Brasil registra mais de 10 milhões de multas em rodovias federais em 2025 e atinge novo recorde histórico

Brasil soma mais de 10 milhões de multas em rodovias federais em 2025. Excesso de velocidade lidera autuações e reacende debate sobre fiscalização, comportamento e formação de condutores.


Por Mariana Czerwonka
multas em rodovias
O balanço estatístico das rodovias federais em 2025, divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), revela recorde histórico do número de infrações cometidas nas BRs de todo país. Foto: Divulgação PRF

O Brasil fechou 2025 com um número que chama atenção e impõe reflexão: mais de 10 milhões de multas aplicadas em rodovias federais, o maior volume desde o início da série histórica, em 2007. Os dados revelam não apenas um recorde estatístico, mas um retrato preocupante do comportamento de parte dos condutores nas estradas do país — especialmente quando o excesso de velocidade domina, com larga vantagem, o ranking das infrações.

Levantamento do Setor de Estatística Operacional da Polícia Rodoviária Federal (PRF) aponta que 10.277.088 autuações foram registradas entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025. Em termos práticos, isso equivale a 27.397 infrações por dia, 1.141 por hora e cerca de 19 por minuto. O total supera inclusive 2024, que já havia estabelecido o maior índice até então.

Excesso de velocidade segue como principal infração

O excesso de velocidade aparece no topo do ranking, mantendo um padrão observado nos últimos anos, mas agora em patamares ainda mais elevados. A infração de transitar até 20% acima do limite permitido somou 6.170.111 registros, representando a maioria absoluta das autuações. Em segundo lugar, estão os motoristas flagrados entre 20% e 50% acima da velocidade máxima, com 985.967 multas.

Outras infrações recorrentes incluem veículos sem licenciamento, ultrapassagens em locais proibidos, desobediência às ordens de agentes de trânsito, além de problemas relacionados à conservação do veículo e equipamentos obrigatórios. O conjunto desses dados reforça um cenário já conhecido pelos especialistas em segurança viária: não se trata de um único problema, mas de um conjunto de condutas de risco que se repetem diariamente.

De acordo com Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito, o excesso de velocidade não é apenas uma infração isolada.

“Velocidade é um multiplicador de risco. Quando o condutor decide acelerar além do permitido, ele reduz drasticamente o tempo de reação, aumenta a gravidade dos sinistros e transforma pequenos erros em consequências fatais”, afirma.

BR-101 lidera ranking de autuações no país

Entre as rodovias federais, a BR-101 lidera com folga o ranking nacional de infrações. A via, que se estende do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, registrou 2.740.305 multas em 2025. Na sequência aparece a BR-116 (Presidente Dutra), com 2.519.257 autuações, e, em terceiro lugar, a BR-381 (Fernão Dias), com 577.619 registros.

Completam a lista das dez rodovias mais autuadas as BRs 153, 163, 364, 040, 277, 376 e 386, distribuídas por diferentes regiões do país. Em comum, essas rodovias concentram alto fluxo de veículos, trechos urbanos e interurbanos, intenso transporte de cargas e histórico de fiscalização eletrônica.

Conforme Celso Mariano, os números não devem ser analisados de forma simplista. “Rodovias com maior volume de tráfego e mais fiscalização naturalmente registram mais autuações. Mas isso não invalida o alerta: se há tanta multa, é porque há muito desrespeito às regras básicas de circulação”, pontua.

Fiscalização arrecada ou previne?

O recorde reacende um debate antigo no trânsito brasileiro: a fiscalização estaria focada apenas na arrecadação? Para especialistas, essa leitura ignora dados fundamentais. Países que reduziram mortes no trânsito fizeram isso com combinação de fiscalização consistente, engenharia viária e educação — e não com a ausência de controle.

“O radar não multa ninguém sozinho. Quem gera a multa é o comportamento do condutor”, reforça Celso Mariano. “A fiscalização é uma resposta do Estado a um risco coletivo. Sem controle, o trânsito vira território da lei do mais forte.”

Ainda assim, o especialista destaca que a fiscalização precisa caminhar junto de transparência, sinalização adequada e políticas educativas contínuas, sob risco de perder credibilidade social.

Formação de condutores e cultura de risco

Os números de 2025 também dialogam diretamente com um debate que vem ganhando força no Brasil: a flexibilização do processo de formação de condutores. Para o Portal do Trânsito, é impossível dissociar o aumento de infrações de uma cultura que tolera atalhos, reduz exigências e trata a habilitação como mera formalidade burocrática.

“Quando se enfraquece a formação, o trânsito sente. O condutor mal preparado tende a errar mais, a assumir riscos desnecessários e a repetir comportamentos perigosos”, alerta Celso Mariano. “O trânsito não perdoa improviso.”

Um sinal de alerta para 2026

O recorde de mais de 10 milhões de multas em rodovias federais em 2025 deve ser lido como um sinal de alerta, não apenas como estatística. Ele aponta para a urgência de políticas públicas integradas, que tratem o trânsito como questão de saúde pública, com foco na preservação de vidas.

Enquanto o Brasil segue debatendo mudanças em regras, exames e formação, os números das estradas mostram que o desafio central continua sendo o comportamento humano. E, como reforçam os especialistas, sem educação consistente e fiscalização responsável, o próximo recorde pode ser ainda mais preocupante — não apenas em multas, mas em vítimas.

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