Acidente entre trem e ônibus biarticulado em Curitiba revela falhas críticas na sinalização ferroviária urbana

Acidente envolvendo trem e biarticulado em Curitiba destaca problemas estruturais e operacionais em cruzamentos ferroviários urbanos, segundo especialista em trânsito.


Por Mariana Czerwonka
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Embora as causas do acidente estejam sob investigação, especialistas apontam que o caso reflete um conjunto de falhas estruturais e operacionais que tornam esses cruzamentos perigosos. Foto: Reprodução URBS

O grave acidente envolvendo um trem e um ônibus biarticulado no bairro Cabral, em Curitiba, na semana passada, voltou a acender o alerta para um problema que há tempos preocupa especialistas em mobilidade urbana: os cruzamentos ferroviários em áreas urbanas. A colisão, registrada por volta das 23h30 na Avenida Paraná, deixou ao menos 11 pessoas feridas e partiu o coletivo ao meio. Apesar da violência do impacto, as vítimas tiveram ferimentos considerados leves a moderados.

Conforme a Rumo, concessionária responsável pela linha férrea, o motorista do ônibus teria desrespeitado a sinalização e cruzado a via férrea no momento em que o trem se aproximava. A empresa afirma que o maquinista seguiu os protocolos, acionando a buzina e os freios de emergência, mas não conseguiu parar a tempo. Já a Transporte Coletivo Glória, responsável pelo biarticulado, informou que havia 25 pessoas no veículo no momento do acidente e que todas foram prontamente atendidas.

Embora as causas do acidente estejam sob investigação, especialistas apontam que o caso reflete um conjunto de falhas estruturais e operacionais que tornam esses cruzamentos perigosos — especialmente quando há omissão do poder público e falhas na sinalização.

Sinalização falha e ausência de cancelas

Para o especialista em trânsito Celso Mariano, diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata, o que aconteceu no Cabral não é um fato isolado — trata-se de mais um entre vários acidentes registrados nos últimos anos envolvendo trens e veículos na malha urbana de Curitiba e Região Metropolitana.

“Esses cruzamentos são extremamente críticos. Quando acontece um acidente com trem, quase sempre há muita destruição, feridos e até mortes. O Paraná figura numa estatística lamentável: quatro municípios estão entre os dez com mais registros de acidentes ferroviários no Brasil”, afirma.

Mariano lembra que, no caso mais recente, assim como em outros ocorridos nos últimos meses, foi possível observar que a sinalização luminosa que alerta sobre a aproximação do trem — aquele par de luzes vermelhas piscantes — não estava funcionando.

“É um erro grave. Mesmo com a buzina do trem, que é potente, o aviso sonoro pode não ser suficiente. O motorista pode estar com os vidros fechados, som alto, distraído. E mais: o Brasil habilita surdos para dirigir. Não dá para depender apenas do som da buzina”, ressalta.

Semáforos fora de sincronia e mudança de rotinas

Outro ponto destacado por Mariano é a falta de sincronia entre os semáforos dos cruzamentos urbanos e os sistemas de alerta dos trens. Além disso, ele chama a atenção para mudanças recentes nos horários de circulação das composições ferroviárias, que podem gerar confusão entre os motoristas.

“Muitos condutores se habituam com os horários de passagem dos trens. Quando há mudança, mesmo que pequena, o risco aumenta. A pessoa confia no seu hábito e cruza a linha sem se dar conta de que o trem pode estar vindo em um novo horário. Isso é um fator novo e perigoso”, diz.

Falta de educação e omissão no reforço da sinalização

Apesar de o Código de Trânsito Brasileiro prever educação para o trânsito desde a base escolar, o especialista lamenta que o tema não seja tratado com a devida importância. Segundo ele, o cruzamento ferroviário deveria ser abordado de forma mais intensa, inclusive nas autoescolas.

“É inadmissível que tenhamos mais de 40 cruzamentos com linha férrea dentro de Curitiba, muitos deles sem cancela ou com sinalização deficiente. A legislação permite certa flexibilidade no tipo de sinalização a ser implantada, mas em locais onde já ocorreram acidentes, não se pode economizar recursos. O próprio texto legal diz que cruzamentos críticos devem receber atenção especial. Se já houve acidentes, é crítico. Ponto”, afirma.

Solução definitiva ainda distante

A saída definitiva, na avaliação de Mariano, seria a retirada das linhas férreas da zona urbana, uma tendência mundial já adotada por várias cidades. No entanto, ele reconhece que essa é uma obra de grande porte, que exige tempo, investimento e decisão política.

“Os trens de carga não transportam pessoas nas cidades, e sua presença dentro da malha urbana mais atrapalha do que ajuda. É preciso pensar em anéis ferroviários fora da cidade, mas enquanto isso não acontece, não podemos simplesmente esperar. Há muito o que fazer até lá: restaurar sinalizações, sincronizar semáforos, instalar cancelas onde for necessário”, defende.

O acidente no Cabral, felizmente, não deixou vítimas fatais, mas escancarou, mais uma vez, a urgência de se enfrentar o problema com responsabilidade, planejamento e ação coordenada entre concessionárias, poder público e sociedade.

“Precisamos falar mais de trânsito. Nas escolas, nas empresas, nas famílias. Trânsito é tema de vida, e quando negligenciado, se torna tema de tragédia”, conclui Celso Mariano.

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