Como os binários podem ajudar na mobilidade urbana?

Os binários são intervenções capazes de solucionar os problemas de congestionamento, segurança e organização.


Por Pauline Machado
Binários
Curitiba aposta em diversas intervenções de engenharia para melhorar a fluidez, como os binários. Foto: Ricardo Marajó/SMCS

Um dos grandes desafios das cidades brasileiras ainda é encontrar o padrão ideal de mobilidade urbana, que além de sustentável, proporcione possibilidades de termos maior fluidez no trânsito, mantendo, acima de tudo, a segurança de todos. Dentre as intervenções que contribuem para isso estão os binários, alternativas capazes de solucionar os problemas de congestionamento, segurança e organização.

Mas, na prática, você sabe o que são e como podem ajudar efetivamente na mobilidade urbana?

Para esclarecer essa e outras dúvidas, conversamos com a especialista em Trânsito e em Mobilidade Urbana, Mércia Gomes.

Acompanhe a entrevista!

Portal do Trânsito – Qual é o grande desafio das cidades contemporâneas ao pensar em mobilidade urbana no Brasil?

Mércia Gomes – Os grandes desafios da mobilidade urbana brasileira passam pelo trânsito das grandes e médias cidades. Com o aumento da renda média dos brasileiros, aumento dos veículos nas ruas e preferência por transportes individuais, o ir e vir nas cidades está cada vez mais caótico. Além desse cenário, destaca-se que a desigualdade nas grandes cidades reflete diretamente quanto aos projetos beneficiarem a população de baixa renda. Todavia, o deslocamento e ausência de transporte público de qualidade tem sido um desafio às administrações.

Nas cidades contemporâneas há um fluxo cada vez maior de pessoas, informações e indústrias, inclusive mercadorias, as quais se definem como paisagem urbana. Possui uma distinção das coberturas territoriais dos meios de transportes e as infraestruturas coletivas, que nesse sentido influenciam as opções de transportes dos indivíduos.

Para desenvolver projeto de mobilidade urbana em grandes cidades, faz-se necessário lembrar que é de suma importância adentrar do Estatuto da Cidade – Lei 10.257/2001 que determina desenvolvimento de projeto da “Cidade para pessoas” com:

Atualmente o tema tem sido bastante discutido diante da necessidade de desenvolvimento e aprovação do projeto. Além da pesquisa de campo de bairros e pessoas que necessitam de meio de transporte diariamente para ir e vir ao trabalho.  

Portanto, o maior desafio é adentrar globalmente nos requisitos necessários que abrangem a sociedade em sua igualdade e bem estar, pois são territórios que evoluem e se transformam de modos distintos ao longo do tempo, ganham novas facetas e possuem características próprias de processo em constante mutação.

Por tal razão necessitam inverter o paradigma das cidades construídas à imagem de automóvel, uma vez que o automóvel ou mesmo a intervenção neste segmento pode qualificar ou mesmo desqualificar o espaço público. Dito isso, é necessário a transformação em menos carros, menos rodovias, mais cidades inteligentes, mais gente, mais bicicleta, ciclovias, transporte público com taxa zero e qualidade.

Portal do Trânsito – Neste aspecto, qual seria o padrão de mobilidade urbana ideal para garantir a sustentabilidade e segurança no trânsito?

Mércia Gomes – Mobilidade urbana é o deslocamento de pessoas ou bens em uma cidade, que para ser sustentável, deve passar por um rigoroso planejamento urbano. O incentivo ao uso de ciclovias, transportes coletivos, caronas coletivas, rodízios de carros e até mesmo pedágios urbanos poderia melhorar a locomoção. Além disso, diminuir os impactos ambientais causados pelo excesso de veículos nas ruas, um dos principais entraves a uma boa mobilidade.

O uso de bicicletas e possíveis carros elétricos auxiliaria também na mobilidade sustentável, pois evitaria, nessas modalidades, a emissão de poluentes nos centros urbanos. Ademais, a criação de parques urbanos para o descanso populacional e realização de atividades físicas faria com que as pessoas priorizassem andar a pé nas curtas distâncias em vez de tirar o carro da garagem. Mais do que se exercitar, essas pessoas contribuíram para a temática ambiental, deixando a cidade mais limpa e menos barulhenta.

Além disso, algumas outras ações são importantes ao pensar na sustentabilidade da mobilidade urbana:

Portal do Trânsito – Pensando nas grandes cidades brasileiras qual seria o papel dos binários como uma das soluções para a mobilidade urbana?

Mércia Gomes –  Os binários têm objetivos em relação a distribuições das mãos de direção das vias para uma fluidez melhor no trânsito. O sistema binário de trânsito consiste em transformar vias paralelas e próximas, de mão dupla, em vias de sentido único, podendo vir a contribuir no melhor uso do espaço da via e na diminuição de conflitos entre veículos, pedestres e ciclistas. Desse modo, o objetivo é melhorar o fluxo de veículos e tornar a via mais rápida.

Nas grandes cidades, a população tende a utilizar mais o transporte individual. A preferência por este tipo de transporte, muitas vezes está ligada ao conforto e privacidade, contrário ao encontrado no coletivo urbano, além da praticidade e agilidade que o transporte particular proporciona. Com essa preferência do transporte individual, aumenta de maneira significativa a quantidade de veículos nas vias.

A lei 12.587/2012 – Lei de mobilidade urbana, estabelece parâmetros que priorizam os meios de transporte não motorizados e coletivos de transporte em relação ao transporte individual motorizado. Ela traça princípios que visam a acessibilidade universal, o desenvolvimento sustentável das cidades nas dimensões socioeconômicas e ambientais, gestão democrática e controle social do planejamento e avaliação da política nacional de mobilidade urbana e segurança nos deslocamentos das pessoas. São esses alguns dos princípios que devem ser atrelados, por isso, o sistema binário é específico em  relação às mãos de direção das vias para melhor fluidez.

Portal do Trânsito – No entanto, quais são os desafios para a implantação do binário a fim de termos maior fluidez no trânsito nas grandes cidades?

Mércia Gomes – Como desafio, é reconhecer o problema de pesquisa e avaliar uma possível implantação de um sistema de binário de trânsito. Por exemplo numa avenida onde possui trecho que se encontra um grande gargalo, retardando o acesso dos veículos ao centro da cidade.

Ademais, o sistema de transporte no cenário brasileiro tem enfrentado crise de mobilidade urbana devido ao crescimento desordenado das grandes e médias cidades que se enquadram nessa realidade. Visando desenvolver um estudo para propor a implantação de um Binário de trânsito em vias de grande fluxo, esparrar-se uma diminuição no tempo de espera para outros acessos dessa integração, desta forma possibilita uma maior fluidez dos veículos e evita a ocorrência de acidentes entres condutores, permitindo maior qualidade para os usuários das vias.

O binário como solução operacional deve ser concebido quando acidentes envolvendo mais de um automóvel, pedestres e ciclistas, se caracterizarem devido ao tráfego em dois sentidos; conversões à esquerda são difíceis para saída e acesso da via em questão; semáforos deixam de ordenar apenas a preferência de passagem e passam a ser indispensáveis para algum tipo de movimento veicular que poderia ser resolvido de outra forma. Além disso, congestionamentos causam o aumento excessivo do tempo de viagem do transporte coletivo. E daí diminui a frequência de ônibus em uma determinada região, necessitando do aumento da frota para atender a demanda existente de passageiros.

Portal do Trânsito – Pensando nas soluções para a mobilidade urbana, os binários por si só fariam efeito ou é preciso alguma demanda paralela, em conjunto para dar fluidez ao trânsito nas grandes cidades brasileiras? 

Mércia Gomes – Não. Mobilidade urbana está atrelada à Lei N° 12.587 de 2012, que traz a Política Nacional de Mobilidade Urbana sustentável e tem seus princípios. Nesse sentido, existem diversos modelos e segmentos para auxiliar de acordo com região e população da cidade.

Para que a circulação nas vias seja feita de maneira mais eficiente e apropriada, com o crescimento populacional, é necessário ações que interfiram na atual configuração. E estas interferências devem permitir uma melhor circulação. Para essa melhoria existem ferramentas, sendo uma delas os binários, que é a inversão de sentido de ruas paralelas.

A mobilidade urbana pode ser entendida como resultado da interação dos fluxos de deslocamento de pessoas e bens no espaço urbano. Isso compreende tanto o fluxo motorizado quanto o não motorizado.

Pode considerar a mobilidade urbana como um atributo da cidade, sendo determinado principalmente pelo desenvolvimento socioeconômico, pela apropriação do espaço e pela evolução tecnológica, enquanto o transporte público corresponde apenas aos serviços e formas de transportes utilizados no deslocamento dentro do espaço urbano.

O impulso da população de uma forma geral é utilizar o transporte individual. O que acaba determinando o tipo de circulação urbana predominante nas cidades brasileiras. A consequência é o aumento no custo social, menor mobilidade, congestionamento das vias e menor prioridade ao transporte não motorizado.

Na sociedade moderna existem diferentes automóveis, que têm dimensões, massa e velocidade distintas, logo, é importante conhecer e diferenciar os tipos de veículos. Cada um contém uma composição diferente sendo primordial esta diferenciação, pois influenciam em diversos aspectos sendo eles, o tipo e a quantidade de veículos que circulam em uma via influenciam sua capacidade de escoamento, na sua construção.

Habitualmente as vias tendem a oscilar o fluxo de acordo ao horário de pico entre manhã e tarde. Esta mudança é perceptível em pistas com mão dupla, em que as possibilidades de ultrapassagem são limitadas.

Para estabelecer um estudo com o objetivo de realizar um projeto sobre determinada via, deve-se delimitar as rotas, origem e destino, intervenção do fluxo e rotas pré-existentes. Estes itens se correlacionam de maneira direta com a necessidade de delimitar a área a ser estudada.

Por fim, não apenas o sistema binário é suficiente para grandes cidades, possuímos diversos modais para implantação nas grandes cidades.

Portal do Trânsito – Para finalizar, podemos entender os binários como uma tendência ou como prioridade para a mobilidade urbana?

Mércia Gomes – Pode ser tido em ambos os aspectos, ou seja, depende da região e necessidade. Isso porque o sistema binário de trânsito consiste em transformar vias paralelas e próximas, de mão dupla, em vias de sentido único. Dessa forma, podendo vir a contribuir no melhor uso do espaço da via e na diminuição de conflitos entre veículos. Desse modo, será considerado uma tendência e prioridade em diversos projetos pontualmente daquela cidade.

Veja que o sistema binário refletirá quando do aumento do número de carros em uma rua que integra o binário pode levar à retirada das faixas de estacionamento. Inicialmente de um lado e depois de outro.

Além disso, o maior movimento de veículos altera a vida do pedestre nas proximidades do binário. Logo, o trânsito mais intenso pode dificultar o deslocamento a pé pela região.

O zoneamento da cidade também pode ser modificado com a criação do binário. Em alguns casos, há praças ou determinadas propriedades que precisam ser ‘d‘ivididas’, para que o binário passe em um determinado local.

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