Uso do celular ao volante reduz percepção do outro e ajuda a explicar milhares de acidentes no Brasil

Hábito cada vez mais comum compromete atenção, tempo de reação e capacidade de perceber pedestres, motociclistas e riscos imediatos nas vias.


Por Mariana Czerwonka
uso do celular
Toda vez que o motorista escolhe a tela em vez da via, ele reduz sua capacidade de enxergar pessoas reais ao redor. Foto: Syda_Productions para Depositphotos

Olhar uma mensagem “rapidinho”, atender uma ligação no viva-voz, responder no semáforo ou conferir a rota no aplicativo são atitudes normalizadas por muitos condutores. No entanto, por trás dessa aparente rotina inofensiva, está um dos comportamentos mais perigosos do trânsito contemporâneo: o uso do celular ao volante.

O tema do Maio Amarelo 2026 — “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas” — encontra no celular um obstáculo direto. Quando o motorista transfere parte da atenção para a tela, ele deixa de perceber o entorno com a qualidade necessária para dirigir com segurança. E isso significa enxergar menos quem está mais vulnerável: pedestres, ciclistas, motociclistas e até outros motoristas.

Não se trata apenas de desviar os olhos da pista. O celular reduz a capacidade mental de processar riscos, tomar decisões rápidas e antecipar movimentos inesperados.

Celular ao volante: infração comum e risco subestimado

Mesmo com campanhas educativas e previsão legal no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o uso do celular ao dirigir ainda é tratado por parte da população como infração menor.

Na prática, segurar ou manusear o aparelho enquanto dirige é infração gravíssima, sujeita a multa e pontuação na CNH. Mas o problema vai além da penalidade: trata-se de comportamento diretamente associado a colisões evitáveis.

O motorista que usa o celular tende a:

Em ambiente urbano, onde tudo muda em segundos, essa perda de percepção pode ser decisiva.

O cérebro não faz duas tarefas complexas ao mesmo tempo

Uma das crenças mais comuns entre condutores é: “eu consigo olhar e dirigir ao mesmo tempo”. Especialistas em comportamento no trânsito alertam que isso é uma ilusão.

Ao alternar atenção entre a via e a tela, o cérebro não executa plenamente as duas tarefas. Ele muda de foco rapidamente, perdendo qualidade em ambas.

O uso do celular gera três tipos principais de distração:

Distração visual

Quando os olhos saem da via para ler ou digitar.

Distração manual

Quando uma das mãos deixa o volante.

Distração cognitiva

Quando a mente se concentra na conversa, áudio ou mensagem, mesmo que os olhos estejam à frente.

De acordo com Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, esse terceiro fator costuma ser o mais ignorado.

“Muita gente acredita que basta manter os olhos na pista. Mas se a mente está em uma conversa ou mensagem, a percepção de risco já foi comprometida”, explica.

Quem paga o preço da distração

O uso do celular ao volante não ameaça apenas quem dirige. Muitas vezes, as principais vítimas estão fora do veículo.

Pedestres

Um pedestre que inicia travessia pode não ser percebido a tempo.

Motociclistas

Pelo tamanho menor do veículo, motos já exigem atenção ampliada. Com distração, ficam ainda mais vulneráveis.

Ciclistas

Mudanças de direção e ultrapassagens exigem leitura precisa do espaço lateral.

Passageiros e demais motoristas

Frenagens tardias e colisões traseiras afetam todos ao redor.

“Só no semáforo” também oferece risco

Outro hábito comum é usar o celular apenas parado no sinal vermelho. O problema é que muitos condutores permanecem distraídos na retomada do movimento, atrasam reação, arrancam sem observar travessias ou seguem olhando a tela após a abertura do semáforo.

Além disso, em grandes cidades, cruzamentos concentram pedestres, motos, ônibus e mudanças rápidas de fluxo — exatamente onde a atenção deveria ser máxima.

Como abandonar esse hábito

Mudar esse comportamento exige estratégia prática, não apenas boa intenção.

Antes de sair:

Durante o trajeto:

No dia a dia:

Maio Amarelo 2026: enxergar o outro começa por largar a tela

O trânsito exige leitura constante do ambiente, empatia e reação rápida. Toda vez que o motorista escolhe a tela em vez da via, ele reduz sua capacidade de enxergar pessoas reais ao redor.

“No Maio Amarelo 2026, a mensagem é direta: salvar vidas pode começar com um gesto simples — guardar o celular antes de ligar o carro”, incentiva Mariano.

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