
O feriado prolongado de Finados terminou com 71 mortes e 894 pessoas feridas em 881 sinistros nas rodovias federais, segundo balanço preliminar divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em 3 de novembro. Os registros abrangem os quatro dias da operação, entre 30 de outubro e 2 de novembro.
No mesmo período, a fiscalização flagrou 17.063 veículos acima do limite de velocidade, registrou 3.947 infrações por ultrapassagem irregular e outras 408 por uso do celular na direção. São condutas que exigem atenção de quem viaja, mas os números não permitem afirmar que elas provocaram os sinistros contabilizados no feriado.
O comunicado nacional não apresenta uma distribuição das ocorrências por fatores contribuintes. Também é necessário considerar que os flagrantes dependem dos locais, horários, equipamentos e prioridades da fiscalização: eles não representam uma amostra de todos os motoristas que circularam pelas rodovias.
Conforme Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, o balanço da fiscalização mostra situações de risco que continuam acontecendo.
“Para entender cada sinistro, porém, precisamos examinar também a infraestrutura, as condições de circulação e as circunstâncias da ocorrência. É essa análise que permite escolher medidas capazes de evitar novas mortes”, explica.
Ultrapassagem: estar em local permitido não basta
A ultrapassagem exige avaliar visibilidade, distância, velocidade e espaço para concluir a manobra. Em uma pista simples de mão dupla, uma decisão inadequada pode colocar o veículo diretamente na trajetória de quem vem no sentido contrário.
O DNIT orienta que o motorista respeite as faixas contínuas e ressalta que, mesmo nos trechos com sinalização permitindo a ultrapassagem, a manobra só deve ocorrer quando houver condições de segurança. Curvas, declives e limitações de visibilidade precisam entrar nessa avaliação.
Um levantamento divulgado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) ajuda a dimensionar a gravidade desse tipo de ocorrência. Nas rodovias federais concedidas acompanhadas pela agência, foram contabilizadas 30 mortes durante Finados. Desse total, 36,7% ocorreram em colisões frontais em pistas simples.
O dado identifica o tipo de colisão e de pista. Não comprova, sozinho, que todas essas mortes decorreram de ultrapassagens irregulares. A identificação dos fatores envolvidos depende da análise de cada ocorrência.
O levantamento da ANTT também não deve ser somado ao da PRF. São bases produzidas por instituições diferentes, com recortes de cobertura e procedimentos de registro que precisam ser considerados antes de qualquer comparação. “A faixa permitindo ultrapassar não garante que a manobra seja segura naquele momento. É preciso enxergar o trecho, avaliar o tráfego contrário e ter espaço para retornar. Se a decisão depende de o outro motorista frear ou sair do caminho, já se perdeu a margem de segurança”, argumenta Mariano.
Velocidade e distração reduzem a margem para reagir
Respeitar a velocidade sinalizada é uma condição básica de segurança. Chuva, neblina, trânsito intenso ou presença de pessoas próximas à pista podem exigir uma velocidade ainda menor.
Não se deve interpretar o limite da via como uma meta a alcançar em qualquer circunstância. O DNIT destaca que cada trecho apresenta características próprias, como curvas e restrições de visibilidade, que exigem atenção do condutor.
A distração pelo celular acrescenta outro problema. Em orientação publicada antes da operação, a PRF lembrou que, a 100 km/h, um veículo percorre aproximadamente 28 metros em apenas um segundo. Desviar a atenção nesse intervalo pode comprometer a percepção de uma frenagem, de um obstáculo ou de alguém atravessando a rodovia.
Para consultar uma mensagem ou ajustar o aplicativo de navegação, o motorista deve procurar um local adequado e seguro para estacionar. Durante o deslocamento, um passageiro pode ajudar com essas tarefas.
A proteção também inclui o cinto de segurança: a PRF registrou 2.466 autuações por não utilização do equipamento durante a operação.
Segurança também depende da rodovia
O balanço não encerra a investigação sobre o que aconteceu no feriado. Para orientar a prevenção, é necessário conhecer onde ocorreram os sinistros graves, quais usuários foram atingidos e quais condições estavam presentes.
Sinalização, conservação do pavimento, visibilidade, travessias, separação dos fluxos e condições de atendimento precisam fazer parte dessa análise. A fiscalização e o comportamento dos condutores são componentes da segurança viária, assim como o planejamento e a operação das estradas.
Os usuários vulneráveis também precisam aparecer nessa discussão. No Paraná, por exemplo, a PRF registrou três mortes de pedestres por atropelamento entre as 11 mortes nas rodovias federais do estado durante a operação. Esse recorte estadual não representa a distribuição das vítimas no Brasil, mas mostra por que a prevenção precisa alcançar quem está fora dos veículos.
De acordo com Mariano, uma política de segurança viária precisa trabalhar para que um erro não termine em morte.
“Isso envolve formação, fiscalização e escolhas responsáveis, mas também rodovias com sinalização adequada, travessias seguras e soluções de engenharia compatíveis com os riscos de cada trecho”, conclui o especialista.
Para quem vai pegar a estrada, as orientações incluem planejar o percurso, descansar antes de dirigir, manter distância segura, utilizar os equipamentos de proteção e evitar ultrapassagens quando houver dúvida sobre a possibilidade de concluí-las. A PRF também recomenda verificar as condições da rodovia e a previsão do tempo antes de sair.
Os números nacionais de Finados ainda podem ser atualizados. A PRF informa que as estatísticas são preliminares e dependem da consolidação dos registros em seus sistemas.