Exame da CNH mudou, trânsito não: deixou de ser obrigatório, mas deixou de ser importante?

Mudanças no exame da CNH retiraram exigências formais, mas habilidades essenciais seguem indispensáveis para a segurança no trânsito.


Por Mariana Czerwonka
processo de habilitação
As mudanças no processo de habilitação redesenharam o caminho, mas não alteraram a realidade do trânsito brasileiro. Foto: Divulgação DetranRS

Nos últimos meses, o processo de habilitação para novos condutores no Brasil passou por mudanças relevantes. Com a retirada da obrigatoriedade de algumas etapas formais da formação — como a mediação integral do Centro de Formação de Condutores (CFC) e a padronização de determinadas manobras no exame prático —, ganhou força a interpretação de que a CNH teria se tornado “mais fácil”. Mas a pergunta central permanece: o que deixou de ser obrigatório também deixou de ser importante?

A resposta exige cautela. Embora o caminho até a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) esteja mais flexível, a responsabilidade de dirigir com segurança segue exatamente a mesma. As regras de circulação, as penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro e as consequências de uma condução inadequada não mudaram.

O que mudou no processo de habilitação

Com as novas diretrizes, o candidato passou a ter mais autonomia sobre como se preparar. O curso teórico presencial, nos moldes tradicionais, deixou de ser obrigatório, e o exame prático passou por ajustes, priorizando a condução em contexto mais amplo. Em alguns estados, manobras específicas deixaram de ser exigidas da forma clássica.

Isso não significa, porém, o fim da avaliação. As provas teórica e prática continuam existindo e seguem sendo eliminatórias. O que mudou foi o percurso até o exame — não o fato de que o candidato precisa demonstrar conhecimento, habilidade e comportamento compatíveis com a condução segura.

O que continua sendo exigido

Mesmo com menos imposições formais, o condutor permanece submetido às mesmas normas. Multas, pontos, suspensão e cassação da CNH continuam valendo. Na prática, o Estado flexibilizou o acesso, mas não reduziu o peso da responsabilidade individual.

É nesse ponto que surge uma leitura equivocada: a ideia de que, se algo deixou de ser obrigatório, tornou-se dispensável. No trânsito, essa lógica não se sustenta. Dirigir exige competências técnicas, cognitivas e comportamentais que não surgem espontaneamente — e que não se resumem a “passar na prova”.

Formação não é sinônimo de exame

A aprovação no exame prático não garante, por si só, preparo para enfrentar o trânsito real. Tomada de decisão sob pressão, leitura de risco, convivência com motociclistas, ciclistas e pedestres e respeito à coletividade são habilidades que demandam orientação e prática estruturada.

Para o especialista em trânsito Celso Mariano, a formação sempre teve papel central na segurança viária. “O trânsito é um ambiente social complexo. Quando se reduz a formação a um treinamento para o exame, perde-se a oportunidade de preparar o condutor para situações reais do dia a dia”, avalia. Segundo ele, dirigir vai além do domínio do veículo: envolve percepção, responsabilidade e comportamento.

Onde entra a tecnologia nesse novo modelo

A flexibilização também reacendeu o debate sobre o uso da tecnologia na formação. Plataformas digitais, ensino remoto e conteúdos on-line passaram a ser vistos como alternativas rápidas para a preparação aos exames. O alerta de especialistas, porém, é claro: tecnologia, sozinha, não forma condutores.

“Ferramentas tecnológicas podem ser grandes aliadas, desde que façam parte de um método pedagógico consistente, com acompanhamento e orientação qualificada”, explica Celso Mariano. Sem isso, o risco é transformar a formação em um processo fragmentado, focado apenas na memorização de regras.

Aprender a dirigir envolve interpretar cenários, antecipar riscos e construir atitudes seguras — competências que exigem feedback, mediação humana e prática contextualizada.

O que não é exigido na prova, mas é essencial no dia a dia

Aqui vale um alerta importante: o fato de não se exigir mais uma habilidade no exame prático não significa que ela deixou de ser necessária. Pelo contrário.

Manobras como a baliza seguem sendo essenciais no cotidiano. Entrar e sair de vagas de estacionamento pode gerar danos materiais, conflitos com outros veículos e até risco a pedestres quando feito de forma inadequada. O mesmo vale para situações que nunca foram cobradas diretamente no exame prático, como realizar ultrapassagens seguras em rodovias — uma manobra que exige leitura correta da via, cálculo de tempo e distância e respeito às regras de segurança.

No caso das motocicletas, uma mudança que chama atenção é a retirada da tradicional arrancada em rampa do exame prático. Ainda que não se cobre mais essa manobra, ela continua sendo uma habilidade fundamental para o dia a dia do motociclista. Controlar a moto em aclives, especialmente em vias urbanas, é decisivo para evitar quedas, colisões e perdas de equilíbrio. Não será exigido na prova, mas precisa ser aprendido — sobretudo por uma questão de segurança.

Esses exemplos deixam claro que o exame avalia apenas parte das competências necessárias para conduzir um veículo. A realidade do trânsito exige preparo muito mais amplo, que não pode ser limitado ao que é cobrado formalmente.

O risco da “CNH sem formação”

Outro aspecto pouco discutido é o impacto dessas mudanças no médio e longo prazo. Um sistema que facilita o acesso, mas não estimula a formação adequada, tende a transferir o custo para o trânsito como um todo. Condutores mal preparados aumentam conflitos entre modais, comprometem a fluidez e contribuem para estatísticas de sinistros que o país ainda tenta reduzir.

Como reforça Celso Mariano, “dirigir não é um direito absoluto, mas uma concessão condicionada à capacidade de conviver em um espaço compartilhado”. Nesse contexto, a formação deixa de ser um requisito burocrático e passa a ser entendida como investimento em segurança coletiva.

As mudanças no processo de habilitação redesenharam o caminho, mas não alteraram a realidade do trânsito brasileiro. A retirada de obrigatoriedades formais não elimina a necessidade de preparo — apenas desloca a responsabilidade da imposição legal para a escolha consciente do candidato. Em um sistema mais flexível, a formação não perde importância; ela se torna ainda mais decisiva. Afinal, o trânsito não flexibiliza consequências. E a segurança viária continua dependendo, essencialmente, de quem está atrás do volante.

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