
O crescimento das infrações de trânsito no Brasil acompanha a expansão da frota e o aumento do número de condutores, mas ocorre em uma proporção que acende um alerta para a segurança viária. Mais preocupante do que o volume geral de multas é a presença, entre as condutas mais registradas, de infrações diretamente relacionadas à ocorrência e à gravidade dos sinistros.
Levantamento realizado pelo Portal do Trânsito com base em dados do Registro Nacional de Infrações de Trânsito (Renainf), da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), mostra que o excesso de velocidade liderou com ampla vantagem o ranking nacional entre janeiro e maio de 2026. Foram mais de 19,1 milhões de notificações de penalidade nas duas faixas mais frequentes: até 20% e entre 20% e 50% acima do limite permitido.
Na sequência aparecem o avanço do sinal vermelho, com mais de 2,2 milhões de registros, e a multa pela não identificação do condutor infrator, aplicada a pessoas jurídicas, também com mais de 2,2 milhões. A falta do cinto de segurança gerou mais de 1 milhão de notificações no período, enquanto dirigir segurando ou manuseando o telefone celular somou quase 696 mil.
Os dados incluem tanto irregularidades administrativas quanto comportamentos que colocam vidas em risco. Conforme Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata Educacional, essa distinção é fundamental para compreender a gravidade do cenário.
“Quando a infração é algo mais administrativo, como deixar de transferir o veículo, vemos um descuido em relação às exigências documentais mínimas para que o trânsito funcione corretamente. O que mais preocupa é o aumento das infrações que têm correlação direta com a segurança”, afirma.
Nem toda infração representa o mesmo risco
Todas as regras de trânsito têm uma finalidade e devem ser cumpridas. No entanto, as consequências imediatas de cada descumprimento podem ser diferentes. Deixar de providenciar a transferência de propriedade do veículo dentro do prazo legal, por exemplo, gera problemas administrativos e pode resultar em penalidade, mas não costuma criar, por si só, uma situação iminente de colisão.
A situação é diferente quando o motorista ultrapassa o limite de velocidade, avança o sinal vermelho, utiliza o celular ao dirigir ou deixa de usar o cinto de segurança. Essas atitudes reduzem a margem disponível para evitar uma ocorrência ou ampliam a gravidade das lesões quando o impacto acontece.
Por isso, analisar somente o total de multas pode esconder a dimensão mais importante do problema. O número de autuações mostra quantas infrações foram identificadas pelos órgãos de trânsito, mas a natureza dessas condutas ajuda a compreender o grau de exposição ao risco nas ruas e rodovias.
Também é importante lembrar que as estatísticas representam apenas as infrações efetivamente constatadas. Muitas condutas perigosas podem não ser flagradas, especialmente em locais ou horários sem fiscalização presencial ou eletrônica.
Falta do cinto ainda provoca mortes e ferimentos graves
Embora o cinto de segurança seja um equipamento básico e obrigatório há décadas, deixar de utilizá-lo permanece entre as dez infrações mais registradas no país. Entre janeiro e maio de 2026, foram 1.079.480 notificações de penalidade por essa conduta.
Um comportamento ainda comum é o motorista usar o equipamento, mas não exigir o mesmo dos demais ocupantes. Essa negligência ocorre principalmente no banco traseiro, como se os passageiros estivessem protegidos pela posição que ocupam no veículo. “Às vezes, o condutor está com o cinto, mas os passageiros não. É como se a lei da inércia e as leis da física não valessem no banco de trás, o que obviamente não é verdade”, alerta Mariano.
Em uma colisão, o ocupante sem cinto continua em movimento na velocidade em que o veículo trafegava. Além de poder ser projetado contra bancos, painel, para-brisa ou para fora do automóvel, ele também pode atingir outras pessoas dentro do carro.
“Muitas pessoas se machucam gravemente por não utilizarem esse equipamento tão simples e já consagrado. O cinto não deve ser usado por causa da multa ou dos pontos no prontuário, mas pela segurança e pela preservação da integridade física”, reforça o especialista.
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), deixar o condutor ou passageiro sem o cinto é uma infração grave, com multa de R$ 195,23, cinco pontos na CNH e retenção do veículo até a colocação do equipamento.
Avançar o sinal vermelho cria cenário para colisões violentas
O avanço do sinal vermelho foi a segunda conduta mais registrada no levantamento nacional, com 2.286.749 notificações em cinco meses. A infração é gravíssima, acrescenta sete pontos à CNH e prevê multa de R$ 293,47.
O risco está no conflito direto entre fluxos que deveriam circular em momentos distintos. Ao desrespeitar o semáforo, o condutor pode cruzar a trajetória de outros veículos, motociclistas, ciclistas e pedestres que receberam autorização para passar. “Desrespeitar o sinal vermelho é uma receita para colisões, quase sempre com grandes danos materiais e físicos. É isso o que mais preocupa”, destaca Celso Mariano.
Em cruzamentos, muitas colisões acontecem lateralmente, atingindo regiões do veículo que oferecem menos proteção aos ocupantes do que a parte dianteira. Quando há motociclistas, ciclistas ou pedestres envolvidos, a vulnerabilidade é ainda maior.
Velocidade inadequada não se resume à placa
Os mais de 19,1 milhões de registros relacionados ao excesso de velocidade demonstram a dimensão do problema. Consideradas em conjunto, as duas faixas mais comuns dessa infração produziram uma média superior a 3,8 milhões de notificações por mês nos cinco primeiros meses de 2026.
A velocidade interfere em todas as etapas de uma situação de risco. Quanto mais rápido o veículo estiver, maior será a distância percorrida durante o tempo de percepção e reação do motorista. Também aumenta a distância necessária para a frenagem e a energia transferida em uma eventual colisão.
“O abuso da velocidade é sinônimo de alto risco. Pode resultar desde pequenos sustos até a impossibilidade de controlar o veículo antes que ele colida contra um objeto da via ou outro veículo. Por trás de quase todos os sinistros violentos há inadequações relacionadas à velocidade”, explica Mariano.
O especialista chama atenção, porém, para uma diferença importante: respeitar o limite regulamentado é obrigatório, mas nem sempre trafegar exatamente na velocidade indicada pela placa significa conduzir com segurança.
Chuva, neblina, pista escorregadia, baixa visibilidade, trânsito intenso e presença de pedestres ou ciclistas podem exigir uma velocidade menor. Portanto, a velocidade segura resulta da combinação entre o limite regulamentado e as condições reais do ambiente, do veículo e do próprio condutor. “Saber exatamente qual é a velocidade adequada vai além de obedecer ao que está na placa. Por incrível que pareça, essa desobediência não decorre apenas de teimosia ou falta de respeito. Há também falta de preparo do condutor”, avalia.
Fiscalização precisa vir acompanhada de formação
O crescimento das autuações pode refletir tanto o aumento das infrações quanto a ampliação da capacidade de fiscalização. Radares, câmeras e sistemas integrados permitem identificar condutas que antes poderiam passar sem registro.
A fiscalização é indispensável porque inibe comportamentos perigosos e responsabiliza quem descumpre as normas. Sozinha, no entanto, não consegue transformar de maneira permanente a cultura do trânsito.
A mudança também depende de formação consistente, campanhas educativas, atualização dos condutores já habilitados, infraestrutura segura e compreensão da finalidade das regras. Quando o motorista enxerga a norma apenas como uma forma de evitar multas, tende a respeitá-la somente diante da possibilidade de fiscalização.
Para Mariano, o conjunto de infrações revela uma combinação de falhas que exige resposta urgente. “É um festival de problemas, fatores e riscos vindos de diversas fontes. Quando são comportamentos que afetam diretamente a segurança, precisamos colocar as barbas de molho. Há muito a recuperar para depois avançar”, afirma.
Brasil ainda está distante das metas de segurança viária
A permanência de comportamentos perigosos entre as infrações mais frequentes também mostra a dificuldade do Brasil em cumprir os compromissos assumidos para reduzir mortes e lesões no trânsito.
A primeira Década de Ação pela Segurança no Trânsito, realizada de 2011 a 2020, terminou sem que o país alcançasse efetivamente a redução pretendida. Agora, durante a segunda década, que compreende o período de 2021 a 2030, o desafio permanece.
“Não demos conta, pelo menos não efetivamente, do avanço com o qual nos comprometemos. A piora volta em ondas cíclicas e, a cada ano, nós nos vemos novamente diante de números assustadores quando o assunto é segurança no trânsito”, conclui Celso Mariano.
Mais do que um ranking de multas, os dados representam milhões de decisões tomadas diariamente por quem dirige. Nas infrações diretamente relacionadas à segurança, obedecer à regra não significa apenas evitar uma penalidade: significa reduzir a possibilidade de uma colisão e preservar vidas.