
Quando se fala em mortes no trânsito, a maioria das pessoas pensa imediatamente em jovens e adultos. No entanto, os dados oficiais mostram que o trânsito também mata crianças — e o mais preocupante: a forma como essas mortes acontecem muda completamente conforme a idade.
Levantamento com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que reúne os óbitos por acidentes de transporte em todo o País, revela um padrão claro: crianças pequenas morrem principalmente como passageiras de veículos, enquanto as maiores perdem a vida como pedestres, ciclistas ou passageiras de motocicletas. Em 2024, por exemplo, que são os últimos dados disponíveis, 958 crianças entre 0 e 14 anos perderam a vida no trânsito brasileiro.
Mais do que números, os dados mostram onde estão as falhas de proteção em cada fase da vida.
Bebês morrem dentro do carro
Entre menores de 1 ano, a maioria das mortes no trânsito ocorre com a criança dentro do veículo, na condição de passageira. Os casos estão geralmente associados ao transporte inadequado, como bebês no colo, sem bebê-conforto ou com o dispositivo instalado de forma incorreta.
Ou seja, nessa faixa etária, o risco não está na rua — está dentro do carro.
O Código de Trânsito Brasileiro determina que o transporte de crianças deve ser feito com dispositivos de retenção adequados à idade, peso e altura. No caso dos bebês, o equipamento obrigatório é o bebê-conforto, instalado de costas para o movimento.
Especialistas em segurança viária afirmam que, nessa idade, a maioria das mortes poderia ser evitada com o uso correto do dispositivo.
De acordo com o especialista em trânsito Celso Mariano, os dados mostram que, quando se trata de bebês, o problema raramente é o trânsito em si.
“Quando um bebê morre em um sinistro de trânsito, normalmente não foi uma fatalidade. Foi uma falha de proteção. A legislação existe, os equipamentos existem, mas ainda falta a percepção de risco por parte dos adultos”, explica.
O perigo está na garagem e nas ruas locais
Na faixa de 1 a 4 anos, as mortes ainda estão muito ligadas à condição de passageiro de veículo, principalmente pela ausência ou uso incorreto da cadeirinha. No entanto, começam a aparecer com mais frequência os atropelamentos, especialmente em áreas residenciais.
São casos que acontecem em garagens, condomínios e ruas de baixo movimento, muitas vezes durante manobras de ré ou quando a criança corre para a rua sem ser vista pelo motorista.
Esse tipo de ocorrência é conhecido como atropelamento de baixa velocidade e costuma envolver veículos conduzidos por pessoas da própria família ou conhecidas.
Isso mostra que, nessa faixa etária, o risco está no entorno da casa e em ruas locais, onde muitas vezes motoristas relaxam a atenção e a velocidade é incompatível com a presença de crianças.
A partir dos 5 anos, a rua passa a ser o maior risco
Entre 5 e 9 anos, o perfil das mortes muda. Os atropelamentos passam a ser a principal causa de morte no trânsito.
Isso acontece porque a criança começa a ganhar autonomia: vai para a escola, brinca na rua, anda de bicicleta e passa a interagir diretamente com o trânsito.
O problema é que, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, crianças nessa idade ainda não têm plena capacidade de avaliar velocidade, distância e risco. Além disso, têm menor campo de visão periférica e são menos visíveis para os motoristas.
Por isso, especialistas defendem que o sistema viário precisa ser planejado considerando a presença de crianças, com medidas como:
- redução de velocidade em áreas escolares e residenciais;
- faixas de pedestres bem sinalizadas;
- travessias elevadas;
- lombadas e traffic calming;
- educação para o trânsito desde a infância.
Em muitos países que conseguiram reduzir a mortalidade infantil no trânsito, a principal medida foi reduzir a velocidade em áreas urbanas, especialmente no entorno de escolas.
Entre 10 e 14 anos, aparecem bicicleta e motocicleta
Na faixa de 10 a 14 anos está o maior número de mortes no trânsito entre crianças e adolescentes. Nessa idade, as vítimas são principalmente pedestres, ciclistas e passageiras de motocicletas.
Esse é um dado importante porque mostra que, nessa fase, a criança deixa de ser apenas passageira e passa a ser usuária do sistema de mobilidade.
No Brasil, a motocicleta aparece com frequência nesses casos, geralmente quando a criança é transportada como passageira, muitas vezes sem equipamentos adequados ou em deslocamentos diários, como o trajeto para a escola.
Para Celso Mariano, esse dado revela um problema estrutural de mobilidade.
“Quando a gente começa a ver criança morrendo como passageira de moto, isso mostra que o problema não é só de trânsito. É de mobilidade, de transporte público insuficiente e de falta de alternativas seguras para o deslocamento diário.”
O que os dados mostram, na prática
Quando se analisam os dados por faixa etária, aparece um padrão claro:
| Faixa etária | Situação mais comum |
|---|---|
| Menor de 1 ano | Passageiro de veículo |
| 1 a 4 anos | Passageiro e atropelamento em área residencial |
| 5 a 9 anos | Pedestre |
| 10 a 14 anos | Pedestre, ciclista e passageiro de moto |
Isso mostra que o risco muda conforme a criança cresce — e, portanto, as estratégias de prevenção também precisam mudar.
Não são acidentes, são falhas de proteção
Uma das principais conclusões da análise dos dados é que muitas dessas mortes poderiam ser evitadas.
Uso correto de cadeirinha e bebê-conforto, redução de velocidade em áreas urbanas, travessias seguras, planejamento urbano e educação para o trânsito estão entre as medidas capazes de reduzir significativamente a mortalidade infantil no trânsito.
Por isso, especialistas em segurança viária defendem que o termo “acidente” não é o mais adequado nesses casos.
“Quando uma criança morre no trânsito, normalmente houve uma sequência de falhas: falha de proteção, falha de fiscalização, falha de infraestrutura ou falha de comportamento. Não é obra do acaso”, afirma Celso Mariano.
Os dados mostram que o trânsito não mata crianças de uma forma só. Ele mata de formas diferentes conforme a idade — mas quase sempre pelas mesmas razões: excesso de velocidade, falta de proteção e falhas no sistema viário.
Entender como essas mortes acontecem é o primeiro passo para evitá-las. Porque, quando se trata de crianças, o trânsito não deveria ser uma ameaça — e sim um ambiente seguro de circulação.