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Carro próprio, pra que te quero? 

Carro próprio, pra que te quero?
Alguém, lá atrás, com habilidade comercial e marketeira, nos convenceu que o poder dado pela força de dezenas de cavalos era tudo o que precisávamos para sermos felizes.
Congestionamentos nas vias
Alguém, lá atrás, com habilidade comercial e marketeira, nos convenceu que o poder dado pela força de dezenas de cavalos era tudo o que precisávamos para sermos felizes.

 

Recente pesquisa da Tom Tom, que analisou 295 cidades de 38 países em seis continentes, e foi divulgada hoje, trouxe dados referentes aos anos de 2014 e 2015 (leia aqui). A cidade do Rio de janeiro, por exemplo, está em primeiro lugar dentre as que mais geram perda de tempo no trânsito, numa lista de cidades brasileiras onde – pasmem – Curitiba aparece em nono lugar. Na lista global, que traz a Cidade do México como a pior, o Rio de Janeiro aparece em quarto lugar!

Mobilidade funcional e segura é um dos maiores desafios da vida moderna. Não que seja um problema completamente novo. A história nos conta que na Roma antiga já existiam regras tentando minimizar os conflitos entre os diferentes usuários das primeiras vias urbanas de que se tem notícia. Com a evolução tecnológica e o crescimento populacional, esse tipo de problema teve ampliações e intensificações inimagináveis. Alguns resolvidos na própria seara tecnológica. Outros que só crescem sem muita perspectiva de solução.

A quantidade de veículos automotores é um dos fatores que mais contribui para o mau funcionamento do trânsito. Mais por conta da forma com que utilizamos nossos carros e motos do que propriamente pelo índice de motorização. Não temos estrutura viária para que todos os veículos circulem ao mesmo tempo, no mesmo espaço. Se, por exemplo, desencontrarmos os horários de expediente de determinados setores da indústria, do comércio, das escolas, o nó dos congestionamentos pode ser desatado magicamente.

Também resolveríamos se mudássemos nossa forma principal de uso dos veículos, trocando o individual pelo coletivo. Países que têm muito mais veículos do que nós, em relação ao número de habitantes, como a Alemanha, não têm um trânsito tão complicado, porque o uso regular dos veículos particulares está menos associado aos deslocamentos diários do tipo casa-trabalho-casa, do que fazemos por aqui. E os alemães fazem isso, não só porque suas cidades têm boas opções de transporte coletivo. É também porque é mais barato. E mais, talvez o principal: o cidadão alemão sabe que é melhor para todos, inclusive para ele, privilegiar o uso do transporte público. Portanto, muito mais do que um problema afeto à engenharia, a forma com que utilizamos as vias públicas, ou seja, nossos hábitos, é que nos geram problemas.

No último século fomos arrebatados pelo prazer de nos deslocarmos muito mais rápido do que faríamos com nossas próprias pernas, nestas armaduras modernas que nos põem à disposição muito mais força do que um cavalo de montaria, ou alguns cavalos puxando juntos uma biga, carruagem ou carroça, como tiveram nossos antepassados. São dezenas de cavalos (mais de uma centena, conforme o poder do bolso) nos levando para lá e para cá com muita força, elegância e um prazer especial que nos faz sentir livres e meio que donos do mundo. O motorzão do ônibus ou do metrô têm ainda muito mais potência, mas esta, não nos seduz. Talvez simplesmente porque seu comando não esteja nas nossas mãos e pés. Talvez porque, egoístas que somos, queiramos o benefício do deslocamento rápido só para nós mesmos.

Alguém, lá atrás, com habilidade comercial e marketeira, nos convenceu que o poder dado pela força de dezenas de cavalos era tudo o que precisávamos para sermos felizes. Bichos sociais que somos, nos amontoamos cada vez mais em cidades. Só que, afoitos, planejamos, construímos e administramos mal nossas aldeias. E exercer essa felicidade sobre nossas próprias rodas foi ficando cada vez menos possível. A cada novo veículo deveríamos ouvir do vendedor: “Parabéns, você é agora o feliz proprietário do veículo X. Você vai poder passar raiva nos congestionamentos confortavelmente instalado numa caixa de metal, vidro e plástico que é só sua. Divirta-se!”

Um vendedor de carros na Alemanha utiliza argumentos de venda muito parecidos com os daqui. O cidadão alemão tem o mesmo desejo de curtir o prazer de dirigir. E é por isso que por lá, o índice de motorização é muito maior do que o nosso. Claro: porque eles têm muito mais grana pra gastar com isso, também. Mas o cidadão alemão não associa a aquisição do automóvel com rapidez, segurança, conforto e economia. Ele já tem isso tudo muito bem resolvido no transporte público. Por aqui, não temos nem uma coisa, nem outra. Ainda estamos na ilusão de que todos poderão ter seu próprio bólido para exercer seu sagrado direto de ir e vir sobre rodas que serão só suas. E ainda não consideramos deixar nossos carros na garagem para ir até o ponto tomar o ônibus.

Mas nada disso é novidade. Faz tempo que os especialistas apontam para a necessidade urgente de utilizarmos o trânsito de forma mais racional. E diminuir o transporte individual motorizado, ao mesmo tempo em que se oferta boas, práticas e baratas opções de transporte coletivo, é imperioso.

Falei sobre isso com a repórter Fernanda Fraga, no Bom Dia Paraná da RPCTV, afiliada da Globo, em 09/04/15.

Para assistir, clique aqui.

09.04.15_RPCTV

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