportunidade em que eu poderia ganhar um bom dinheiro, comprar um carro, pagar a faculdade, comprar roupas, manter minha casa, ajudar minha família, foi um sonho.  O emprego era de propagandista de marcas farmacêuticas e eu tinha que fazer visitas de carro por todos os bairros da cidade de Porto Alegre.  A minha agenda era cheia e frenética com visitas de manhã, tarde e começo da noite em diversos consultórios médicos. Haviam metas para serem cumpridas todos os meses, mas também muitos bônus compensadores, eu realmente tinha que me virar para atender tanta gente e meu telefone celular abrigava uma agenda de contatos invejável.  Sempre dirigi muito bem e por isso acreditei que poderia dar conta de tudo, apesar de estar sempre recebendo multas, ter frequentado três vezes o curso de reciclagem por infrações de trânsito.  Respondia as solicitações dos meus clientes diretamente no aplicativo do celular enquanto dirigia ouvindo música. Era uma sexta feira a tarde, chovia e não havia muito trânsito, resolvi atender um cliente importante e confirmar o horário com a secretária do consultório enquanto dirigia. Comecei a responder e não me lembro de mais nada.  Fiquei em coma induzido por mais de 30 dias, quando voltei para a vida me contaram que eu colidi com a traseira de um caminhão.  Fiquei tetraplégica”.  (Carla Regina, 36 anos, propagandista)

“Tudo na minha vida sempre foi muito difícil. Na infância, eu saia com minha mãe para vender balas de hortelã nas ruas e avenidas da cidade de Curitiba.  Quando não haviam balas, tínhamos panos que minha mãe ganhava de uma organização que ia até a comunidade do Parolin, para distribuir materiais que poderíamos vender e termos uma pequena renda.  Eu estudava pela manhã e ajudava minha mãe a tarde a vender balas e panos.  Eu precisava vender tudo para ganhar algo pra mim também. Mais tarde, arrumei um trabalho de limpeza em uma concessionária de motocicletas e foi lá que ganhei meu primeiro salário.  Depois de alguns anos trabalhando duro, consegui pagar a minha habilitação em um CFC que ficava bem perto do meu trabalho.  Aí comprei uma motocicleta usada, uma pechincha, de 125 cilindradas e fiquei feliz da vida.  Agora eu tinha como me locomover de casa para o trabalho sem ter que pegar ônibus lotado e além disso a moto usava muito pouco combustível e assim conseguia economizar até uns trocados. Então chegou a tal da pandemia e fiquei sem trabalho.  A convite de um amigo me inscrevi na plataforma de um delivery e comecei a entregar comida o dia todo, a noite e madrugada.  Eu precisava ser esperto para não perder as entregas e quanto mais rápido trafegava por avenidas e ruas ganhava mais dinheiro. Paguei as contas, juntava todos os dias um dinheirinho pilotando por toda a cidade, o que não é fácil, mas com a ajuda do GPS no celular eu conseguia fazer as entregas cada vez em um tempo menor.  Foi assim, olhando para o visor do celular, para seguir o trajeto, que furei o sinal e perdi a minha vida.  (Paulo Roberto, 25 anos)

Carla Regina e Paulo Roberto são personagens fictícios mas de uma realidade estatística da qual nós motoristas, pedestres, agentes do trânsito, CFC’s, cursos online de reciclagem, a população em geral, presenciamos todos os dias.

As pesquisas não mentem

Diz o ditado que a pressa é inimiga da perfeição. O uso do celular ao dirigir aumenta em 400% o risco de sofrer um acidente de trânsito! Um estudo realizado pelo Centro de Experimentação de Segurança Viária – Cesvi, demonstrou que ler uma mensagem de um aplicativo como o Whatsapp, à velocidade de 80km/h equivale a dirigir por um campo de futebol inteiro com os olhos vendados.  Verificar as redes sociais como o Instagram ou o Facebook é como dirigir 4,5 segundos em média sem ver o trânsito segundo o Cesvi.  Enquanto isso as redes sociais nada fizeram para conscientizar os motoristas de todo mundo para o risco iminente de um mau hábito já globalizado: atender o celular, verificar redes sociais, compartilhar mensagens enquanto dirige.

No mês do Maio Amarelo, mês programado para a conscientização de segurança no trânsito, o Ministério da Saúde destacou o grande número de motoristas que usam celular ao dirigir.  O relatório da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico – Vigitel (pesquisa realizada em 2018) é taxativo: 19,3% dos motoristas das 26 capitais brasileiras e do Distrito Federal admitiram usar celular enquanto dirigem.  Isso equivale dizer que 1/5 dos motoristas dirigem utilizando o telefone celular.

No Brasil, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é claro:

“Art.252 Dirigir o veículo:  VI – utilizando-se de fones de ouvidos conectados a aparelhagem sonora ou de telefone celular; Infração – média; Penalidade – multa. Parágrafo único. A hipótese prevista no inciso V, caracterizar-se-á como infração gravíssima (perda de 7 pontos na CNH) no caso de o condutor segurando ou manuseando telefone celular.”

Porém permanece a pergunta, por que, apesar da infração ser gravíssima, com uma multa de R$ 293,47, ainda assim um quinto dos motoristas brasileiros insiste em correr risco de vida?
O risco compensa?
J. Pedro Corrêa, professor e consultor em programas de Segurança no Trânsito. Foto: Arquivo Pessoal
J. Pedro Corrêa, professor e consultor
em programas de Segurança no Trânsito. Foto: Arquivo Pessoal

Em Live promovida pelo Portal do Trânsito que tem o apoio da Tecnodata Educacional, o consultor em programas de segurança trânsito, autor de diversos livros na área e fundador do programa Volvo de Segurança no Trânsito, o Prof. J.Pedro Corrêa, afirma que o pesquisador canadense Gerald Wilde, desenvolveu, em 1982, a Teoria da Compensação do Risco, na qual quando há mudanças no ambiente do trânsito, visando melhorar a segurança, os motoristas trocam o ganho da segurança por ganhos na mobilidade e/ou comodidade. A consequência desta teoria é que somente seria possível reduzir os acidentes por meio de muitas mudanças no comportamento das pessoas, de forma que passassem a atuar no trânsito num patamar de segurança mais elevado.

As pesquisas apontam para os riscos assumidos dos motoristas com um perfil sugerido pela pesquisa de Gerald Wilde que afirma que os indivíduos, normalmente, não apresentam igual nível de risco assumido. Certos grupos demonstraram níveis distintos de risco: como os jovens que apresentam maior risco que motoristas mais idosos e as mulheres que assumem menor nível de risco em relação aos homens.

O fato é que ao assumir o risco o condutor espera que valha a pena receber uma infração de trânsito e que esta acabe compensando seu ganho proveniente de expectativas emocionais proporcionadas pelo trabalho, relações pessoais, compromissos, metas que precisam ser atingidas a qualquer preço onde responder um recado em uma rede social enquanto pode causar um acidente de grandes proporções, inclusive a vida do condutor e de terceiros.

Neste contexto as vidas de Carla Regina e Paulo Roberto, os personagens fictícios deste artigo, ilustram as ocorrências cometidas, diariamente, por praticamente 1/5 dos motoristas brasileiros.

Já estamos em junho, mas o Maio Amarelo, mês programado para a conscientização de segurança no trânsito, deve permanecer durante todos os meses do ano, para que o perigoso uso do celular no trânsito seja mais que um alerta aos condutores, é um risco de vida desnecessário e cujo engajamento desta conscientização precisa da colaboração e do esforço permanente da indústria automobilística, dos condutores, dos CFC’s, dos agentes de trânsito, dos dirigentes de aplicativos das redes sociais e das políticas públicas dos órgãos de Estado.

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