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Sobre acidentes, genocídio e anodinia social 

Sobre acidentes, genocídio e anodinia social

Acidentes de trânsitoTodos os dias lemos, vemos e ouvimos as mesmas notícias, que parece até que se noticia o mesmo fato o mês inteiro: tantos mortos em acidentes, ciclistas arrastados, atropelados arrastados em cima do capô dos veículos, pedestres arremessados há metros de distância. Mais um acidente que destruiu famílias inteiras, grávidas mortas e bebês retirados às pressas do corpo da mãe. Motorista embriagado fere e mata não sei quantos (e saem sempre ilesos). Motorista trafegando em alta velocidade ou na contramão. Acidente grave em tal rua ou rodovia e tantas coisas que parecem que nem chocas mais, nem sensibilizam mais as pessoas. É como se fosse só mais um acidente, mais uma tragédia, mais um morto, mais um deficiente, mais um número.

Acidente? “Ah, não é comigo não, só acontece com o outro.” Motorista morto em acidente? “Ah, mas comigo não acontece porque eu dirijo desde os 10 anos de idade!”. Atropelamento? “Comigo não acontece porque sou mais rápido que os carros!”. Até a hora em que o telefone toca. Até a hora em que para uma viatura, uma ambulância ou o rabecão da funerária na frente de casa. Parece que nem nesse momento a ficha cai.

Sinceramente, eu não sei o que falta para a ficha cair para as pessoas, para o poder público e para a sociedade. Não sei o que falta para as pessoas de todas as classes sociais e culturas entenderem que estamos contamos mortos demais em acidentes de trânsito. Para entenderem que trânsito mata mais do que guerra, do que arma de fogo, mata mais do que todas as doenças cardiovasculares e tipos de câncer juntos.

Sabe o atentado terrorista de 11 de setembro, que chocou o mundo? Pois, para morrer a mesma quantidade de pessoas em acidentes de trânsito no Brasil em um ano, seriam necessários 22 atentados por ano. Mas, porque as mortes no trânsito não chocam mais?

Quando cai um avião as pessoas se chocam, se comovem, mas para o que se perde de vidas humanas em acidentes de trânsito equivale à queda de um avião por dia ou 300 aviões ao mês. Mas, parece que acidente de trânsito não comove mais.

Lembram daquela tragédia do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria? Lembram da comoção nacional, da dor e desespero das vítimas e das famílias? Pois, morrem no trânsito anualmente no Brasil o equivalente ao que morreria em 255 incêndios do mesmo tipo, ou 1,5 por ano. Para que as tsunamis deixassem a mesma quantidade de pessoas mortas em acidentes de trânsito em um ano no Brasil seriam necessárias 6 maremotos deste tipo. Mas, porque será que a ficha das pessoas, do poder público e sociedade ainda não caiu?

Seria a anodinia? Aquele sentimento de indiferença à dor do outro, aquela sensação de anestesiamento, de naturalização das tragédias no trânsito. Afinal, não é todo dia que se comete um atentado terrorista, não é todo dia que cai avião, incêndios em boates ou tsunamis, mas acidente de trânsito é diário, 24 horas por dia.

Durante muito tempo o genocídio foi definido como uma forma de extermínio de comunidades, grupos étnicos, raciais ou religiosos, ou seja, crimes contra a humanidade. Mas, não seriam os acidentes de trânsito uma forma de genocídio e também um crime contra a humanidade? Ou vai depender da seriedade com que olhamos os acidentes de trânsito e suas consequências?

Genocídio geralmente tem massacre, tem tirania, tem violência e desumanidade. Mas, diante de mortes, sequelas e prejuízos incomensuráveis em larga escala como resultado de acidentes de trânsito, não estaríamos vivendo o genocídio sobre rodas? As vias públicas já não se transformaram em campos de extermínio de pessoas e da própria humanidade das pessoas?

O quanto há de massacre, de tirania, de violência e desumanidade em um condutor que atropela e arrasta o corpo preso ao capô e em outras partes do veículo por centenas de metros?

O quanto há de desumanidade, tirania e violência em brigas de trânsito e ataques de fúria que ceifam vidas porque alguém fechou o outro ou deu uma buzinada de alerta no trânsito?

A palavra “genocídio” vem do grego “génos” (origem, nascimento) e do latim “Cid” (de caedere, matar). Não estaria a humanidade se aniquilando, se exterminando a si própria sobre rodas e motores?

Quando vejo motoristas embriagados matando inocentes, brigas de trânsito, leis brandas que iniciam com pagamento de fianças baratas e julgamentos por leis brandas que terminam com pagamento de cestas básicas e prestação de serviços comunitários, penso que, ainda que nossos dedos não tivessem puxado o gatilho, também temos sangue nas mãos.

Nesse genocídio em via pública, cada um, no âmbito de suas responsabilidades, seja cidadão, seja poder público, sejam instituições, Poderes, juristas, legisladores, deixando de fazer o que deveria ser feito, também está ajudando a exterminar a vida no trânsito.

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