
Os acidentes mais graves nas rodovias federais brasileiras têm endereço certo: pistas simples, trechos retos e período diurno. É o que revela um levantamento da Fundação Dom Cabral, com base em dados oficiais de 2018 a 2024. O estudo mostra que a combinação entre infraestrutura limitada, excesso de velocidade e colisões frontais forma um cenário de alto risco — especialmente em um país onde a maior parte da malha federal ainda não é duplicada.
A pesquisa analisou registros da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em rodovias com fluxo médio diário igual ou superior a mil veículos, cruzando essas informações com dados de tráfego do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Ao todo, houve a consolidação de 72 análises, permitindo recortes por tipo de via, horário, natureza do acidente e perfil dos veículos envolvidos.
2024: o ano mais letal da série
O levantamento aponta uma mudança importante na tendência dos últimos anos. Em 2020, durante o período mais restritivo da pandemia, o país registrou o menor número de acidentes da série: 48.416 ocorrências. A partir dali, porém, os índices voltaram a crescer.
Em 2024, foram contabilizados 56.116 acidentes nas rodovias federais — o maior volume desde 2018. Mais preocupante do que o aumento absoluto das ocorrências é a escalada da gravidade: 4.995 pessoas morreram e 15.916 ficaram gravemente feridas no último ano analisado, também os piores resultados do período.
Para o professor Paulo Resende, diretor do Núcleo de Logística e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral, a configuração da malha rodoviária ajuda a explicar o padrão observado.
Predomínio de pistas simples amplia risco
Atualmente, o Brasil possui cerca de 65,8 mil quilômetros de rodovias federais estruturadas. Desse total, 83,5% são de pista simples — ou seja, sem separação física entre os fluxos opostos — e apenas 16,5% são duplicadas. Considerando todo o sistema viário nacional, que soma aproximadamente 1,7 milhão de quilômetros entre vias federais, estaduais e municipais, a dependência do modal rodoviário é evidente.
O problema é que, em pistas simples, uma ultrapassagem mal calculada pode resultar em colisão frontal — justamente o tipo de impacto com maior potencial de letalidade no trânsito. Diferentemente das rodovias duplicadas, onde há barreira física ou canteiro central separando os sentidos, nas pistas simples a divisão costuma ser feita apenas por sinalização horizontal, muitas vezes desgastada.
Nesse contexto, qualquer erro de julgamento pode ter consequências devastadoras. A ausência de separação estrutural entre os fluxos transforma decisões arriscadas em tragédias quase instantâneas.
Retas e luz do dia: a falsa sensação de segurança
Outro dado que chama atenção é a concentração de acidentes graves em trechos retos e durante o dia — cenário que contraria a percepção popular de que curvas fechadas e a condução noturna são os maiores vilões.
De acordo com o estudo, as retas transmitem uma sensação de controle absoluto ao condutor. Em plena luz do dia, com visibilidade aparentemente ampla, muitos motoristas se sentem seguros para desenvolver velocidades mais elevadas. Essa confiança excessiva, combinada ao aumento do fluxo no período diurno, amplia a interação entre comportamentos distintos e eleva o risco de colisões frontais.
O erro de avaliação, nesses casos, costuma ser fatal. A crença de que “nada inesperado vai acontecer” reduz a margem de cautela justamente em ambientes onde a infraestrutura já impõe limites.
Motocicletas elevam severidade em áreas urbanizadas
O levantamento também destaca a participação crescente de motocicletas nos acidentes mais graves, principalmente em trechos próximos a áreas urbanas, como anéis rodoviários e acessos às cidades.
À medida que as rodovias federais passam a absorver tráfego local — deslocamentos curtos e serviços de entrega, por exemplo — aumenta o conflito entre motos e veículos pesados. Colisões traseiras e laterais envolvendo motociclistas apresentam índices altíssimos de gravidade, devido à vulnerabilidade física do condutor.
Muitas dessas motos acessam a rodovia por entradas laterais sem controle adequado, inserindo-se no fluxo de caminhões e veículos de longa distância. Ou seja, no impacto com veículos de grande porte, as chances de lesões graves ou morte são significativamente maiores.
Caminhos para reduzir a gravidade
Conforme os pesquisadores, a redução da letalidade nas rodovias federais passa por três eixos principais: ampliação da duplicação das vias, controle de acessos laterais e fiscalização efetiva da velocidade.
Aponta-se a separação física entre fluxos opostos como uma das medidas mais eficazes para eliminar o risco de colisões frontais. Já o controle de velocidade é determinante para reduzir a severidade dos impactos, uma vez que a energia liberada em uma colisão aumenta exponencialmente conforme o veículo trafega mais rápido.
O estudo também defende políticas específicas voltadas aos motociclistas, especialmente em áreas sob influência urbana, a fim de reduzir a interação direta com veículos pesados.
O estudo reforça, ainda, que o enfrentamento do problema exige atuação integrada. Em um país fortemente dependente do transporte rodoviário, a responsabilidade pela segurança não pode recair apenas sobre os órgãos de fiscalização. Trata-se de uma agenda estrutural, que envolve planejamento, investimento em infraestrutura e políticas públicas consistentes.
Os dados deixam claro que o desafio vai além do comportamento individual. Enquanto a maior parte das rodovias federais permanecer como pista simples, o risco estrutural continuará elevado — e os números de 2024 mostram que o Brasil está longe de inverter essa curva.