
O Carnaval é um dos períodos mais críticos do ano para a segurança viária no Brasil. A combinação de deslocamentos intensos, consumo de álcool, privação de sono e comportamentos de risco ao volante provoca um aumento expressivo nos sinistros de trânsito — e os reflexos vão muito além das ruas e estradas, atingindo diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS).
Levantamentos de entidades médicas e de segurança viária indicam que, durante o feriado prolongado, os atendimentos por acidentes de trânsito crescem entre 20% e 30% em relação à média de outros períodos do ano. A maior parte dos casos envolve condutores que misturam direção e álcool, prática que segue entre as principais causas de mortes e ferimentos graves no trânsito brasileiro.
Dados consolidados pela Observatório Nacional de Segurança Viária mostram que, entre 2021 e 2023, o uso de álcool ou outras substâncias psicoativas esteve associado, em média, a mais de 16 sinistros por dia durante o Carnaval, índice cerca de 25% superior ao observado em dias comuns. Os números ajudam a dimensionar o impacto do feriado não apenas na mobilidade, mas também na saúde pública.
Feriado prolongado, risco ampliado
Especialistas alertam que o aumento dos acidentes no Carnaval não está ligado a um único fator, mas a um conjunto de condições que se somam e ampliam o risco. Viagens longas, muitas vezes para locais desconhecidos, condução noturna, calor excessivo e mudanças na rotina de descanso criam um cenário propício para falhas humanas.
Conforme Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito & Mobilidade, o problema está na falsa sensação de que o feriado “suspende” as regras do trânsito.
“O Carnaval não muda as leis da física nem os limites do corpo humano. Pelo contrário: é justamente quando estamos mais cansados, desidratados ou sob efeito de álcool que a margem para erro diminui drasticamente. O trânsito fica mais perigoso porque o condutor passa a dirigir em condições piores do que o normal”, explica.
Além da alcoolemia, fatores como excesso de velocidade, uso do celular ao volante, fadiga e sono insuficiente aparecem de forma recorrente nos registros de ocorrências graves. O resultado é um aumento não apenas no número de sinistros, mas também na gravidade das lesões. Ou seja, especialmente entre motociclistas, ocupantes de veículos sem cinto de segurança e pedestres.
Pressão direta sobre o SUS
O crescimento dos acidentes durante o Carnaval se traduz em sobrecarga imediata para os hospitais públicos. São eles que concentram a maior parte do atendimento a vítimas de trauma no país. Internações prolongadas, cirurgias complexas e ocupação de leitos de UTI passam a disputar espaço com atendimentos de outras doenças graves.
De acordo com especialistas da área da saúde, vítimas de sinistros de trânsito costumam demandar recursos de alto custo. Como, por exemplo, procedimentos ortopédicos, neurocirúrgicos e longos períodos de reabilitação. Isso gera um efeito em cascata: cirurgias eletivas são adiadas, filas aumentam e equipes trabalham sob pressão máxima.
Celso Mariano reforça que esse impacto raramente é percebido pelo cidadão no momento da decisão de dirigir após beber ou acelerar além do permitido.
“Cada escolha insegura no trânsito tem um custo coletivo. Não é só o risco individual. É um leito ocupado por semanas, uma equipe mobilizada, um recurso público que deixa de atender outra urgência. O Carnaval escancara como o trânsito também é uma questão de saúde pública”, destaca.
Prevenção começa antes da festa
Apesar do cenário preocupante, especialistas são unânimes ao afirmar que é possível evitar a maioria dos acidentes com medidas simples e planejamento. A principal delas segue sendo clara e inequívoca: álcool e direção não combinam.
Planejar o retorno da festa, utilizar transporte por aplicativo, táxi ou motorista da vez, respeitar os limites de velocidade e dormir adequadamente antes de pegar a estrada são atitudes básicas, mas decisivas. Também é fundamental evitar o uso do celular ao volante e adotar uma condução defensiva, especialmente em vias com grande circulação de pedestres.
No verão, período marcado por chuvas intensas em várias regiões do país, cuidados adicionais são indispensáveis. Reduzir a velocidade, manter distância segura assim como revisar o veículo antes de viajar — com atenção especial a pneus, freios e limpadores de para-brisa — ajuda a reduzir riscos.
Pedestres e ciclistas também precisam redobrar a atenção durante o Carnaval. Ou seja, optando por roupas claras ou refletivas, respeitando a sinalização e atravessando as vias apenas em locais apropriados.
Como reforça Celso Mariano, o espírito da festa não pode se sobrepor à responsabilidade.
“Celebrar faz parte do Carnaval, mas voltar para casa em segurança precisa ser prioridade absoluta. No trânsito, não existe improviso sem consequência”, conclui.