
Por Raquel Serini, coordenadora de projetos do IPTC*
A retirada da obrigatoriedade de renovação do curso de Movimentação e Operação de Produtos Perigosos (MOPP) reacende um debate que o Brasil costuma adiar: até que ponto a busca por menos burocracia pode comprometer a segurança no transporte rodoviário de cargas?
No Brasil, onde as rodovias são a espinha dorsal da logística, movimentando mais de 60% das cargas e com uma frota de cerca de 3 milhões de caminhões, conforme dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT), toda e qualquer alteração na regulamentação do setor tem reflexos diretos na rotina dos profissionais da estrada. Vai além da mera simplificação burocrática.
Trata-se de decisões com peso real, que afetam vidas, o meio ambiente e a responsabilidade das empresas transportadoras.
Os números não mentem
À primeira vista, reduzir custos e exigências pode parecer um alívio, mas a medida toca em um ponto sensível: a qualificação contínua de profissionais que lidam diariamente com cargas de alto risco. E os números não mentem. Em 2024, o Brasil encarou 73.114 acidentes rodoviários, uma tragédia com impacto econômico que ultrapassa a impressionante marca de R$ 16 bilhões, segundo o Painel CNT de Acidentes Rodoviários. Caminhões estiveram envolvidos em cerca de 20% desses casos. Por trás das estatísticas, existem motoristas, famílias, empresas e comunidades afetadas por ocorrências que, muitas vezes, poderiam ser mitigadas com prevenção e preparo adequado.
É claro que treinamento, sozinho, não elimina acidentes. Nenhuma medida é capaz de zerar riscos. Ainda assim, ele marca a diferença entre um profissional atualizado, consciente de protocolos críticos, e alguém que opera com conhecimento defasado.
Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), a falha humana é responsável por mais de 90% dos acidentes em rodovias, reforçando a importância da formação contínua.
O problema é mais amplo do que o comportamento individual ao volante.
Ele passa por manutenção de frota, planejamento operacional e, principalmente, por cultura de segurança. A não renovação do MOPP também transfere, de forma silenciosa, a responsabilidade pela capacitação. Ao flexibilizar a exigência legal, o poder público coloca nas mãos das transportadoras a gestão integral do treinamento.
Contudo, em um setor tão diversificado e complexo, nem todas as empresas possuem a mesma estrutura ou capacidade de investimento. Há um risco real de que isso gere uma falsa sensação de eficiência. A economia que parece imediata pode, na verdade, acarretar custos significativamente maiores no futuro, como multas, passivos ambientais, interrupções operacionais e danos irreparáveis à reputação.
A renovação periódica do MOPP sempre funcionou como um momento de atualização e prevenção. Abrir mão dessa exigência é enfraquecer um instrumento coletivo em um país que ainda enfrenta desafios importantes em fiscalização, infraestrutura viária e gestão de riscos.
Mais do que discutir o que a lei exige, o setor precisa se fazer uma pergunta direta: estamos preparados para assumir integralmente as consequências dessa decisão? No transporte de produtos perigosos, a responsabilidade não termina no cumprimento mínimo das normas. Ela começa no compromisso contínuo com a segurança, com a vida e com a confiança que a sociedade deposita em quem mantém o país em movimento.
*Por Raquel Serini, coordenadora de projetos do IPTC. O IPTC desenvolve, em parceria com o SETCESP, estudos referenciais de custos, como o de transporte de mudanças e a atualização da nova tabela de frete.