
Um levantamento inédito elaborado pelo Crime Brasil, com exclusividade para o Portal do Trânsito, mapeou a evolução dos registros de homicídio e lesão corporal culposos na direção de veículos automotores em municípios de São Paulo, Paraná e Piauí. A análise reúne dados das secretarias estaduais de Segurança Pública, organizados em séries históricas e taxas por 100 mil habitantes, e revela diferenças importantes no comportamento desses crimes entre estados e cidades brasileiras.
Entre os principais resultados, o Paraná registrou, em 2025, o maior número de ocorrências de homicídio culposo no trânsito desde o início da série analisada, em 2018. São Paulo também apresentou aumento nos primeiros sete meses de 2026, enquanto o Piauí registrou redução nas ocorrências de lesão corporal culposa no mesmo período.
A pesquisa considera os crimes previstos nos artigos 302 e 303 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Os números representam registros policiais e não necessariamente a quantidade de vítimas, uma distinção importante para a interpretação dos resultados.
Paraná registra maior número de ocorrências da série histórica
O Paraná contabilizou 734 ocorrências de homicídio culposo no trânsito em 2025, o maior número desde o início da série analisada, em 2018. O resultado representa crescimento de 29% em relação a 2024, quando foram registrados 569 casos.
Os dados parciais de 2026 também indicam aumento. Entre janeiro e abril, foram contabilizadas 248 ocorrências, contra 204 no mesmo período do ano anterior, uma elevação de 21,6%.
No caso da lesão corporal culposa, o crescimento foi ainda maior: 43,1%, passando de 281 para 402 registros no primeiro quadrimestre.
Os números fazem parte do levantamento do Crime Brasil, elaborado a partir dos registros da Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SSP-PR). A série histórica contempla informações de 2018 a abril de 2026.
Francisco Beltrão apresenta a maior taxa entre as cidades analisadas
Entre os municípios paranaenses com mais de 100 mil habitantes apresentados no levantamento, Francisco Beltrão registrou a maior taxa de homicídio culposo no trânsito.
Foram 16 ocorrências entre maio de 2025 e abril de 2026, o equivalente a 15,8 registros por 100 mil habitantes.
Na sequência aparecem Umuarama, com taxa de 13,9, e Maringá, com 12,2.
Curitiba, por sua vez, registrou 73 ocorrências no mesmo período. Embora apresente o maior volume absoluto entre os municípios destacados, sua taxa foi de aproximadamente quatro casos por 100 mil habitantes.
A diferença entre os números absolutos e as taxas populacionais ajuda a compreender por que cidades menores podem apresentar indicadores proporcionalmente mais elevados do que os grandes centros urbanos.
São Paulo registra aumento de 4,3% nos casos de homicídio culposo
No estado de São Paulo, foram registradas 2.032 ocorrências de homicídio culposo no trânsito entre janeiro e julho de 2026.
No mesmo período de 2025, haviam sido contabilizados 1.948 registros. A diferença representa aumento de 4,3%.
Em contrapartida, os registros de lesão corporal culposa diminuíram 7,2%, passando de 41.368 para 38.369.
Na análise municipal, Cubatão apresentou a maior taxa de homicídio culposo entre as cidades paulistas com mais de 100 mil habitantes: 24,3 ocorrências por 100 mil moradores.
Foram 28 registros entre agosto de 2025 e julho de 2026.
Já Votuporanga se destacou pelos registros de lesão corporal culposa, com taxa de 662,9 por 100 mil habitantes no mesmo intervalo, correspondente a 664 ocorrências.
O levantamento também apresenta um recorte por bairros da capital paulista. Santo Amaro aparece com 263 registros somados de homicídio e lesão corporal culposos, seguido por Santana, com 219, e Pinheiros, com 199.
Esses números, entretanto, representam volumes absolutos de ocorrências e não taxas proporcionais à população de cada bairro.
Piauí apresenta redução nos registros de lesão corporal culposa
No Piauí, os registros de lesão corporal culposa no trânsito caíram 30,9% nos primeiros sete meses de 2026.
Foram 769 ocorrências entre janeiro e julho, contra 1.113 no mesmo período de 2025.
Já os registros de homicídio culposo permaneceram estáveis, com 123 ocorrências em cada um dos períodos analisados.
Entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, Parnaíba apresentou taxa de 11,2 ocorrências de homicídio culposo por 100 mil moradores, enquanto Teresina registrou 3,9.
A capital, entretanto, concentrou o maior volume de lesões corporais culposas entre as duas cidades: 1.098 registros em 12 meses, o equivalente a uma taxa de 121,6 por 100 mil habitantes.
Apesar da redução observada no estado, o próprio levantamento ressalta que a queda recente das lesões pode estar relacionada tanto a uma diminuição efetiva das ocorrências quanto a mudanças nos procedimentos de registro e classificação criminal.
Por isso, os dados não permitem concluir, isoladamente, que houve uma redução equivalente no número total de pessoas feridas em acidentes de trânsito no Piauí.
Por que os números não representam todas as mortes e lesões no trânsito?
Embora o levantamento permita acompanhar a evolução dos registros criminais, é importante compreender suas limitações.
Os dados analisados correspondem a ocorrências policiais classificadas como homicídio culposo ou lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, conforme os artigos 302 e 303 do CTB.
Isso significa que não abrangem necessariamente todos os acidentes com vítimas registrados pelos órgãos de trânsito ou pelos serviços de saúde.
Além disso, um único boletim de ocorrência pode envolver mais de uma vítima, e a tipificação criminal pode mudar durante a investigação.
Também existem diferenças nos procedimentos administrativos adotados pelas secretarias estaduais, especialmente no registro de lesões leves.
No Paraná, por exemplo, parte das ocorrências com ferimentos pode ser registrada por meio de outros procedimentos, como termos circunstanciados ou boletins administrativos de trânsito, não integrando a base criminal utilizada na pesquisa.
Por esses motivos, os resultados não devem ser interpretados como um levantamento completo da mortalidade no trânsito brasileiro, nem utilizados para comparar diretamente a quantidade de pessoas feridas nos três estados.
Como o levantamento foi realizado
O mapeamento foi elaborado pelo Crime Brasil com dados das secretarias de Segurança Pública de São Paulo, Paraná e Piauí.
As taxas municipais foram calculadas com base nas estimativas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2024.
Para reduzir distorções estatísticas, a comparação por taxas considera apenas municípios com pelo menos 100 mil habitantes. Os números absolutos das demais cidades também integram a base de dados da pesquisa.
A extração ocorreu em 23 de setembro de 2026. Os dados de São Paulo e Piauí estão disponíveis até julho de 2026, enquanto os do Paraná chegam a abril do mesmo ano.
Fonte: Crime Brasil, com dados das secretarias estaduais de Segurança Pública de São Paulo, Paraná e Piauí e do IBGE.