
Nos últimos meses, o debate sobre o novo modelo de formação de condutores passou a ser resumido a uma escolha aparentemente simples: ou a CNH é acessível, ou é segura. No discurso oficial e em parte da repercussão pública, ampliar o acesso à habilitação passou a significar, quase automaticamente, reduzir exigências, flexibilizar etapas e simplificar a formação.
Esse enquadramento, no entanto, parte de um falso dilema. Acessibilidade e segurança não são conceitos opostos. O problema não está em facilitar o acesso à CNH, mas na forma como essa facilitação vem sendo conduzida: por meio do empobrecimento do processo formativo.
Onde o debate foi mal colocado
O erro central do debate está em confundir custo com valor. Ao reduzir horas práticas, esvaziar o ensino teórico e apostar em modelos excessivamente automatizados, criou-se a narrativa de que o processo ficaria mais barato. Na prática, porém, o que se observa é outra realidade: o processo não foi barateado; ele foi desmontado e passou a entregar menos formação pelo mesmo preço.
A simplificação administrativa foi vendida como política de inclusão, quando, na verdade, retirou do candidato justamente aquilo que mais contribui para uma condução segura: acompanhamento pedagógico, mediação do instrutor e formação progressiva.
Além disso, o debate foi deslocado para o plano ideológico — “menos Estado” versus “mais exigência” — quando deveria estar centrado em uma pergunta técnica e objetiva: qual formação o trânsito brasileiro precisa para reduzir mortes e sinistros?
A falsa economia da formação empobrecida
Outro ponto pouco discutido é que a chamada “CNH acessível” pode sair mais cara no médio prazo. Candidatos que enfrentam dificuldades no aprendizado teórico autônomo, por exemplo, acabam reprovando mais vezes, refazendo exames e buscando cursos complementares por conta própria.
Matérias recentes do Portal do Trânsito mostraram que o estudo solitário, sem mediação pedagógica, não funciona para uma parcela significativa dos candidatos, especialmente aqueles com menor escolaridade ou dificuldade de aprendizagem. Ou seja, o modelo “mais barato” transfere o custo para o próprio candidato, sem oferecer suporte adequado.
Alternativas reais existem — e já estão em uso
Superar esse falso dilema exige reconhecer que tecnologia não é inimiga da boa formação, desde que usada com método e responsabilidade pedagógica. Plataformas digitais podem ampliar o acesso, reduzir deslocamentos e flexibilizar horários, sem eliminar o papel do instrutor.
Experiências que mantêm a aula teórica com instrutor, mesmo em formato remoto, mostram que é possível combinar acessibilidade com qualidade. Nesse modelo, a tecnologia funciona como meio, não como substituta do processo educativo.
Da mesma forma, cursos teóricos complementares, estruturados e alinhados às exigências do processo de habilitação, surgem como alternativa para candidatos que enfrentam dificuldades no modelo exclusivamente autônomo do CNH do Brasil. Essas soluções não empobrecem a formação — ao contrário, preenchem lacunas criadas pelo próprio sistema.
Formação não é obstáculo, é política pública
Conforme o especialista em trânsito Celso Mariano, o grande risco do modelo atual é tratar a formação como entrave.
“Quando o debate se limita a facilitar ou não o acesso, perde-se de vista que a formação é uma política de segurança pública. Não se trata de burocracia, mas de proteção à vida”, alerta.
Segundo ele, países que conseguiram reduzir mortes no trânsito não o fizeram cortando etapas, mas investindo em formação consistente, contínua e supervisionada.
O papel do Estado: garantir acesso com qualidade
Cabe ao Estado liderar esse equilíbrio. Ampliar o acesso à CNH é legítimo e necessário, especialmente em um país marcado por desigualdades sociais. Mas isso não pode ser feito às custas da qualidade da formação.
O papel do poder público não é apenas emitir documentos, mas assegurar que o processo de habilitação forme condutores capazes de circular com segurança em um trânsito cada vez mais complexo. Isso inclui definir parâmetros mínimos robustos, fiscalizar modelos pedagógicos e incentivar soluções que ampliem o acesso sem empobrecer o aprendizado.
Proposta: sair do falso dilema
Não se trata de escolher entre CNH acessível ou CNH segura. Trata-se de construir um modelo que seja acessível porque é eficiente, e seguro porque forma de verdade.
Tecnologia com instrutor, ensino remoto com mediação, cursos complementares bem estruturados e políticas públicas focadas em valor — não apenas em preço — apontam um caminho possível.
O desafio está posto. O que o trânsito brasileiro não pode aceitar é a ideia de que facilitar significa formar menos. Porque, no fim, a conta do empobrecimento da formação não aparece no boleto da CNH, mas nas estatísticas de sinistros e nas vidas perdidas nas vias.