
Motociclistas vítimas de sinistros graves em São Paulo estavam, em sua maioria, circulando por vias sem fiscalização eletrônica. É o que revela um estudo inédito realizado pelo Instituto Cordial em parceria com a Abramet, com apoio da Uber, a partir da análise de casos atendidos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HDC).
O levantamento acompanhou a jornada de pacientes internados após sinistros de trânsito com moto e identificou uma forte relação entre a ausência de fiscalização viária e a gravidade das ocorrências. Segundo os dados, 95% dos acidentes analisados aconteceram em locais sem qualquer tipo de fiscalização eletrônica.
A pesquisa também apontou problemas relacionados à sinalização, infraestrutura urbana e comportamento de risco, reforçando o debate sobre segurança viária para motociclistas — atualmente um dos grupos mais vulneráveis no trânsito brasileiro.
Infraestrutura aparece como fator importante nos sinistros
Os dados obtidos junto às vítimas internadas no Hospital das Clínicas mostram um cenário considerado preocupante em relação às condições das vias onde ocorreram os acidentes.
Além da ausência de radares em 95% dos locais analisados, quase 70% dos motociclistas relataram que não havia sinalização de limite de velocidade nas vias. Nos acidentes registrados em cruzamentos — que representaram 28% da amostra — apenas 26% ocorreram em locais com semáforo.
Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores foi a chamada “dinâmica de corredor”, situação em que motociclistas circulam entre veículos. Pelo menos 35% dos acidentes envolveram esse tipo de deslocamento.
O estudo também identificou que cerca de 21% das vítimas não possuíam Carteira Nacional de Habilitação (CNH) válida.
Já em relação aos horários, os acidentes ocorreram com maior frequência às quintas-feiras, entre 5h e 8h da manhã.
Hospital atende casos de alta complexidade
De acordo com os responsáveis pela pesquisa, o perfil do Hospital das Clínicas foi fundamental para compreender a gravidade dos casos analisados.
Por ser uma unidade estritamente referenciada, o hospital recebe pacientes encaminhados por serviços de resgate, como o SAMU, além de outras unidades de saúde. Assim, concentrando ocorrências de alta complexidade.
A análise dos dados hospitalares demonstrou que locais com presença de fiscalização eletrônica estavam associados a perfis de sinistros relativamente menos graves, mesmo considerando o padrão severo dos casos atendidos pela instituição.
Para os pesquisadores, o resultado reforça a importância de medidas voltadas à redução de velocidade e à proteção dos usuários mais vulneráveis do sistema viário. “A segurança viária não pode depender exclusivamente do comportamento individual do motociclista ou de suas escolhas”, destaca Luis Fernando Villaça Meyer, diretor de operações do Instituto Cordial.
“A infraestrutura e a gestão de vias precisam estar preparadas para absorver a inevitabilidade do erro humano, reduzindo sua gravidade e evitando a letalidade, tal como preconizado na abordagem dos Sistemas Seguros, defendida pela ONU, OMS e Ministério dos Transportes. A pesquisa mostra que muitos destes fatores ligados à via precisam melhorar, dos quais a sinalização e a fiscalização de velocidade se destacam”, argumenta.
Estudo também relaciona fiscalização à redução da letalidade
O relatório ainda chama atenção para os impactos do enfraquecimento de políticas de fiscalização no trânsito.
Segundo o estudo, o relaxamento da fiscalização eletrônica pode contribuir para o aumento de mortos e feridos. Ou seja, principalmente por reduzir a eficácia no combate ao excesso de velocidade.
O levantamento também cita mudanças recentes no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), como a ampliação do limite para suspensão da CNH para até 40 pontos. Nesse sentido, apontando que isso prolonga a permanência de condutores infratores nas vias antes da aplicação de sanções mais severas.
A discussão ganha relevância diante do crescimento da frota de motocicletas e do aumento da participação desse tipo de veículo nos deslocamentos urbanos e no trabalho por aplicativos e entregas.
“A Uber entende que, por meio de pesquisas como essa, é possível enfrentar o problema da segurança viária como sociedade. Sabemos que o trânsito é um ecossistema que precisa de iniciativas tanto do poder público quanto da iniciativa privada. Por conta disso, seguimos investindo intensamente em melhorias baseadas em dados que estudos como esse podem trazer”, afirma Rafael Thosi, Líder de Operações de Segurança da Uber no Brasil.
Como o estudo foi realizado
O projeto reuniu uma investigação multidisciplinar baseada em fontes primárias e entrevistas realizadas entre agosto de 2025 e março de 2026.
Ao todo, foram feitas 93 entrevistas com vítimas de sinistros envolvendo motocicletas. O trabalho contou com apoio de profissionais de saúde do Hospital das Clínicas. Além disso, utilizou também dados territoriais e informações secundárias para análise detalhada de cada caso.
Segundo os organizadores, esta foi a primeira pesquisa sobre o tema a conseguir mapear com elevado nível de detalhamento as circunstâncias de cada sinistro envolvendo motociclistas atendidos pela unidade hospitalar.