
*Por João Valle
Todos os anos, em 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro nos convida a imaginar as cidades com menos veículos individuais nas ruas. A data chama atenção para questões como congestionamentos, emissões e ocupação do espaço urbano. Mas também deveria provocar uma pergunta prática: o que precisa acontecer para que deixar o carro em casa seja uma escolha possível e desejável no cotidiano?
Não basta pedir às pessoas que mudem seus hábitos. É necessário oferecer alternativas capazes de competir pela preferência do passageiro.
O transporte coletivo tem escala para cumprir esse papel. Mais de 35 milhões de brasileiros utilizam ônibus diariamente, segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). Ao mesmo tempo, a demanda do transporte coletivo por ônibus em 2025 correspondeu a apenas 77,5% do volume registrado em 2019. Os números mostram tanto a relevância desse modal quanto o desafio de torná-lo mais atrativo. E isso passa, necessariamente, pela experiência do passageiro.
Hoje, estamos acostumados a resolver boa parte da vida pelo celular. Pagamos contas, compramos alimentos, acompanhamos entregas e contratamos serviços em poucos minutos. É natural que esse processo simplificado também tenha chegado à mobilidade. O passageiro quer planejar seu deslocamento, saber quando o ônibus chegará, pagar ou recarregar sua passagem com facilidade e ter mais previsibilidade durante a viagem.
Os jovens ajudam a mostrar que existe espaço para essa transformação.
Um levantamento global da Ipsos, realizado em 31 países, incluindo o Brasil, apontou que a Geração Z é a faixa etária mais propensa a gostar do transporte público: 22% apontam o coletivo como seu modo de transporte preferido, contra 15% entre Millennials, 16% na Geração X e 14% entre Baby Boomers. Além disso, 48% dos jovens afirmam que escolheriam o transporte público por razões ambientais.
Há, portanto, uma oportunidade. Uma geração altamente conectada e preocupada com questões ambientais não rejeita o transporte coletivo, mas espera dele uma experiência compatível com aquela que encontra em outros serviços.
É nesse ponto que a inovação pode fazer diferença. Processos que antes exigiam deslocamento e filas podem ser feitos pelo celular; recargas podem acontecer digitalmente; e dados gerados pelos veículos podem ajudar operadores a aprimorar a segurança e a eficiência da operação.
Em Florianópolis, por exemplo, a digitalização do recadastramento de estudantes mostra como uma mudança simples pode transformar a relação com o serviço.
Nos três primeiros meses da solução, entre 20% e 30% dos estudantes realizavam o processo online. Hoje, esse percentual chega a 80%.
Esse exemplo traduz algo que considero central para o futuro da mobilidade: inovação relevante é aquela que o passageiro percebe na própria jornada. Naturalmente, tecnologia não resolve sozinha todos os desafios do transporte público. Frequência, infraestrutura, tempo de viagem, tarifa, conforto e planejamento urbano continuam fundamentais. Mas a transformação digital pode contribuir para tornar a experiência mais simples, segura e previsível.
Esse talvez seja um dos principais recados do Dia Mundial Sem Carro. O futuro das cidades não depende apenas de reduzir a presença do automóvel, mas de aumentar a atratividade das alternativas. Quando o transporte coletivo oferece uma boa experiência, deixar o carro em casa pode deixar de ser uma renúncia e se tornar uma escolha.
*João Valle é diretor da Empresa 1, centro de inovação em mobilidade urbana e pioneira do sistema de bilhetagem digital para transporte público no Brasil