O trânsito rouba tempo, saúde e qualidade de vida, alerta professor da USP

Congestionamentos prolongam a exposição à poluição, afetam o sono reforçando a urgência por transporte coletivo sustentável e cidades mais equilibradas.


Por Redação
trânsito e saúde
Congestionamentos prolongam a exposição à poluição e afetam o sono. Foto: dndavis para Depositphotos

O trânsito das grandes cidades, especialmente em São Paulo, não é apenas um desafio de mobilidade. Ele representa uma perda significativa de tempo, um risco à saúde e um fator de desigualdade social. A análise foi feita pelo médico patologista Paulo Saldiva, professor da Universidade de São Paulo (USP), em sua coluna Saúde e Meio Ambiente, transmitida pela Rádio USP.

Conforme o especialista, o trânsito impacta a vida dos cidadãos em diversas dimensões. “Ele nos rouba tempo, não só de sono, pois precisamos acordar mais cedo, mas também de descanso e de outras atividades, porque chegamos mais tarde em casa. E, mesmo quando chegamos, ele continua nos incomodando, seja pelo barulho constante, seja pela alteração do nosso humor”, destacou.

O ruído que não para

Para Saldiva, o barulho do tráfego é um dos problemas menos visíveis, mas de grande impacto. “O ruído subliminar que percorre as ruas estimula a cóclea, prejudicando a qualidade do nosso sono”, explicou. Além disso, dirigir em uma metrópole como São Paulo dificilmente é uma experiência agradável, o que interfere diretamente no bem-estar psicológico dos motoristas.

Mais tempo no trânsito, mais poluição no corpo

Apesar dos avanços regulatórios e da melhoria da qualidade veicular, que reduziram as concentrações de poluentes no ar, o professor lembra que isso não se refletiu da mesma forma na saúde dos cidadãos. Isso porque o tempo gasto no trânsito aumentou.

Saldiva fez uma comparação didática.

“É como se antes tivéssemos uma concentração alta de poluição, semelhante à vodca, mas ingeríssemos apenas um copo. Hoje, a concentração é menor, mas passamos tanto tempo expostos no trânsito que a dose total inalada pode ser ainda mais prejudicial”.

Com a saída das indústrias das áreas centrais, o trânsito tornou-se a principal “chaminé” das cidades, emitindo gases e partículas nocivas não só pela combustão dos veículos, mas também pela ressuspensão de poeira e do solo.

O impacto desigual

Outro ponto ressaltado pelo professor é a desigualdade social relacionada à exposição aos poluentes. Pessoas de menor renda, que em geral vivem mais longe do trabalho, passam mais tempo no deslocamento e, consequentemente, inalam mais poluição. “Isso afeta diretamente a dignidade da cidadania. São pessoas que perdem tempo de descanso, de estudo e de convivência familiar, além de terem a saúde mais prejudicada”, observou.

Estudos realizados na cidade de São Paulo mostram que até mesmo em não fumantes é possível identificar, nos pulmões, pequenas marcas escuras — uma espécie de “tatuagem” deixada pela poluição.

Sustentabilidade em pauta

Saldiva conclui com um alerta sobre a necessidade de mudanças urgentes nos padrões de mobilidade urbana.

“Não há como ser sustentável quando utilizamos cerca de 2 mil quilos de lata para transportar 70 quilos de ser humano. O tempo é de reflexão e mudanças”, afirmou.

A mensagem do especialista reforça o papel das políticas públicas e das escolhas individuais na busca por cidades mais humanas, menos poluídas e mais equilibradas.

A íntegra da fala pode ser ouvida na coluna Saúde e Meio Ambiente, apresentada pela jornalista Sandra Capomaccio na Rádio USP.

Sair da versão mobile