
A morte de um pedestre de 60 anos após ser atropelado na BR-343, em Parnaíba (PI), na noite de quinta-feira (6), chama novamente a atenção para um problema que vai muito além de uma ocorrência isolada: a vulnerabilidade das pessoas idosas que se deslocam a pé no trânsito brasileiro.
Dados do Ministério da Saúde divulgados anteriormente pelo Portal do Trânsito mostram que 6.274 pessoas com mais de 60 anos morreram em decorrência de sinistros de trânsito em 2023. O número representou crescimento de 3% em relação a 2022 e de 10% na comparação com 2021. Entre essas vítimas, os atropelamentos tiveram participação expressiva.
O cenário preocupa especialmente diante do envelhecimento da população brasileira. Afinal, se cada vez mais pessoas chegam à terceira idade, ruas, avenidas e rodovias precisam estar preparadas para usuários que podem caminhar mais devagar, necessitar de mais tempo para atravessar e apresentar limitações naturais decorrentes do envelhecimento.
Os números mostram que o problema não começou agora
A vulnerabilidade dos pedestres mais velhos já aparecia claramente nas estatísticas há alguns anos. Em 2020, 5.120 pessoas morreram em decorrência de atropelamentos no Brasil. Desse total, 2.657 tinham mais de 50 anos, ou seja, mais da metade das vítimas. Entre elas, 1.693 tinham 60 anos ou mais.
Os dados já demonstravam uma participação elevada das faixas etárias mais avançadas nas mortes de pedestres.
Nos anos seguintes, outros indicadores continuaram acendendo o alerta. Levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) mostrou crescimento das internações de pedestres traumatizados em sinistros de trânsito entre 2022 e 2023.
Na comparação entre o primeiro semestre dos dois anos, as internações aumentaram 37,9% entre pessoas de 60 a 69 anos. Entre aquelas de 70 a 79 anos, a alta foi de 26,6%. Já no grupo com 80 anos ou mais, o crescimento chegou a 34,2%.
Embora os levantamentos se refiram a períodos diferentes e não devam ser comparados diretamente, observados em conjunto eles mostram que a vulnerabilidade dos pedestres mais velhos é um problema persistente de segurança viária.
Por que o pedestre idoso é mais vulnerável?
Qualquer pedestre está exposto em uma colisão porque não possui uma estrutura de proteção contra o impacto de um veículo. No caso dos idosos, porém, algumas alterações associadas ao envelhecimento podem aumentar essa vulnerabilidade.
Problemas de visão e audição, redução da mobilidade, menor equilíbrio e aumento do tempo necessário para reagir podem interferir na maneira como a pessoa percebe e responde às situações do trânsito.
O médico do tráfego Flávio Emir Adura, então diretor científico da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), já explicou ao Portal do Trânsito que alterações musculoesqueléticas, de visão, audição e tempo de reação estão entre os fatores que podem aumentar a exposição dos idosos aos atropelamentos.
Mas o próprio especialista apontou outro aspecto fundamental: o ambiente de trânsito nem sempre está adequadamente planejado para as necessidades das pessoas de idade mais avançada.
O tempo do semáforo acompanha o tempo do idoso?
Essa é uma questão que merece atenção especial.
Uma pessoa jovem pode atravessar rapidamente uma avenida larga. Um idoso com mobilidade reduzida pode precisar de muito mais tempo para percorrer exatamente a mesma distância.
Uma pesquisa da Direção Geral de Tráfego (DGT), da Espanha, citada anteriormente pelo Portal do Trânsito, apontou entre os obstáculos enfrentados pelos pedestres idosos o excesso de velocidade dos veículos, a condução imprudente e, em muitos casos, o curto tempo do semáforo destinado à travessia.
Isso significa que a segurança não depende exclusivamente da decisão do pedestre.
Faixas bem posicionadas, iluminação adequada, calçadas acessíveis, tempos semafóricos compatíveis, refúgios em avenidas largas e velocidades adequadas ao ambiente são medidas que podem tornar uma travessia significativamente mais segura.
A responsabilidade não pode ficar apenas com o idoso
É importante orientar o pedestre a utilizar as faixas, respeitar a sinalização e observar atentamente o trânsito antes de atravessar.
Mas atribuir toda a responsabilidade pela própria segurança ao usuário mais vulnerável ignora uma parte importante do problema.
Conforme Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito, proteger essa população exige também mudanças no ambiente viário.
“Manutenção de calçadas, de iluminação, investimentos em tecnologias que favoreçam a travessia segura, enfim, é preciso transformar a via pública num ambiente de menor risco para o idoso. Além disso, é preciso que os condutores de veículos comecem a perceber mais e redobrar os cuidados ao se depararem com pessoas idosas no trânsito”, afirma Mariano.
A lógica é simples: se determinado usuário possui maior vulnerabilidade, o sistema de trânsito precisa oferecer condições para compensá-la, e não simplesmente exigir que essa pessoa se adapte a um ambiente que não considera suas limitações.
Motorista também precisa entender que nem todos atravessam no mesmo ritmo
O comportamento dos condutores é outro componente fundamental para evitar atropelamentos.
Ao perceber uma pessoa idosa iniciando ou realizando uma travessia, o motorista deve reduzir a velocidade e dar tempo suficiente para que ela chegue ao outro lado com segurança.
Buzinar, acelerar ou aproximar excessivamente o veículo para pressionar o pedestre pode provocar susto e até desequilíbrio.
Também é preciso considerar que nem sempre uma pessoa idosa conseguirá acelerar o passo porque o semáforo mudou ou porque percebeu a aproximação de um automóvel.
Para quem está dentro do veículo, esperar alguns segundos pode representar apenas um pequeno atraso. Para quem atravessa a pé, esse tempo pode ser determinante para chegar ao outro lado da rua com segurança.
Velocidade aumenta o risco e a gravidade
A proteção aos pedestres passa necessariamente pela velocidade praticada pelos veículos.
Quanto maior a velocidade, menor o tempo disponível para que o motorista perceba o pedestre, compreenda o risco, reaja e consiga parar.
Ao mesmo tempo, a energia envolvida no impacto aumenta conforme a velocidade cresce, elevando a possibilidade de ferimentos graves ou morte.
Para uma pessoa idosa, que pode apresentar maior fragilidade física, as consequências de um atropelamento podem ser ainda mais severas.
Por isso, locais com circulação intensa de pedestres precisam combinar infraestrutura adequada, fiscalização e velocidades compatíveis com a convivência entre diferentes usuários da via.
Envelhecimento da população também é um desafio para a mobilidade
Discutir a segurança do pedestre idoso não significa defender que pessoas mais velhas deixem de circular pelas cidades.
É justamente o contrário.
Caminhar permite acesso ao transporte público, comércio, serviços de saúde, lazer e convivência social. Um ambiente que provoca medo de sair de casa também compromete a autonomia e a qualidade de vida.
O envelhecimento da população torna ainda mais urgente pensar cidades capazes de atender diferentes ritmos e necessidades.
Calçadas acessíveis, travessias seguras, boa iluminação, sinalização adequada, redução da velocidade em áreas de grande circulação e mais tempo para atravessar são medidas que beneficiam não apenas idosos, mas também crianças, pessoas com deficiência e todos os demais pedestres.
De acordo com Mariano, o atropelamento ocorrido em Parnaíba traz novamente o problema para o debate, mas as estatísticas mostram que o alerta não começou agora.
“Reduzir as mortes de pedestres idosos exige reconhecer uma realidade básica: nem todas as pessoas enxergam, caminham ou reagem com a mesma rapidez. Um trânsito verdadeiramente seguro precisa estar preparado para essas diferenças”, finaliza.