
Motociclistas representam 64% dos acidentes com vítimas registrados em Curitiba entre janeiro de 2025 e 20 de abril de 2026, segundo levantamento do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran). No período, a capital contabilizou 4.464 ocorrências com vítimas, e os motociclistas correspondem a mais da metade dos feridos (51,9%) e a quase metade das mortes (46,4%).
A gravidade desse cenário também se reflete na rotina hospitalar. Referência em atendimentos de trauma em Curitiba e região, o Hospital Universitário Cajuru, com assistência 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS), recebeu 3.560 vítimas de acidentes de trânsito entre janeiro de 2025 e 20 de abril de 2026. Do total de motociclistas acidentados registrados pelo BPTran no período, 82% foram atendidos pelo hospital. Considerando todos os acidentes de trânsito na cidade, o Hospital Universitário Cajuru foi responsável pelo atendimento de 80% das vítimas.
Diante desse cenário crítico, o movimento internacional Maio Amarelo ganha ainda mais relevância.
No Brasil, a 13ª edição da campanha, lançada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), tem como tema oficial: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. Nesse contexto, a direção defensiva segue como o caminho mais eficaz para reduzir acidentes.
A médica emergencista do Hospital Universitário Cajuru, Danieli Dadan, lembra que os acidentes com motociclistas costumam resultar em quadros graves. “Mesmo em velocidades moderadas, vemos fraturas expostas, lesões na cabeça, nos membros e até amputações. São situações que muitas vezes exigem múltiplas cirurgias, longos períodos de internação e reabilitação”, explica.
No total, o BPTran registrou 7.313 ocorrências no período, sendo que 48% envolveram motocicletas. Na comparação entre março de 2026 e o mesmo mês de 2025, houve aumento de 8% no total de acidentes e crescimento de 3,4% nos casos com vítimas. Entre os principais fatores associados estão o consumo de álcool e a condução sem habilitação.
Maio registrou o menor volume mensal de atendimentos em 2025. Foram 174 casos no hospital, redução de cerca de 47% em comparação com maio de 2024. Para Danieli, a queda pode estar relacionada ao impacto das campanhas de conscientização no período. Além disso, à chegada do clima mais frio, que reduz a circulação de pessoas em relação aos meses de verão.
“O Maio Amarelo traz mais visibilidade para os riscos no trânsito, e isso tende a aumentar a atenção dos condutores. Quando há mais atenção e prudência, conseguimos observar reflexos também na redução dos atendimentos por acidentes”, afirma.
Impacto direto na saúde pública
Além dos números, os acidentes com motocicletas geram impacto direto no sistema de saúde e em toda a sociedade. Segundo o Ministério da Saúde, apenas entre janeiro e outubro de 2025, o SUS investiu R$ 141,4 milhões em mais de 92 mil procedimentos hospitalares relacionados a esse tipo de ocorrência no Brasil.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que motociclistas respondem por cerca de 60% das internações por acidentes de trânsito. Em muitos casos, as vítimas são jovens entre 20 e 29 anos — faixa economicamente ativa da população —, o que amplia os impactos socioeconômicos.
De acordo com a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), para cada pessoa hospitalizada, ao menos quatro outras são diretamente impactadas, seja pelo suporte durante a internação, pelos custos com tratamento ou pela reorganização da rotina familiar diante de possíveis sequelas. Os reflexos também chegam à Previdência Social, com afastamentos do trabalho, concessão de auxílios-doença, aposentadorias por invalidez e pensões por morte.
A médica destaca que a vulnerabilidade do motociclista exige a atenção de todos no trânsito.
“Diferentemente dos ocupantes de outros veículos, o motociclista está mais exposto, o que torna as consequências muito mais graves. É uma responsabilidade compartilhada, que envolve tanto quem pilota quanto os demais condutores. Em muitos casos, o impacto é para toda a vida”, completa.