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Recorde de congestionamento lembra teoria de Malthus 

Recorde de congestionamento lembra teoria de Malthus

Congestionamento no feriado

Neste feriadão prolongado de Páscoa e Tiradentes, de 4 dias para muitos e de 5 para vários funcionários públicos (ponto facultativo na Quinta-feira Santa?), os noticiários foram marcados pelos recordes de engarrafamento nas estradas do Brasil, de até mais de 100 Km numa rodovia paulista, uma verdadeira explosão demográfica de carros.

A cada ano que passa este tipo de notícia se repete, e sempre com mais intensidade, confirmando o drástico aumento na frota de carros, principalmente nos últimos 8 anos, de forma desproporcinal em relação ao aumento e melhoria da malha viária nacional e infra-estrutura complementar. A consequência inevitável são congestionamentos que migram do dia a dia das ruas para as estradas em épocas como essas.

Tais acontecimentos fazem lembrar Thomas Robert Malthus (1766-1834), um economista e pastor anglicano, o qual “pregava”, entre outras ideias, em seus trabalhos publicados entre 1798 e 1827, que o descompasso entre o crescimento populacional, que ele calculava numa progressão geométrica, e a capacidade de produção de alimentos, que ele calculava numa progressão aritmética, tornaria a fome uma aflição real para a maioria das pessoas.

Malthus ainda afirmava que qualquer melhoria no padrão de vida da grande massa é temporária, pois o consequente e inevitável aumento da população acaba por comprometer as melhorias alcançadas. O descontrole populacional consumiria os recursos disponíveis, gerando uma competição intraespecífica, até o equilíbrio populacional novamente ser reestabelecido por efeito de inanição, aniquilamento mútuo ou por extinção em função do total esgotamento de fontes de alimento.

A fim de evitar esse caos, o economista defendia o seguinte:

a) retardar o casamento;

b) castidade antes do casamento e

c) fazer nascer apenas filhos que pudessem ser sustentados.

Essas medidas poderiam ser adotadas por “sujeição moral”, como esse pensador social sugeriu, ou seja, as pessoas deveriam tomar consciência do agravamento eminente da crise que se abateria e, desde logo, voluntariamente contribuir com um comportamento restritivo em relação à natalidade. Caso isso não acontecesse, caberia ao Estado, assim como foi feito na China por décadas, impor medidas limitantes à natalidade.

Por muito tempo, todas essas preconizações da teoria matlhusiana foram contestadas porque não consideraram o aumento da capacidade produtiva e porque o aumento populacional acabou não acontecendo na proporção proposta por Malthus, que imaginava que duplicaria a cada 25 anos. Hoje, há mais problemas decorrentes de uma má distribuição de recursos do que propriamente de falta.

Mas, fazendo uma analogia simplista com a nossa realidade viária, entendendo as ruas e estradas da mesma forma que Matlhus via a capacidade produtiva de alimentos, com crescimento em taxa muito menor do que a taxa de crescimento da frota, podemos prontamente perceber que estamos trilhando um caminho certo e acelerado para um “apagão de ir e vir”. Uma conclusão tão pessimista e desesperançosa, porém realista, para a escassez de espaço viário quanto à profetizada por Malthus para a falta de alimentos.

No caso do sistema viário há de se entender que é impossível, considerando o atual modelo de transportes, o emplacamento anual de quase 3 milhões de veículos (2.841.882 em 2012, cerca de 11.200 veículos novos a cada dia útil), sem comprometimento do fluxo de tráfego. Por melhor que seja o governo (federal, estadual ou municipal), não se pode conceber duplicações, viadutos e novas vias de forma a absorver tantos novos veículos. A única culpa que pode ser indicada é que o governo federal fomentou a indústria automobilística, mas a custa de recursos que deveriam ser repassados aos municípios.

Nesse contexto, pelo menos duas consequências parecem inevitáveis:

1ª) O uso do automóvel é, e será cada vez mais, um luxo, cujo custo só tenderá a aumentar, pois quem imagina poder ir e vir ao trabalho todos os dias bem aconchegado numa “concha metálica”, às vezes blindada, desfrutando de sua música preferida e com ar condicionado ligado terá de pagar de muitas maneiras diferentes (impostos, manutenção, depreciação e, adicionalmente, com mais e mais pedágios e estacionamentos e tempo necessário para deslocamento);

2ª) O automóvel passará a sofrer várias restrições de uso, com rodízio de placas, maior número de praças de pedágio (incluindo pedágios urbanos), proibição de tráfego em determinadas áreas e em determinados horários, menor número de vias para deslocamento em consequência da designação de vias existentes para uso exclusivo de ônibus, veículos de transporte de cargas, motos e bicicletas (numa espécia de “reforma agrária” das vias).

Esse cenário revela um verdadeiro parodoxo, pois, na medida em que a maioria das pessoas passa a ter a possibilidade de aquisição de um automóvel, passa a ter menos prazer no seu uso.

Para contornar essa situação, só mesmo com investimentos maciços e urgentes na melhoria do transporte público, quem sabe como metrôs e ônibus “padrão Fifa” e, enquanto isso não é feito ou não surte resultados, com aquela “sujeição moral” proposta por Malthus, ou seja, você até pode ter um automóvel, mas use-o com moderação.

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