
Quando se fala em risco no trânsito, é comum apontar o dedo para o outro motorista, para a imprudência alheia, para a falta de fiscalização ou para falhas na infraestrutura viária. No entanto, uma parte significativa dos sinistros de trânsito nasce de escolhas individuais que, à primeira vista, parecem inofensivas — e justamente por isso passam despercebidas.
No cotidiano acelerado das cidades, comportamentos perigosos acabam sendo normalizados. Pequenos desvios de conduta se repetem, viram hábito e constroem um cenário em que o risco deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina. Esse cenário se torna ainda mais sensível em um momento em que o Brasil discute e implementa mudanças profundas no modelo de formação de condutores, com redução de etapas presenciais e maior flexibilização no processo de habilitação.
A seguir, o Portal do Trânsito lista cinco atitudes comuns que reduzem a sua própria segurança — muitas vezes sem que o condutor perceba.
1. Confiar demais na própria experiência ao volante
“Dirijo há anos”, “nunca me envolvi em acidente”, “conheço bem esse caminho”. Frases como essas revelam um dos riscos mais silenciosos do trânsito: o excesso de autoconfiança.
A experiência, quando não vem acompanhada de atualização e atenção constante, pode gerar relaxamento nas decisões. O condutor passa a subestimar riscos, ignora regras básicas e reage menos aos imprevistos.
Esse comportamento tende a se agravar em um contexto no qual a formação inicial do condutor passa a exigir menos horas práticas e menos acompanhamento profissional, transferindo para o próprio motorista a responsabilidade de reconhecer seus limites — algo que nem sempre ocorre.
2. Usar o celular “só um pouquinho”
Responder uma mensagem rápida, mudar a música, conferir uma notificação. A ilusão do “só um segundo” segue sendo uma das principais armadilhas do trânsito moderno.
O uso do celular ao volante não é perigoso apenas pelo tempo em que os olhos deixam a via, mas pela quebra de atenção cognitiva. Mesmo quando o condutor volta a olhar para a pista, o cérebro demora alguns segundos para retomar o foco total na condução.
Em um cenário de formação mais flexível, no qual a conscientização comportamental pode ser superficial ou desigual, práticas sabidamente perigosas tendem a ser naturalizadas com mais facilidade.
3. Adiar a manutenção do veículo
Pneus carecas, freios desgastados, iluminação deficiente e sistemas de segurança comprometidos não costumam provocar acidentes sozinhos, mas agravam drasticamente suas consequências.
A manutenção negligenciada cria uma falsa sensação de economia, quando, na prática, aumenta o risco de falhas mecânicas justamente em situações críticas.
Quando o processo de habilitação enfatiza menos a responsabilidade técnica e preventiva do condutor, esse tipo de cuidado acaba ficando em segundo plano — especialmente entre motoristas iniciantes.
4. Acreditar que “pressa” justifica tudo
A pressa altera o julgamento, encurta a paciência e faz com que o condutor aceite riscos que normalmente não aceitaria.
Avançar um sinal, ultrapassar em local proibido ou exceder a velocidade “só para não se atrasar” são decisões que parecem pequenas, mas aumentam exponencialmente a chance de sinistros.
Sem uma formação sólida que trabalhe percepção de risco e tomada de decisão, esse tipo de comportamento deixa de ser exceção e passa a ser regra no trânsito cotidiano.
5. Ignorar o próprio estado físico e emocional
Cansaço, estresse, ansiedade, uso de medicamentos e desequilíbrio emocional influenciam diretamente a capacidade de dirigir com segurança. Ainda assim, muitos condutores insistem em conduzir mesmo quando não estão em condições ideais.
De acordo com Celso Mariano, a segurança viária passa por reconhecer limites.
“O trânsito não perdoa falhas humanas. Quanto mais o condutor ignora seus próprios limites físicos e emocionais, maior é o risco de transformar um erro comum em uma tragédia”, alerta.
Esse tipo de percepção crítica, conforme especialistas, costuma ser melhor desenvolvido quando há mediação profissional, acompanhamento contínuo e formação estruturada — pontos que vêm sendo relativizados no novo modelo de habilitação.
Quando o sistema flexibiliza, a responsabilidade individual aumenta
A redução de etapas formais no processo de habilitação pode ampliar o acesso à CNH, mas também desloca para o condutor uma parcela maior da responsabilidade pela própria segurança e pela segurança coletiva.
Em um país onde o trânsito ainda figura entre as principais causas de morte evitável, especialistas alertam que flexibilizar regras sem fortalecer a educação e a consciência de risco pode produzir efeitos contrários aos desejados.
Mais do que nunca, segurança no trânsito começa nas escolhas individuais — mas depende de um sistema que prepare o condutor para fazê-las corretamente.