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Mensaleiros e Motoristas: voluntários à prisão 

Mensaleiros e Motoristas: voluntários à prisão

Mensaleiros e motoristas

O mês de novembro teve episódios marcantes para a nossa história, envolvendo política, recorde de engarrafamentos gigantes em feriadão e Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito. Mas qual seria a idadaonexão existente entre estes episódios e o nosso mercado de motos?

No dia 15 de novembro, feriado comemorativo da Proclamação da República, tivemos a oportunidade de ver pelos telejornais, como nunca antes na história deste país, parafraseando um ex-presidente nosso, a cena de um bando de “mensaleiros” se entregando “voluntariamente” para a Polícia Federal a fim de que se cumprissem os mandados de prisão que sobre eles finalmente pesavam após anos e anos de extensiva protelação. Os mensaleiros tomaram a iniciativa de sair do conforto de suas casas para ficar trancafiados numa cela. Claro que antes que a PF fosse “pedalar” as portas de suas casas.

Neste mesmo dia, os mesmo telejornais relataram as filas sem fim que tomaram conta das principais estradas deste país. Centenas de milhares de pessoas tomaram a iniciativa de sair do conforto de suas casas para ficar trancafiadas numa cela, neste caso um carro. Um fenômeno curioso e paradoxal. Afinal de contas estas pessoas livres estavam pretensamente em busca de lazer e acabaram passando de 5 a 8 horas de suas vidas vivendo um martírio dentro de automóveis, o dobro deste tempo considerando o retorno para suas casas.

Mas este era um acontecimento previsível, que costuma ser recorrente em feriadões, ainda que, até então, não com intensidade tão grande quanto a que foi registrada neste dia 15 de novembro. A culpa é do governo? Apenas em parte.

O governo não pode ser necessariamente culpado por nossas estradas não comportarem uma enorme concentração de tráfego num reduzido espaço de tempo. Acreditamos que sua culpa se deve mais pela política adotada no sentido de excessivamente fomentar e subsidiar a indústria dos carros, em detrimento de alternativas desenvolvimentistas, do que de prover condições de que todo um enorme contingente de pessoas possa ir e vir ao mesmo tempo para os mesmo lugares.

Quando, há uns três anos, o ISM – Instituto SobreMotos lançou a campanha “Motos: Solução Necessária”, já chamava a atenção para a impossibilidade das nossas vias comportarem tantos carros num mesmo tempo. Sugeria que mais investimentos deveriam ser aplicados no transporte público e que, quando se tratasse de transporte individual, os veículos de duas rodas, motos e bicicletas, deveriam ter prioridade em relação aos carros, uma mera questão de aproveitamento mais racional de um recurso escasso, o espaço viário.

É óbvio que todos têm direito a possuir um bom carro e a usufruir de conforto, quando forem acessíveis, mas é utópico imaginar que todos poderão tudo ao mesmo tempo.

Nossa cultura de culto ao carro, advinda do início do século 20, reforçada nos anos JK e insistentemente reforçada midiaticamente até hoje nos leva a imaginar que este veículo é o primaz das ruas e das estradas, o que peremptoriamente não é verdade, basta lançarmos olhos sobre a realidade de São Paulo e de outras grandes metrópoles mundiais. Rodízios, restrições de circulação por horários e locais, falta de áreas de estacionamento público, sobrevalorização das áreas de estacionamento privado e pedágios urbanos, entre outras medidas restritivas antevemos que serão aplicadas num futuro próximo em todas as nossas grandes cidades.

Por fim, o que tudo isso tem a ver com o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito?

A resposta para essa pergunta não é uma apologia contra os carros, mas um alerta para a necessidade de todos condutores se conscientizarem de que embora o veículo possa ser privado e que seu interior resguarda direitos individuais, as vias e a circulação sobre elas compreende um agir social, de respeito não só às normas, mas principalmente aos direitos dos que nos rodeiam. Esse pensar, mais do que qualquer campanha, lei ou avanço tecnológico, é o principal fator para se reduzir a mortalidade existente no nosso meio. Não pensemos como corruptores do espaço público ou amealhadores dos direitos de outrem, como um “mensaleiro do trânsito”, sejamos como somos na maior parte do tempo, bons e conscientes cidadãos.

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