
Questões relacionadas à saúde física e mental dos motoristas estiveram por trás de quase um terço dos sinistros registrados nas rodovias federais brasileiras entre 2014 e 2024. O dado faz parte de um levantamento da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), elaborado com base em registros da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Segundo a análise, 1.206.491 ocorrências tiveram relação com fatores como sono, ausência de reação, falta de atenção, transtornos mentais, mal súbito, uso de substâncias psicoativas, além de doenças oculares, problemas motores e neurológicos. Esse número representa 27,8% dos 4,3 milhões de sinistros contabilizados nas rodovias federais no período.
O levantamento surge em meio ao debate sobre a Medida Provisória 1.327/2025, que originalmente previa dispensar determinados condutores da realização de exames médicos na renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O texto acabou sendo alterado no Congresso Nacional para manter a obrigatoriedade do Exame de Aptidão Física e Mental (EAFM).
De acordo com a Abramet, os dados reforçam a importância do acompanhamento periódico das condições de saúde dos condutores.
“Os números mostram que quase um em cada três sinistros nas rodovias federais têm como causa questões relacionadas à saúde física ou mental dos condutores. Ignorar a importância da realização dos exames de aptidão física e mental realizados pelos médicos do tráfego para renovação da CNH sob qualquer argumento, seria um equívoco”, afirma o presidente da Abramet, Antonio Meira Júnior.
Fator humano responde pela maior parte das ocorrências
Além das questões de saúde, o estudo aponta que outros 49% dos sinistros registrados nas rodovias federais tiveram relação com comportamentos inadequados dos condutores, classificados pela PRF como “fator humano”. Nesse grupo entram situações como excesso de velocidade assim como ultrapassagens em locais proibidos.
Somados, os fatores ligados ao comportamento e à saúde dos motoristas representam aproximadamente 80% de todas as ocorrências registradas no período analisado.
Já os problemas relacionados à infraestrutura viária corresponderam a 8% dos registros, enquanto falhas nos veículos representaram cerca de 7%. Aspectos ambientais, como chuva intensa e neblina, responderam por 4% das ocorrências.
Conforme a Abramet, a metodologia utilizada pela PRF permite identificar não apenas o tipo de sinistro, mas também os fatores que contribuíram para sua ocorrência, o que ajuda na elaboração de estratégias de prevenção.
Estados apresentam diferenças nos índices
A análise mostra ainda que o peso dos problemas de saúde varia entre os estados brasileiros. Em Roraima, por exemplo, as questões relacionadas à saúde estiveram presentes em 35,1% dos sinistros registrados. Mato Grosso do Sul aparece na sequência, com 32,1%, seguido por Pará (30,3%), Rio Grande do Sul (30,1%) e Piauí (30%).
Em números absolutos, Minas Gerais lidera o ranking nacional, com 154.648 ocorrências relacionadas à saúde dos condutores. Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo aparecem logo depois.
O estudo também chama atenção para as características das ocorrências nas rodovias federais. As colisões — frontais, traseiras e laterais — representaram mais da metade dos casos registrados entre 2014 e 2024. Na sequência aparecem saídas de pista, tombamentos, quedas e capotamentos.
Homens são maioria nos registros
Outro dado levantado pela Abramet aponta que os homens estiveram envolvidos em 66,1% dos sinistros registrados nas rodovias federais brasileiras. A predominância masculina se manteve na maior parte das categorias analisadas pela PRF.
Em relação à idade, a maior concentração de ocorrências foi observada entre condutores de 20 a 59 anos, especialmente nas faixas entre 30 e 39 anos e entre 20 e 29 anos.
O levantamento também identificou que jovens com até 19 anos e pessoas com 60 anos ou mais aparecem proporcionalmente mais entre as vítimas fatais, apesar de participarem menos do total de sinistros.
Renovação automática da CNH: retorno da exigência de exames
O levantamento divulgado pela Abramet reforça um debate que ganhou destaque durante a tramitação da Medida Provisória 1.327/2025: a possibilidade de renovação automática da CNH para determinados condutores. Embora a proposta tenha surgido com a ideia de simplificar o processo, o texto aprovado no Congresso manteve a exigência dos exames médicos para renovação da habilitação.
De acordo com a Abramet, o acompanhamento periódico da saúde dos condutores continua sendo uma medida essencial para reduzir riscos no trânsito e prevenir mortes e feridos nas rodovias brasileiras.