
Um levantamento com dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) sobre as infrações mais registradas no Brasil nos dois primeiros meses de 2026 revela mais do que um simples ranking de multas. Ele ajuda a traçar um retrato do comportamento dos motoristas brasileiros nas ruas e rodovias.
O excesso de velocidade lidera com ampla vantagem o ranking, especialmente a infração por dirigir até 20% acima do limite permitido, que ultrapassou 6,1 milhões de registros apenas em janeiro e fevereiro.
No entanto, para especialistas em segurança viária, os números revelam tendências importantes sobre como os condutores se comportam no trânsito.
A seguir, veja cinco conclusões que é possível tirar a partir desses dados.
1. O excesso de velocidade continua sendo o principal problema
Se somadas as três infrações relacionadas à velocidade — até 20% acima do limite, entre 20% e 50% e acima de 50% — o total ultrapassa 7,6 milhões de registros em apenas dois meses.
Isso mostra que o desrespeito aos limites de velocidade continua sendo um dos principais desafios da segurança viária no país.
Conforme Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, o problema não é apenas a frequência da infração, mas também o impacto que ela tem nos sinistros.
“A velocidade influencia diretamente a gravidade dos acidentes. Pequenos aumentos já ampliam muito o risco de morte ou de lesões graves. Por isso o controle de velocidade é uma das medidas mais importantes para salvar vidas no trânsito”, explica.
2. Muitos motoristas ainda desrespeitam regras básicas
Entre as infrações mais registradas também aparecem comportamentos que deveriam ser considerados básicos para qualquer condutor.
É o caso de:
- avançar o sinal vermelho ou parada obrigatória;
- usar o celular ao volante;
- não utilizar o cinto de segurança.
Todas essas infrações estão diretamente associadas ao aumento do risco de acidentes.
De acordo com especialistas, o dado mostra que ainda há espaço para avançar na conscientização e na educação para o trânsito.
3. O celular ao volante segue sendo um problema crescente
O uso do celular durante a condução aparece entre as infrações mais registradas no país, com mais de 600 mil registros nos dois primeiros meses do ano.
Apesar de amplamente divulgado como comportamento de risco, muitos motoristas ainda subestimam o perigo da distração ao volante.
Estudos indicam que manusear o celular pode aumentar em até quatro vezes o risco de acidentes, já que reduz significativamente a atenção do condutor.
4. Parte das multas não está ligada à direção, mas à documentação
Outro dado que chama atenção no ranking é a presença de infrações administrativas entre as mais registradas.
Entre elas estão:
- não registrar a transferência do veículo no prazo de 30 dias;
- conduzir veículo não devidamente licenciado.
Somadas, essas duas infrações ultrapassam 960 mil registros apenas em janeiro e fevereiro.
Isso indica que muitos proprietários ainda enfrentam dificuldades ou deixam de regularizar a situação do veículo dentro dos prazos legais.
5. Os dados mostram onde a fiscalização está mais presente
O ranking também revela indiretamente onde a fiscalização está mais concentrada.
Infrações como excesso de velocidade e avanço de sinal vermelho aparecem no topo porque são frequentemente detectadas por equipamentos eletrônicos de fiscalização, como radares e câmeras.
Isso não significa necessariamente que outras infrações não ocorram com frequência, mas sim que algumas são mais facilmente registradas pelos sistemas de fiscalização automática.
Para Celso Mariano, os dados devem ser usados para orientar políticas públicas.
“Os números ajudam a entender onde estão os principais problemas do trânsito. A partir daí, é possível direcionar melhor as ações de fiscalização, educação e engenharia de tráfego”, afirma.
Um retrato do trânsito brasileiro
Mais do que um ranking de multas, o levantamento funciona como um retrato do comportamento no trânsito.
Ele mostra que, apesar dos avanços na legislação e na fiscalização, ainda persistem desafios importantes, especialmente relacionados à velocidade, à distração ao volante e ao cumprimento das regras básicas de circulação.
Para especialistas, enfrentar esses problemas passa não apenas pela fiscalização, mas também pela educação para o trânsito e pela mudança de cultura entre os condutores.