
No trânsito brasileiro, o pedestre é frequentemente tratado como elemento secundário. Apesar de ser o usuário mais vulnerável da via, ele ainda recebe pouca atenção em campanhas educativas, projetos urbanos e políticas públicas estruturadas.
Os dados do Ministério da Saúde mostram que pedestres estão entre as principais vítimas fatais do trânsito, especialmente em áreas urbanas. Ainda assim, a educação para o deslocamento a pé é praticamente inexistente de forma contínua e sistemática.
Parte desse problema está na cultura veicular que moldou as cidades brasileiras. Durante décadas, o planejamento urbano priorizou o fluxo de automóveis, relegando o pedestre a calçadas estreitas, travessias longas e tempos semafóricos insuficientes.
Além disso, a educação para o trânsito, quando ocorre, costuma focar no condutor.
Crianças aprendem sinais básicos, mas raramente recebem orientação prática sobre travessia segura, leitura do ambiente urbano e percepção de risco.
Outro fator é a falsa ideia de que o pedestre “sempre tem razão”. Embora a legislação assegure prioridade em diversas situações, isso não elimina a necessidade de comportamento seguro. A educação do pedestre não retira direitos, mas fortalece a autoproteção.
A ausência de campanhas específicas também contribui para o problema. Enquanto motoristas são constantemente lembrados sobre multas, pontuação e fiscalização, o pedestre raramente é incluído como protagonista das mensagens educativas.
Há ainda a desigualdade social. Em regiões periféricas, onde o deslocamento a pé é mais comum, a infraestrutura é pior e o risco maior. Falta calçada, iluminação e sinalização adequada, o que torna o pedestre ainda mais exposto.
Valorizar o pedestre exige uma mudança profunda de mentalidade: entender que toda viagem começa e termina a pé. Sem isso, o trânsito continuará desequilibrado e injusto.
Colocar o pedestre no centro das políticas de mobilidade não é apenas uma escolha técnica, mas um compromisso com a vida e com cidades mais humanas.