‘Estão desmontando a educação para o trânsito’, alerta especialista sobre mudanças na formação de condutores

Eduardo Cadore critica propostas que pretendem flexibilizar ou eliminar a obrigatoriedade das autoescolas, alertando que o Brasil pode retroceder décadas na segurança viária e na qualidade da formação dos motoristas.


Por Mariana Czerwonka
mudanças na formação de condutores
Na avaliação de Cadore, o país não precisa de simplificação burocrática, e sim de uma reestruturação pedagógica sólida e moderna. Foto: Divulgação Detran/MS

Em meio ao intenso debate sobre o futuro da formação de condutores no Brasil, o especialista em Gestão, Psicologia e Direito de Trânsito Eduardo Cadore — também instrutor no Rio Grande do Sul — afirma que as recentes propostas de mudança não têm base técnica, mas sim interesses políticos e econômicos.

Em entrevista exclusiva ao Portal do Trânsito, Cadore faz um alerta contundente.

“Está evidente que faz parte de um interesse político. Não há necessidade de uma reformulação do processo dessa forma como está sendo feita pelo ministro dos Transportes”, afirma.

Conforme ele, há, sim, caminhos para facilitar o acesso à habilitação, especialmente para pessoas de baixa renda, mas sem desmontar o sistema educativo construído nas últimas décadas. “Já tivemos uma alteração importante na legislação, permitindo o uso de valores de multas para custear a CNH de pessoas em vulnerabilidade. Isso é avanço. O que vemos agora é uma tentativa de alterar a formação de condutores por razões que não favorecem a população, mas outros interesses econômicos”, critica.

O mito do “barateamento” da CNH

Um dos principais argumentos usados pelos defensores da proposta de desobrigar o curso em autoescolas é o suposto barateamento da Carteira Nacional de Habilitação. Cadore rebate. “Esse discurso é uma simplificação perigosa. Fala-se em custo, mas ninguém discute o poder aquisitivo da população nem as taxas cobradas pelo próprio Estado”.

Para o especialista, a narrativa de que a CNH ficaria até 80% mais barata não se sustenta diante dos números.

“Basta observar os valores das taxas estaduais. Quando se tenta reduzir custos, mira-se logo naquilo que não deveria estar em discussão: o ensino. A formação é a essência do processo. O que está em debate não é qualidade ou modernização, mas a retirada de partes fundamentais do aprendizado”, destaca.

Cadore afirma que o problema é estrutural e pedagógico, não econômico. “Como educador de trânsito, jamais aceitarei uma narrativa que transforme um processo de ensino-aprendizagem em mera burocracia para obter um documento”.

O papel pedagógico das autoescolas

Para o especialista, o papel das autoescolas é essencial em um país que nunca consolidou uma cultura de educação para o trânsito. “Os instrutores são profissionais treinados e capacitados para ensinar desde a base teórica até a prática de direção. Eles não apenas preparam o candidato para o exame, mas formam cidadãos com percepção de risco, noções de direção defensiva e respeito às normas de circulação”, explica.

Cadore alerta que, caso o formato proposto avance, o instrutor passará a ser mero coadjuvante, reduzido a um papel burocrático de “avalista para a prova”.

“Perderemos o caráter educativo. Haverá mais pessoas despreparadas nas vias e, paradoxalmente, o candidato gastará mais, porque reprovará com frequência. É um tiro no pé”, afirma.

Modernizar, sim. Desmontar, jamais.

Cadore reconhece que o sistema precisa evoluir, mas com base em evidências e diálogo técnico, não em slogans políticos.

“Defendemos que a Resolução 789 seja revista, pois há temas que precisam ser atualizados, como conteúdos teóricos, direção de veículos automáticos e competências práticas. Mas isso deve ser feito com participação dos profissionais do setor, não por imposição”, argumenta.

Ele também faz críticas ao uso indiscriminado de aulas EaD gravadas e sem interação. “Esse modelo é ineficiente para promover mudança comportamental. O trânsito envolve conhecimento técnico, mas também atitudes e valores. É uma formação que requer interação, debate e reflexão”, explica.

O que o Brasil realmente precisa

Na avaliação de Cadore, o país não precisa de simplificação burocrática, e sim de uma reestruturação pedagógica sólida e moderna. “É preciso melhorar a qualidade da formação, investir na capacitação dos profissionais e fortalecer a fiscalização. E isso deve partir do setor, que é quem entende o processo. Os políticos precisam parar de tratar o trânsito como moeda eleitoral”, adverte.

O especialista lembra que o Brasil já teve uma oportunidade de ouro em 2018, quando uma minuta amplamente debatida resultou na Resolução 726, com propostas de atualização pedagógica e modernização das avaliações. “Foi um processo técnico e participativo, mas acabou derrubado por pressões políticas. E o mais grave é que, agora, o governo ignora completamente essa base construída com diálogo”, lamenta.

Para Cadore, a direção correta é clara.

“Temos inúmeras possibilidades de melhorar o processo, reduzir custos e fortalecer a educação para o trânsito. Mas permitir que qualquer pessoa ministre aulas ou que o candidato estude por conta própria é condenar o país a um trânsito ainda mais violento”.

Um chamado à responsabilidade

Encerrando a entrevista, Cadore faz um apelo à sociedade e às autoridades.

“O setor de formação de condutores não é contra mudanças, é contra retrocessos. Se a educação para o trânsito for desmontada, todos perderemos: o Estado, os profissionais e, principalmente, a população que continuará pagando o preço nas ruas”.

Sair da versão mobile