
Os radares de velocidade média podem representar um avanço importante para a segurança viária ao estimular o motorista a respeitar o limite durante todo o percurso, e não apenas no ponto em que existe uma câmera. A tecnologia, porém, precisa ser implantada com planejamento, transparência e critérios técnicos, sem se transformar em uma simples ferramenta de arrecadação.
A avaliação é do professor Carlos Félix, do Departamento de Transportes do Centro de Tecnologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Para ele, a discussão sobre a nova forma de fiscalização precisa separar dois aspectos: a capacidade oferecida pela tecnologia e a maneira como ela será utilizada pelos órgãos responsáveis pelo trânsito.
“Precisamos separar duas coisas: a tecnologia que existe, que está cada vez mais disponível e que precisa ser regulamentada, analisada e colocada em prática, e a forma como vamos utilizá-la”, afirma.
Como funciona o radar de velocidade média
O radar tradicional identifica a velocidade do veículo em um ponto específico da via. Ao perceber a presença do equipamento, muitos motoristas reduzem a velocidade naquele local e voltam a acelerar poucos metros depois. É o comportamento popularmente conhecido como “freia no radar e acelera depois”.
A fiscalização pela velocidade média modifica essa lógica. Dois ou mais pontos registram a passagem do veículo e o sistema calcula quanto tempo ele levou para percorrer determinado trecho.
Com base na distância e no tempo do trajeto, é possível identificar a velocidade média desenvolvida pelo motorista durante o percurso. Dessa maneira, não basta reduzir apenas diante da câmera: é necessário manter uma condução compatível com o limite ao longo de todo o trecho monitorado. “A preocupação deixa de ser apenas passar devagar pelo radar e passa a ser conduzir adequadamente dentro das velocidades previstas durante todo o percurso”, explica Félix.
Na avaliação do professor, essa mudança pode contribuir para a segurança viária porque incentiva um comportamento mais constante e reduz a prática de freadas bruscas seguidas de novas acelerações.
Local precisa ser tecnicamente justificado
Apesar de considerar a tecnologia positiva, Carlos Félix ressalta que os equipamentos não podem ser instalados simplesmente com o objetivo de aumentar a aplicação de multas.
“O radar não pode ser instalado simplesmente para arrecadar. O critério principal de instalação e localização deve ser a segurança viária”, defende.
A escolha dos trechos, segundo ele, precisa estar amparada em estudos que considerem as características da via, as condições operacionais, a velocidade normalmente praticada pelos veículos, o histórico de ocorrências e o risco potencial de sinistros.
Curvas, trechos retos, visibilidade, fluxo de veículos, presença de pedestres, acessos laterais e registros de acidentes estão entre os elementos que podem ajudar a demonstrar tecnicamente a necessidade da fiscalização. “É preciso saber onde os sinistros estão acontecendo e quais são os riscos existentes. O trecho que será monitorado precisa ser tecnicamente justificado”, afirma.
Reduzir a velocidade não resolve tudo sozinho
O professor também alerta que a fiscalização da velocidade não deve ser tratada como uma solução isolada para todos os problemas de segurança no trânsito.
Dirigir dentro do limite reduz riscos e pode diminuir a gravidade das colisões, mas os resultados dependem de um conjunto de medidas. Nesse contexto, Félix cita a chamada política dos três “Es”: engenharia, educação e fiscalização — esta última associada ao termo em inglês enforcement.
Na prática, isso significa que uma rodovia segura precisa ter projeto adequado, boas condições de pavimento, curvas compatíveis com a velocidade regulamentada, distâncias suficientes de visibilidade e sinalização compreensível.
Essas condições devem ser acompanhadas pela educação para o trânsito e por uma fiscalização eficiente. “Precisamos de uma rodovia bem projetada em termos de engenharia, com sinalização adequada, educação para o trânsito e fiscalização eficiente”, resume.
Sem esse conjunto de ações, o radar corre o risco de atuar apenas sobre uma consequência, sem enfrentar outros fatores que contribuem para os sinistros.
Motorista deve saber onde começa a fiscalização
Outro ponto considerado fundamental é a transparência. O condutor precisa compreender qual é o limite de velocidade, onde começa e termina o trecho fiscalizado e quais regras serão consideradas pelo sistema.
Para Félix, a implantação da tecnologia não deve criar uma espécie de armadilha para o motorista. A sinalização precisa ser clara, visível e instalada com antecedência suficiente para que o condutor possa adequar sua velocidade de maneira segura. “A tecnologia deve ser utilizada não para produzir uma armadilha, mas para produzir um comportamento seguro”, afirma.
A transparência também ajuda a reforçar o caráter preventivo da fiscalização. Quando o motorista entende como o sistema funciona e por que determinado trecho exige uma velocidade menor, o cumprimento da regra deixa de estar ligado somente ao medo de receber uma multa.
Objetivo deve ser mudar o comportamento
Para Carlos Félix, a fiscalização pela velocidade média pode provocar uma mudança cultural importante ao mostrar que o limite precisa ser respeitado durante todo o trajeto.
O objetivo não deve ser fazer o condutor temer o equipamento, mas compreender que sua conduta interfere diretamente na própria segurança e na vida das demais pessoas que utilizam a via.
“O trânsito seguro não se faz com o motorista freando diante da câmera ou da ação policial. Ele acontece quando o condutor entende que, atrás do volante, existe uma responsabilidade: a sua vida e a vida dos outros”, destaca.
Por isso, o professor considera a tecnologia especialmente útil em trechos de maior risco. Desde que seja adotada com planejamento, sinalização clara, transparência e fundamento técnico. “O bom radar não é aquele que produz mais multas. É aquele que consegue produzir menos acidentes”, conclui.