
Passar horas ao volante faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Seja no transporte de cargas, na condução de ônibus, no trabalho por aplicativos ou mesmo nos deslocamentos diários, permanecer sentado durante muito tempo pode trazer consequências para a saúde da coluna. No Dia Mundial da Coluna, celebrado em 16 de outubro, o alerta é para um cuidado que muitas vezes passa despercebido: a ergonomia na direção.
A posição do banco, a distância em relação ao volante, o apoio das costas e até as vibrações transmitidas pelo veículo influenciam as condições físicas de quem dirige. Quando esses fatores não recebem atenção, podem favorecer desconfortos musculares e contribuir para problemas que se desenvolvem ao longo do tempo.
Uma revisão científica publicada no Journal of Occupational Health identificou fatores associados às dores musculoesqueléticas entre motoristas profissionais, incluindo posturas inadequadas, vibração de corpo inteiro e movimentos repetitivos.
O assunto também ganha espaço na indústria, onde novas tecnologias estão sendo utilizadas para identificar riscos ergonômicos antes que eles se transformem em problemas de saúde.
Inteligência artificial ajuda a identificar riscos à saúde dos trabalhadores
Na fábrica da AGCO, em Canoas, no Rio Grande do Sul, uma ferramenta de inteligência artificial reduziu de até quatro horas para aproximadamente dez minutos o tempo necessário para realizar uma análise ergonômica.
O processo começa com a gravação em vídeo das atividades realizadas pelos trabalhadores. Um software processa as imagens, produz uma representação tridimensional do corpo e analisa os movimentos com base em critérios de fisiologia e biomecânica.
A tecnologia permite identificar quais regiões do corpo estão mais sobrecarregadas e direcionar intervenções para melhorar as condições de trabalho.
Conforme a empresa, em uma das linhas de produção, as melhorias implementadas a partir dessas análises contribuíram para uma redução de 33% no nível de risco ergonômico identificado.
“A inteligência artificial nos ajuda a visualizar de maneira objetiva onde estão os maiores esforços e tensões do corpo durante a execução de uma tarefa. Mesmo em atividades classificadas como de risco moderado, conseguimos identificar, por exemplo, que o ombro esquerdo está mais sobrecarregado do que o direito. Com isso, conseguimos ser mais assertivos nas intervenções e priorizar o que precisa ser corrigido”, explica Bruna Malaguti, diretora de Meio Ambiente, Saúde e Segurança da AGCO para a América Latina.
Os resultados dizem respeito às atividades industriais analisadas pela empresa, e não a avaliações realizadas com motoristas. Ainda assim, a iniciativa demonstra como a identificação de movimentos e posições de risco pode orientar melhorias nos ambientes de trabalho.
Por que a coluna dos motoristas merece atenção?
Dirigir exige uma combinação de movimentos e posições mantidas durante períodos prolongados. Enquanto as mãos controlam o volante, os pés acionam os pedais e o corpo permanece apoiado no banco, a musculatura precisa sustentar a postura e responder às movimentações do veículo.
Para quem trabalha dirigindo, essa exposição pode se repetir por várias horas ao longo da semana.
A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho destaca que motoristas profissionais estão sujeitos a fatores de risco musculoesquelético relacionados à permanência prolongada na posição sentada, às posturas inadequadas e às vibrações transmitidas pelo veículo.
Essas condições podem contribuir para dores na região lombar, no pescoço e nos ombros. O risco varia conforme as características da atividade, o veículo utilizado, a duração da exposição e as condições individuais de saúde.
Além disso, dirigir com o banco excessivamente afastado, o encosto muito reclinado ou o volante fora de uma posição confortável pode exigir esforços desnecessários para alcançar os comandos.
Vibrações também podem afetar a coluna
Um aspecto menos conhecido da ergonomia ao volante é a exposição às vibrações. Irregularidades no pavimento, impactos e movimentos da suspensão podem transmitir oscilações ao corpo do motorista, especialmente por meio do banco.
De acordo com a Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos (OSHA), a exposição à vibração de corpo inteiro está associada a maior ocorrência de relatos de dor lombar em atividades como a condução de caminhões, tratores e máquinas pesadas.
Isso não significa que qualquer vibração provoque uma lesão. A intensidade, a duração da exposição e a combinação com outros fatores ergonômicos precisam ser consideradas.
A preocupação é especialmente relevante para profissionais que conduzem veículos pesados ou equipamentos agrícolas durante jornadas prolongadas.
Ergonomia também influencia o desenvolvimento dos veículos
A preocupação com a saúde dos operadores já aparece no projeto de máquinas agrícolas e outros equipamentos utilizados profissionalmente.
Entre as soluções adotadas estão bancos com sistemas de suspensão, cabines mais espaçosas, isolamento de ruídos e vibrações, climatização e comandos posicionados para facilitar a operação.
A AGCO cita como exemplo o desenvolvimento de tratores com recursos destinados a melhorar as condições de trabalho no campo, incluindo soluções para reduzir a transmissão de calor, ruído e vibrações à cabine.
“Quando falamos em ergonomia, não estamos tratando apenas de conforto, mas de como a máquina pode se adaptar à rotina do operador. Cada detalhe do projeto é pensado para facilitar a operação e proporcionar melhores condições de trabalho durante as jornadas no campo”, afirma Eder Pinheiro, gerente de Marketing de Produto Tratores da Massey Ferguson.
O mesmo princípio pode ser aplicado à direção de automóveis, caminhões e ônibus: os comandos devem estar acessíveis, a posição de condução precisa permitir movimentos adequados e o banco deve oferecer apoio compatível com as necessidades do motorista.
Como ajustar a posição ao volante e reduzir o desconforto?
Alguns cuidados simples podem melhorar as condições de quem passa muito tempo dirigindo.
- Ajuste a distância do banco. O motorista deve conseguir acionar completamente os pedais sem precisar esticar excessivamente as pernas ou afastar as costas do encosto.
- Mantenha as costas apoiadas. O encosto deve oferecer sustentação confortável, especialmente na região lombar. Uma inclinação excessiva pode exigir que o motorista projete a cabeça e os ombros para a frente.
- Regule o volante. Quando houver ajuste de altura e profundidade, a posição deve permitir alcançar o volante sem manter os braços totalmente estendidos ou os ombros tensionados.
- Observe a altura do banco. A regulagem precisa garantir boa visibilidade da via e do painel, sem comprometer o acesso aos comandos.
- Ajuste corretamente o apoio de cabeça. O equipamento deve ficar posicionado conforme as orientações do fabricante, pois também tem função de proteção em determinadas colisões.
- Faça pausas durante trajetos longos. Sempre que possível, pare em local seguro, saia do veículo e caminhe um pouco. A mudança de posição ajuda a interromper períodos prolongados de imobilidade.
- Não ignore dores persistentes. Desconfortos recorrentes, formigamentos ou limitações de movimento devem ser avaliados por um profissional de saúde.
Essas recomendações não substituem uma avaliação individualizada, especialmente para motoristas que já apresentam problemas na coluna.
Qual é a relação entre ergonomia e segurança no trânsito?
A ergonomia não deve ser vista apenas como uma questão de conforto.
Uma posição de direção adequada permite alcançar os comandos com mais facilidade e contribui para que o motorista realize os movimentos necessários à condução sem esforços excessivos.
Por outro lado, desconfortos importantes e fadiga física podem tornar a atividade mais desgastante. De acordo com Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, a ergonomia é um aspecto importante da segurança viária porque o motorista precisa estar em condições físicas adequadas para dirigir.
“Ajustar corretamente o banco, o volante e os espelhos não é apenas uma questão de conforto: é uma forma de facilitar o controle do veículo e reduzir esforços desnecessários. Para quem passa muitas horas dirigindo, as pausas também são fundamentais”, explica.
O cuidado merece atenção especial entre motoristas profissionais, mas não deve ficar restrito a eles. Quem passa muito tempo em congestionamentos ou realiza viagens frequentes também pode se beneficiar de ajustes adequados e de uma rotina que evite longos períodos na mesma posição.
Prevenção deve fazer parte da rotina
O Dia Mundial da Coluna é uma oportunidade para lembrar que a saúde de quem dirige também integra a discussão sobre mobilidade e segurança.
A experiência da indústria com ferramentas de análise ergonômica mostra que identificar riscos e modificar condições de trabalho são estratégias importantes de prevenção.
No trânsito, a atenção começa com medidas acessíveis: conhecer os ajustes do próprio veículo, respeitar os limites do corpo, programar pausas e buscar orientação profissional quando necessário.
Afinal, cuidar da coluna não é uma preocupação exclusiva de quem sente dor. É também uma forma de preservar a saúde e as condições de trabalho de quem depende do volante todos os dias.