
A falta de sinal de celular nas rodovias brasileiras pode comprometer desde a navegação até o acionamento de socorro em emergências. Para reduzir essas lacunas, o governo federal anunciou uma mudança nas regras do setor: a partir de 2027, motoristas poderão acessar automaticamente a rede de outras operadoras quando a sua própria não estiver disponível. A medida integra um plano para ampliar a cobertura móvel nas rodovias federais de 27,2 mil para 57,1 mil quilômetros até 2030.
Lançada no início de outubro pelos ministérios das Comunicações e dos Transportes, a Política Nacional de Conectividade em Rodovias prevê levar sinal a 77% da malha federal. Considerando também as rodovias estaduais, a meta chega a 72,3 mil quilômetros com cobertura 4G ou 5G.
O principal instrumento será o roaming obrigatório, que permitirá ao celular utilizar a rede de uma concorrente sem que o usuário precise trocar de chip, número ou plano. Segundo o governo, o compartilhamento das redes deve elevar a disponibilidade de sinal nas rodovias federais de 36,6% para 58,9%, alcançando 44,1 mil quilômetros.
A estratégia busca aproveitar antenas já instaladas para acelerar a expansão sem depender exclusivamente da construção de novas estruturas.
Há, porém, um limite: o roaming só funciona onde pelo menos uma operadora oferece sinal. Nos trechos sem cobertura de nenhuma empresa, será necessário instalar novas antenas e estações rádio-base.
A conectividade tem peso especial para quem depende do celular para trabalhar. Levantamento da Machine mostra que Vivo e Claro concentram mais de 80% das linhas utilizadas por motoristas e entregadores. Entre os motoristas, a Vivo lidera com 41%, seguida pela Claro, com 40,7%, e pela TIM, com 13,1%. Entre os entregadores, a Claro aparece à frente, com 45,7%, enquanto Vivo e TIM registram 33,8% e 16,3%, respectivamente.
Conforme Vinícius Guahy, coordenador de conteúdo e comunidade, o domínio das duas grandes operadoras não é apenas estatístico, mas estratégico.
“Motoristas e entregadores dependem de cobertura estável para maximizar ganhos e evitar prejuízos causados por falhas de conexão. Em um setor em que cada minuto offline pode significar perda de corridas ou entregas, a escolha da operadora deixa de ser apenas uma questão de conveniência e passa a ser decisiva para o rendimento diário”, afirma.
A concentração em duas operadoras evidencia a importância da cobertura oferecida por essas redes para profissionais que precisam permanecer conectados durante a jornada.
Para motoristas e entregadores, perder o sinal pode significar não apenas ficar sem acesso a mapas, mas também enfrentar dificuldades para receber solicitações e manter a atividade. O roaming poderá ampliar as alternativas de conexão, embora a experiência ainda dependa da existência de infraestrutura nos trechos percorridos.
Por isso, o plano também prevê a expansão da cobertura em seis rodovias federais prioritárias: BR-101, BR-116, BR-135, BR-163, BR-242 e BR-364. A expectativa é conectar os cerca de 4,8 mil quilômetros da BR-101 já em 2027. O governo também avalia o uso de recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para atender áreas sem sinal.
A implementação, contudo, depende de definições regulatórias. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deverá estabelecer as regras técnicas e comerciais para o compartilhamento das redes. De acordo com o governo, não haverá repasses públicos nem compensações diretas às operadoras: a remuneração pelo uso da infraestrutura será negociada entre as empresas, sob regulamentação da agência.
Nas rodovias concedidas, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) deverá regulamentar as exigências de conectividade. Após a publicação da norma, as concessionárias terão 180 dias para apresentar planos com metas por trecho e cronogramas de execução.
O desafio será transformar o compartilhamento de redes em cobertura efetiva. Embora o roaming possa ampliar o acesso ao sinal onde já existe infraestrutura, eliminar os pontos sem conexão exigirá novas instalações, acordos entre operadoras e cumprimento das metas. Para quem depende do celular na estrada, o resultado não será medido apenas pelos quilômetros previstos no plano, mas pela possibilidade real de permanecer conectado ao longo do percurso.