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Pedestre e o game da vida diária 

Pedestre e o game da vida diária
Foto: Divulgação

Andar pelas ruas como o pedestre faz todos os dias, mais parece um game. Leia a opinião de Rodrigo Vargas.

Recentemente, fui agraciado com uma daquelas belas coincidências que a vida nos presenteia volta e meia. Ao chegar no trabalho, fui escalado para acompanhar outros dois colegas em uma ação, na qual, através de uma parceria com uma universidade, foi criado um jogo eletrônico sobre educação para o trânsito. Na ocasião, alunos da rede municipal de ensino receberam o convite para visitarem o campus da universidade e testarem o jogo em questão.

“OK, RODRIGO. MAS QUAL FOI A COINCIDÊNCIA?!” – VOCÊ PODE ESTAR SE PERGUNTANDO.

Naquele dia amanhecera chovendo e, por esse motivo, não pude ir de bike para o trabalho, como de costume.

Enquanto caminhava na companhia de um velho guarda-chuva, me peguei calculando os próximos passos. E, entre um salto e outro em torno das poças que se formavam nas imperfeições do calçamento, me senti o próprio protagonista de um jogo de Campo Minado. Além, é óbvio, da atenção despendida com as lajotas soltas,  buracos e poças de lama, nos quais estamos passíveis de um escorregão e até mesmo um tombo.

Parecendo uma mistura bizarra de dançarino de balé com frevo, assim que terminei uma sequência de saltos tive que dar meia volta e seguir pela beirada da rua, pois uma poça de lama cobria completamente a calçada de uma praça. Foi quando percebi outro desafio iminente. Uma bela quantidade de água se encontrava empoçada alguns metros a frente. Apenas na espera de um pedestre desatento passar para ser lançada como um enorme tsunami sobre sua cabeça pelo primeiro veículo que passar sobre ela.

E ao pensar nessa cena, me imaginei novamente como um protagonista de um jogo, mas dessa vez surfando nos jogos de verão do Califórnia Games.

E mal a minha “onda” termina, já me vejo diante de uma nova fase desse game frenético da vida do pedestre. Porém, após toda a emoção, essa é uma fase de resistência e, sobretudo, paciência. Muita paciência (diga-se de passagem) é necessária para esperar até que uma alma caridosa resolva parar seu veículo. E dessa forma eu possa atravessar com segurança a faixa de pedestres.

Enquanto aguardo, lembro da minha sorte de poder, apesar de todos esses percalços, ir para o trabalho diariamente a pé. A grande maioria passa por desafios bem maiores e mais extensos. É o caso daqueles que dependem de transporte público para tais deslocamentos. Jogadores que, além de todos essas lutas, ainda se veem frequentemente como uma espécie de Sonic, correndo até a parada para não perderem seus ônibus. E que, depois do embarque, precisam se deslocar numa espécie de Pitfall pelos balaústres dos ônibus superlotados, desviando dos demais passageiros para conseguirem chegar até a porta de saída.

Mas logo me desperto dos meus devaneios por uma buzina. Ela me lembra que, nesse Jogo de Paciência, quem dá as cartas não é o pedestre.

É nesse exato momento que percebo estar diante do derradeiro desafio. A fase mais difícil e perigosa de todas, na qual se encontra o chefão do jogo. Em face da espera que parece não ter fim, tento uma jogada que, pode não ser a mais segura, mas certamente é a mais utilizada pela maioria dos jogadores. E como a galinha no jogo Freeway, me lanço em meio aos veículos tentando chegar ao lado oposto da via.

Segundo dados do OBSERVAMOB DA EPTC, das 72 mortes no trânsito ocorridas durante o ano de 2021 em Porto Alegre, 22 (mais de 30%) foram de pedestres, todos por atropelamento. E dessas 22 vítimas, 12 tinham mais de 60 anos (problema já mencionado em outro artigo).

Vale lembrar que, ainda que a vida de um pedestre em um grande centro urbano possa ser comparada a um grande desafio de videogame, após o game over nenhuma dessas 22 pessoas tinha vidas extras, password nem puderam dar um continue.


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