
Quem utiliza o transporte coletivo diariamente confia que o ônibus esteja em condições seguras de circulação. Entretanto, componentes essenciais, como freios, direção e suspensão, não podem ser avaliados pelos passageiros antes do embarque. É justamente essa preocupação que leva a Associação Paranaense dos Organismos de Inspeção Veicular (APOIA) a defender a ampliação do debate sobre os mecanismos de controle das condições dos veículos utilizados no transporte de passageiros.
A entidade propõe discutir como a inspeção veicular independente pode complementar a manutenção e as vistorias já realizadas, contribuindo para identificar problemas, acompanhar correções e ampliar a segurança das operações. A discussão ganha relevância diante de dados de sinistros envolvendo ônibus e de problemas identificados em auditorias do transporte coletivo no Paraná.
Em Curitiba, foram registrados 1.135 acidentes envolvendo o transporte coletivo em 2025, segundo balanço da Urbanização de Curitiba (URBS). Em Londrina, o Relatório Anual de Segurança Viária da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) contabilizou 81 sinistros envolvendo ônibus em 2024, aumento de aproximadamente 45% em relação ao ano anterior.
Embora esses números não permitam atribuir os acidentes a falhas mecânicas, eles ajudam a contextualizar a importância de discutir diferentes fatores relacionados à segurança dos veículos e de seus ocupantes.
Para o presidente da APOIA, Everton Pedroso, o acompanhamento das condições da frota deve reunir procedimentos de manutenção, vistorias e avaliações técnicas.
“O objetivo é discutir como a inspeção veicular independente pode complementar a manutenção e as vistorias existentes, com testes, registro dos resultados e acompanhamento das correções. O passageiro não tem como avaliar os freios, a direção ou os componentes mecânicos antes de embarcar. Ele depende dos procedimentos de controle”, salienta.
Curitiba registrou mais de mil acidentes envolvendo ônibus em 2025
Os números da URBS mostram que Curitiba contabilizou 1.135 acidentes envolvendo o transporte coletivo em 2025, o equivalente a uma média de aproximadamente três ocorrências por dia.
Apesar do volume de registros, houve redução de 22% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 1.463 ocorrências.
O balanço foi elaborado com base nos boletins de ocorrência das operadoras e inclui acidentes envolvendo pedestres, ciclistas, automóveis, motocicletas, objetos fixos e animais.
Já em Londrina, o Relatório Anual de Segurança Viária da CMTU registrou 81 sinistros envolvendo ônibus em 2024, contra 56 no ano anterior.
Os levantamentos abrangem períodos e recortes diferentes. Enquanto os dados de Curitiba se referem ao transporte coletivo urbano, os registros de Londrina não se restringem exclusivamente a essa frota.
Também não há, nesses números, uma identificação geral das ocorrências provocadas por problemas mecânicos.
Para a APOIA, a discussão sobre a segurança do transporte de passageiros precisa considerar tanto os fatores relacionados à circulação quanto os procedimentos utilizados para verificar as condições dos veículos.
Inspeção veicular pode identificar problemas que não são visíveis aos passageiros
Um dos pontos defendidos pela APOIA é a importância das avaliações técnicas realizadas com equipamentos específicos.
Segundo Everton Pedroso, determinados problemas de funcionamento precisam ser identificados por meio de medições, e não apenas de observações visuais.
Um exemplo é o frenômetro, equipamento utilizado para medir os esforços de frenagem e verificar possíveis desequilíbrios no sistema de freios, conforme diretrizes técnicas do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).
Os resultados obtidos durante os testes ajudam a avaliar as condições de funcionamento do sistema e a orientar intervenções quando necessárias.
“Há condições de funcionamento que precisam ser medidas. Os testes permitem avaliar os sistemas com critérios técnicos e orientar as intervenções necessárias. A inspeção deve estar conectada à manutenção e ao acompanhamento contínuo da frota”, explica.
A avaliação técnica é especialmente importante em veículos submetidos a utilização frequente, como os ônibus urbanos, que realizam diversas viagens e paradas ao longo do dia.
Além dos freios, o acompanhamento das condições da direção e de outros componentes mecânicos integra os cuidados necessários para a segurança operacional.
Manutenção e inspeção veicular têm funções complementares
A APOIA também destaca a importância de diferenciar manutenção e inspeção veicular.
A manutenção envolve atividades de conservação, ajustes, reparos e substituição de componentes, com o objetivo de manter o veículo em condições adequadas de funcionamento.
Já a inspeção verifica os itens previstos no procedimento técnico aplicável e retrata suas condições no momento da avaliação.
Isso significa que a aprovação em uma inspeção não garante que o veículo permanecerá livre de problemas durante toda a sua utilização. “A aprovação em uma inspeção não dispensa a manutenção. O veículo continua em uso e sujeito a desgaste. O resultado dos testes precisa fazer parte de uma rotina de controle”, acrescenta Pedroso.
Para a entidade, a integração entre esses procedimentos é importante para que eventuais irregularidades sejam identificadas, corrigidas e acompanhadas ao longo do tempo.
A proposta de ampliar o debate sobre inspeções independentes busca justamente discutir formas de complementar os controles já existentes.
Auditoria do TCE-PR identificou problemas em ônibus de Curitiba
Além dos dados de sinistros, auditorias realizadas pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) apontaram problemas relacionados às condições de funcionamento de equipamentos utilizados no transporte coletivo.
Em uma fiscalização realizada em 2023, o tribunal examinou 104 ônibus de Curitiba.
Entre os veículos avaliados, seis apresentaram mau funcionamento das plataformas elevatórias e 16 tinham problemas nos interruptores de solicitação de parada instalados nos espaços reservados.
Os resultados foram divulgados em junho de 2025.
Embora essas irregularidades não estejam diretamente relacionadas ao sistema de freios ou à direção, elas evidenciam a necessidade de acompanhamento dos diferentes equipamentos utilizados pelos passageiros.
Uma plataforma elevatória sem condições de funcionamento, por exemplo, pode impedir o embarque de uma pessoa que dependa desse recurso de acessibilidade.
Maringá também teve problemas apontados em auditoria
Em Maringá, uma auditoria vinculada ao Plano Anual de Fiscalização de 2023 identificou oito situações relacionadas à gestão do transporte coletivo.
Entre os apontamentos do TCE-PR estavam condições gerais inadequadas dos veículos e problemas de acessibilidade nos ônibus e terminais.
Para Everton Pedroso, os equipamentos utilizados no transporte de passageiros precisam ser verificados de acordo com suas características e finalidades. “Uma plataforma inoperante pode impedir o embarque de quem depende dela. Cada sistema exige procedimentos específicos, mas todos precisam de verificação e de providências quando apresentam inadequações”, afirma.
Os apontamentos reforçam que a qualidade do transporte coletivo envolve tanto a segurança da circulação quanto as condições de acesso e utilização dos veículos.
A identificação de irregularidades também exige acompanhamento das providências adotadas para corrigi-las.
APOIA propõe ampliar discussão sobre inspeção veicular independente
A principal proposta apresentada pela Associação Paranaense dos Organismos de Inspeção Veicular é discutir como avaliações técnicas independentes podem complementar a manutenção e as vistorias realizadas nos veículos de transporte coletivo.
Em Curitiba, segundo a URBS, os ônibus da Rede Integrada de Transporte passam por vistorias periódicas.
A discussão levantada pela APOIA não desconsidera esses procedimentos, mas busca avaliar possibilidades de ampliar o acompanhamento técnico das condições da frota.
Como exemplo, Everton Pedroso cita o transporte intermunicipal de passageiros autorizado pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR).
Nesse serviço, a documentação exigida inclui certificado de inspeção veicular anual, além da vistoria técnica realizada pelo departamento.
Para o presidente da associação, a utilização intensa dos ônibus urbanos deve ser considerada na discussão sobre os procedimentos de controle.
“O transporte urbano é utilizado diariamente por pessoas que dependem dele para acessar trabalho, educação e saúde. Essa utilização precisa ser considerada no debate sobre os controles técnicos da frota”, afirma Pedroso.
As exigências de inspeção e fiscalização variam conforme o tipo de transporte e as normas aplicáveis a cada serviço. A proposta da entidade é ampliar a discussão sobre como diferentes procedimentos podem contribuir para a segurança dos passageiros.
Segurança dos passageiros depende de acompanhamento permanente
A preocupação com as condições dos ônibus vai além da possibilidade de uma falha mecânica provocar um sinistro de trânsito.
Problemas de funcionamento também podem resultar em interrupções de viagens, atrasos e dificuldades para passageiros que dependem diariamente do transporte coletivo.
Quando um ônibus apresenta uma falha durante o percurso, os usuários podem precisar aguardar outro veículo ou procurar alternativas para chegar ao destino.
Em determinadas situações, uma pane também pode exigir a parada do ônibus em locais que oferecem riscos à circulação.
Por isso, manutenção preventiva, vistorias e avaliações técnicas são instrumentos importantes para acompanhar as condições dos veículos e reduzir a possibilidade de falhas durante a operação.
Os dados de Curitiba e Londrina, somados aos apontamentos das auditorias do TCE-PR, mostram diferentes aspectos que precisam ser considerados na gestão do transporte coletivo.
Enquanto os registros de sinistros ajudam a acompanhar as ocorrências no trânsito, as avaliações técnicas e auditorias permitem verificar condições de funcionamento, acessibilidade e procedimentos de controle.
Para a APOIA, ampliar o debate sobre esses mecanismos é uma forma de contribuir para a melhoria contínua da segurança no transporte de passageiros.
A discussão ultrapassa os limites do Paraná e envolve uma preocupação presente em diferentes cidades brasileiras: garantir que os ônibus utilizados diariamente pela população recebam manutenção adequada e sejam submetidos a procedimentos capazes de acompanhar suas condições de funcionamento.
Afinal, para quem depende do transporte coletivo, a segurança começa antes mesmo de o ônibus sair da garagem.