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Como frear a morte dos mais jovens no trânsito? 

Como frear a morte dos mais jovens no trânsito?

Jovens no trânsitoEles são o amor da vida de alguém. Eles são a razão de viver de alguém. Mas, eles vivem com pressa demais para tudo. Pressa para crescer, pressa para chegar, pressa para viver. Mas, de repente, o previsível é tratado como fatalidade e vem aquela baita freada na vida. A pressa é tanta que eles não freiam comportamentos e atitudes exacerbados e em questão de segundos são obrigados a frear por meses e até anos para tratamentos longos e dolorosos. Frear, talvez, para sempre, quando restam sequelados graves e até amputados. E assim, vamos perdendo  mais jovens no trânsito a cada dia. No Brasil, pessoas entre 20 e 29 anos representam 38% das vítimas de acidentes de trânsito. Os adolescentes a partir de 14 anos são a segunda categoria de vítimas jovens no trânsito e, anualmente, no Brasil, cerca de 7 mil crianças com idade até 7 anos ficam inválidas permanentemente.

Para muitos, estes são apenas dados. Talvez, abismem-se, talvez não. Mais parece que a sensibilidade só será despertada acompanhada do sofrimento de ter uma vítima como estas que citamos na própria família. Não é praga não, leitor, é constatação diária em centenas de famílias que ignoramos porque o dedo gira em torno de todo o abdômen, mas termina sempre apontando para o próprio umbigo. Não precisamos perder os nossos caçulas para a violência no trânsito para começarmos a fazer alguma coisa.

Fúria sobre rodas

Muitos pais reclamam que eles não os ouvem. Pedem para tomar cuidado, para cuidar de suas próprias vidas, para não beber demais (sabem que eles vão beber algo alcoólico), pedem para que não dirijam depois de beber, pedem para não correr e para chegarem vivos em casa. Muitos imploram, mas não adianta. A maioria dos mortos no trânsito de Blumenau são motociclistas jovens na faixa etária que mais morre e mata sobre rodas. Há também os condutores de outros tipos de veículos e até caronas que pagam o preço da imprudência do outro e o da negligência em sentar no banco do carona de um motorista bêbado que sai da balada, do pub, de uma lanchonete ou até mesmo de casa depois do “esquenta”.

Os nossos jovens são de uma geração descolada, antenada e muito bem informada. Com um clique eles se informam sobre tudo o que quiserem. Bem lembrado: sobre tudo o que quiserem, sobre tudo que lhes interessa e desde que o mundo é mundo, recomendações vindas dos mais velhos parecem sempre sermões e cantilenas. Informações, dicas, esclarecimentos, entrevistas, orientações sobre cuidados no trânsito estão na ponta do dedo, mas parece na interessar à essa geração que, desde que o mundo é mundo, parece manter o mesmo perfil desafiador, irreverente e descuidado.

Se tem uma coisa que mudou com o tempo foi que eles deixaram de ser tão ingênuos quanto os jovens de outras gerações conservadoras. Havia um tempo em que os filhos ouviam e respeitavam os pais e as transgressões eram pequenas e de consequências menos graves.

Eles sabem que o cinto de segurança protege quem senta no banco da frente ou no de trás, mas decidem não se amarrar na vida. Eles sabem que em uma queda ou tombamento de moto são as extremidades e membros inferiores e superiores os que tocam o solo primeiro e rendem desde ferimentos abrasivos graves até amputações e arrancamentos de dedos, mãos e pés, mas continuam dirigindo sem calçados adequados, luvas e outros tipos de proteções.

Eles sabem que o capacete só protege se estiver afivelado no queixo e que em caso de queda este detalhe pode lhes custar a vida, mas continuam deixando o capacete solto, sem fixação e sem afivelar a tira anatomicamente como deve ser.

Mas, se eles sabem tanto e já nascem sabendo tanta coisa, porque não aplicam o que sabem? O que está faltando para que consigamos falar com eles na mesma linguagem ou em uma linguagem que eles entendam? Será só falha ou ruído na comunicação entre gerações? Onde esta o gap, a lacuna ou o abismo?

É fato que há uma complexidade de fatores: mudou o relacionamento e a configuração da própria família, mudou a qualidade das interações entre pais e filhos, perdeu-se muito da qualidade das trocas e da afetividade. Nossa garotada já nasce sabendo muita coisa, bem informada; parece que amadurecem precocemente, mas no fundo, ainda mantém aquele velho padrão de comportamento de crianças e adolescentes: teimosos, desafiadores das figuras de autoridade, em busca de autoafirmação nos grupos a que pertencem, e por aí vai. E isso não se trata de um estereótipo, mas sim de características específicas de seres humanos em fase de desenvolvimento e formação.

Enquanto não compreendermos os nossos jovens em suas peculiaridades vamos continuar nos perguntando como chegar até eles, como sermos ouvidos por eles, como fazer com que eles se aproximem e confiem em nós, que também já passamos por essa fase e, muitos, não gostam nem de lembrar.

Temos de tomar muito cuidado com a representação que temos da nossa juventude e com os esterótipos, pois há muito garoto habilitado por aí em cima de uma moto ou ao volante de um carro que tem mais cuidado e juízo do que muitos adultos, mas a visibilidade sempre recai nos que transgridem. Até porque costumam ser a maioria.

Muitos dos comportamentos desajustados dos jovens no trânsito são fruto da imprudência, da imperícia e da negligência. Outros, esperam obter ganhos sociais ao dirigir agressivamente como se estivessem empunhando o joystick do videogame. Mas, sempre, desde que o mundo é mundo, eles foram educados por outros adultos, e sempre precisaram ser ouvidos, mesmo quando o grito de socorro não é audível e se manifesta pelas atitudes.

Será que estamos sabendo ouvir, chegar neles, compreendê-los e orientá-los?  O que cada um de nós pode fazer no âmbito da família e da sociedade para evitar que sejam mais uma vítima do trânsito?

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