
O transporte rodoviário é um dos principais pilares da logística brasileira. No entanto, o risco da operação vai muito além da criminalidade: segundo dados do setor e estimativas da Confederação Nacional do Transporte (CNT) com base na Polícia Rodoviária Federal (PRF), 62% das perdas de carga em rodovias têm origem em acidentes, gerando um custo estimado superior a R$ 5 bilhões anuais apenas em ocorrências com caminhões nas rodovias federais. Para que uma operação seja considerada realmente eficiente, não basta garantir que a carga chegue ao destino dentro do prazo.
Em um cenário marcado por tombamentos, colisões, avarias, interrupções de rotas e aumento da complexidade logística, as empresas precisam combinar planejamento, gestão de riscos, tecnologia e seguro de transporte de cargas para reduzir vulnerabilidades e preservar a continuidade do negócio.
Mais do que uma ferramenta para indenizar prejuízos depois que um sinistro acontece, o seguro pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de proteção da operação. Para João Paulo Barbosa, especialista em seguros de transporte de cargas e sócio-diretor da Mundo Seguro, a eficiência no transporte começa antes mesmo de o caminhão entrar na estrada.
“Quando falamos em eficiência no transporte rodoviário, é comum pensar apenas em prazo, custo de frete e produtividade. Mas uma operação verdadeiramente eficiente também precisa ser previsível e resiliente. Uma falha de planejamento, um acidente ou uma avaria pode interromper toda a cadeia e gerar um prejuízo muito maior. Por isso, gestão de riscos e seguro precisam deixar de ser tratados como áreas isoladas e passar a fazer parte da mesma estratégia. A empresa que conhece suas vulnerabilidades consegue agir antes do problema e, quando o imprevisto acontece, tem mais condições de responder rapidamente e preservar a continuidade do negócio”, explica João Paulo Barbosa.
Na avaliação do especialista, empresas que buscam aumentar a eficiência e a segurança do transporte rodoviário devem ficar atentas a pelo menos quatro sinais de que a proteção contratada pode não estar acompanhando a realidade da operação:
1. A apólice não foi revisada nos últimos 12 meses
A falta de revisão periódica da apólice é um dos principais sinais de que o seguro pode estar defasado. Mudanças na operação, como novas rotas, alteração no perfil dos clientes, novos tipos de mercadorias transportadas ou aumento no valor das cargas, podem modificar diretamente o nível de exposição ao risco.
“Quando a cobertura não é reavaliada ao longo do tempo, ela deixa de refletir a realidade da operação. Mudanças em rotas, perfil de clientes, tipo de mercadoria transportada ou aumento no valor das cargas alteram diretamente o nível de risco da atividade. Sem essa atualização, a empresa pode enfrentar restrições de cobertura, indenizações reduzidas ou até negativa de pagamento em caso de sinistro”, explica.
2. Falta de cobertura para riscos climáticos
A ausência de cobertura específica para riscos climáticos também tem se tornado um ponto crítico. Eventos como enchentes, alagamentos e deslizamentos podem comprometer o transporte e gerar perdas significativas, mas nem todas as apólices contemplam esses danos automaticamente.
Segundo João Paulo, alguns contratos podem apresentar exclusões, limites restritivos ou exigências de contratação adicional, o que pode surpreender o segurado justamente no momento em que precisa acionar a proteção.
3. Desconhecimento das cláusulas e exclusões
Outro fator que pode fragilizar a proteção é o desconhecimento das cláusulas contratuais e exclusões previstas na apólice. Em muitos casos, determinadas coberturas estão condicionadas ao cumprimento de exigências operacionais, como utilização de rastreadores específicos, definição de rotas, horários de circulação ou adoção de protocolos de segurança.
Quando o gestor desconhece essas condições, aumenta o risco de descumprimento das exigências previstas no contrato e, consequentemente, de problemas no momento da regulação de um sinistro.
4. A contratação foi feita apenas pelo preço
Por fim, o especialista em gestão de riscos alerta para o risco de contratar o seguro exclusivamente pelo menor preço. Embora a redução de custos seja uma preocupação natural das empresas, uma apólice mais barata nem sempre representa a melhor proteção para a operação.
“Sem uma análise técnica adequada, o seguro pode até existir no papel, mas falhar justamente quando a empresa mais precisa dele. O preço é um dos fatores que devem ser considerados, mas não pode ser o único critério. É preciso avaliar se as coberturas, limites, condições e exigências da apólice realmente correspondem aos riscos aos quais aquela operação está exposta”, afirma João Paulo Barbosa.