
Imagine fazer todos os deslocamentos de um dia sem usar o carro. Para algumas pessoas, isso significaria caminhar alguns quarteirões, pegar o ônibus, usar o metrô ou ir de bicicleta. Para outras, a ideia pareceria praticamente impossível.
E talvez esteja justamente aí uma das principais reflexões propostas pelo Dia Mundial sem Carro, celebrado nesta terça-feira (22), durante a Semana Nacional de Trânsito 2026.
Mais do que convencer milhões de pessoas a abandonar o automóvel por 24 horas, a data provoca uma pergunta importante: nossas cidades permitem que as pessoas escolham outras formas de se deslocar com segurança, conforto e eficiência?
Não se trata de ser contra o automóvel
O carro desempenha papel importante na mobilidade e, para muitas pessoas, é necessário para trabalhar, estudar, cuidar da família ou realizar atividades cotidianas.
Em diversas regiões brasileiras, as distâncias são grandes e as alternativas de transporte coletivo ou mobilidade ativa são insuficientes.
Por isso, discutir o Dia Mundial sem Carro não significa tratar o automóvel como inimigo.
A questão é outra: quanto nossas cidades dependem dele?
Quando praticamente todos os deslocamentos precisam ser feitos de carro, inclusive os mais curtos, aumenta a quantidade de veículos disputando um espaço urbano que é limitado.
Congestionamentos, poluição, ruído e conflitos entre diferentes usuários são algumas das consequências.
Quem não está de carro também precisa ter espaço
A discussão se torna ainda mais importante quando observamos quem mais morre no trânsito brasileiro.
Em 2024, foram registradas 37.150 mortes em decorrência de sinistros de trânsito no país.
Desse total, 15.459 vítimas eram motociclistas, 5.682 pedestres e 1.549 ciclistas. Somados, esses três grupos representaram aproximadamente 61% das mortes.
Os números não significam que retirar automóveis das ruas automaticamente evitaria essas mortes. Eles mostram, porém, que uma parcela expressiva das vítimas está entre aqueles que possuem menor proteção física no trânsito.
E isso exige que o planejamento das cidades considere a vulnerabilidade de quem circula a pé, de bicicleta ou de motocicleta.
Caminhar deveria ser a forma mais simples de deslocamento
Todo mundo é pedestre em algum momento. Mesmo quem utiliza carro precisa caminhar entre o estacionamento e o destino. Quem usa transporte coletivo percorre trechos a pé até pontos e estações.
Apesar disso, nem sempre as cidades oferecem condições adequadas para esse deslocamento.
Calçadas descontínuas ou mal conservadas, ausência de acessibilidade, travessias longas, pouca iluminação e velocidades incompatíveis com locais de grande circulação de pessoas podem tornar um trajeto curto difícil ou inseguro.
Uma cidade que incentiva deslocamentos a pé não depende apenas de campanhas pedindo que as pessoas caminhem.
Ela precisa permitir que caminhar seja uma escolha viável.
Para usar bicicleta, é preciso sentir-se seguro
Algo semelhante acontece com a bicicleta. Perguntar por que mais pessoas não pedalam para trabalhar pode levar a uma resposta que vai além da preferência individual.
Há infraestrutura segura no trajeto? Existem ciclovias ou ciclofaixas onde são necessárias? Os cruzamentos são adequadamente projetados? Há locais seguros para estacionar a bicicleta? Os demais usuários respeitam quem pedala?
Sem essas condições, pedir que alguém substitua o carro pela bicicleta pode significar transferir para essa pessoa um risco que o próprio sistema viário não conseguiu reduzir.
O incentivo à mobilidade ativa precisa, portanto, caminhar junto com infraestrutura e políticas de segurança.
Transporte coletivo também faz parte dessa escolha
Reduzir a dependência do automóvel passa necessariamente pelo transporte coletivo.
Para que deixar o carro em casa seja uma alternativa real, ônibus, trens e metrôs precisam atender às necessidades de deslocamento da população.
Frequência, integração, acessibilidade, previsibilidade, conforto e segurança influenciam diretamente essa decisão.
Quando as alternativas não funcionam adequadamente, o automóvel deixa de ser apenas uma escolha e, para quem pode adquiri-lo, passa a ser uma necessidade.
Menos carros significam necessariamente trânsito mais seguro?
Não existe uma relação automática.
Uma rua com poucos automóveis, mas projetada para velocidades elevadas e sem travessias adequadas, pode continuar perigosa.
Da mesma forma, incentivar bicicletas sem oferecer infraestrutura compatível pode aumentar a exposição de ciclistas a conflitos.
A segurança depende da maneira como o sistema é organizado.
Por isso, cidades mais seguras combinam diferentes estratégias: velocidades compatíveis com o ambiente, infraestrutura para pedestres e ciclistas, transporte coletivo eficiente, fiscalização, desenho viário adequado e políticas que priorizem a preservação da vida.
Desacelerar também pode significar repensar a cidade
O Dia Mundial sem Carro acontece durante a Semana Nacional de Trânsito 2026, realizada entre 18 e 25 de setembro com a mensagem “Desacelere. Seu bem maior é a vida.”
Normalmente, “desacelerar” é associado imediatamente à velocidade dos veículos.
Mas a palavra permite uma reflexão mais ampla.
Talvez desacelerar também signifique questionar por que alguns trajetos de poucos quilômetros precisam necessariamente ser feitos de automóvel. Ou por que a organização de tantas cidades ocorre de maneira que atravessar uma avenida a pé pode ser mais difícil do que percorrê-la de carro.
Significa, ainda, reconhecer que mobilidade não é apenas movimentar veículos.
É permitir que pessoas cheguem aos seus destinos.
O carro continuará existindo. A cidade precisa oferecer escolhas
O objetivo do Dia Mundial sem Carro não precisa ser imaginar cidades onde nenhum automóvel circule.
Uma discussão mais realista é pensar em cidades onde o carro não seja a única alternativa possível.
Onde uma criança possa caminhar com segurança. Ainda, onde um trabalhador consiga confiar no transporte coletivo. Ou, onde uma pessoa possa pedalar sem sentir que está colocando a própria vida em risco. E onde quem realmente precisa utilizar o automóvel também encontre um trânsito menos congestionado e mais organizado.
Por isso, talvez a principal pergunta deste 22 de setembro não seja “você deixou o carro em casa hoje?”.
Pode ser outra: se você quisesse deixá-lo, sua cidade permitiria?