
Uma coincidência entre futebol e mobilidade urbana chamou a atenção nesta semana. Com o jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, muitas empresas flexibilizaram o expediente ou adotaram o home office, e o reflexo apareceu rapidamente nas ruas de São Paulo.
Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a capital registrou 122 quilômetros de congestionamento durante a manhã — uma redução de quase 70% em relação à segunda-feira anterior, quando haviam sido contabilizados 421 quilômetros de lentidão no mesmo horário.
Embora a mudança tenha sido pontual, os números reacenderam uma discussão que vem ganhando espaço desde a pandemia: até que ponto modelos de trabalho mais flexíveis podem contribuir para reduzir congestionamentos, melhorar a mobilidade urbana e aumentar a qualidade de vida dos trabalhadores?
Um estudo nacional da WeWork, realizado com 2.500 trabalhadores brasileiros em parceria com a Offerwise, ajuda a explicar por que um único dia de trabalho remoto pode produzir efeitos tão perceptíveis no trânsito das grandes cidades.
O presencial voltou, mas nem todos querem esse modelo
A pesquisa mostra que o retorno aos escritórios já é uma realidade consolidada. Atualmente, 63% dos profissionais trabalham de forma totalmente presencial, enquanto os modelos híbrido e remoto representam uma parcela menor da força de trabalho. Além disso, entre quem atua presencialmente, 79% seguem políticas definidas pelas empresas, demonstrando que a volta ao escritório deixou de ser uma fase de transição e passou a integrar a estratégia organizacional de muitas companhias.
Por outro lado, quando os trabalhadores são questionados sobre o formato que preferem, o cenário muda significativamente.
Apenas quatro em cada dez afirmam que escolheriam o trabalho totalmente presencial. Os demais optariam por alguma modalidade mais flexível: cerca de 30% preferem o modelo híbrido e outros 30% escolheriam trabalhar remotamente. Na prática, seis em cada dez profissionais demonstram preferência por um formato que não exige presença diária no escritório.
Esse descompasso entre o modelo adotado pelas empresas e a preferência dos trabalhadores ajuda a entender por que alterações pontuais na rotina corporativa podem produzir impactos relevantes no trânsito das grandes cidades.
O deslocamento pesa na decisão
Boa parte dessa preferência está diretamente ligada à mobilidade. Entre as principais desvantagens apontadas pelos entrevistados em relação ao trabalho presencial, 65% citam o tempo gasto nos deslocamentos. Outros 53% mencionam o custo do transporte, enquanto 43% afirmam perder tempo que seria possível dedicar à vida pessoal. Também aparecem entre as preocupações a redução do tempo de descanso, a insegurança durante os deslocamentos e a maior exposição a doenças.
Os resultados dialogam diretamente com o que se observou em São Paulo durante a partida da Seleção. Menos pessoas precisaram se deslocar ao mesmo tempo, reduzindo a demanda sobre o sistema viário e diminuindo significativamente os congestionamentos.
Embora um único dia não seja suficiente para estabelecer uma relação definitiva entre trabalho remoto e melhoria da mobilidade, ele funciona como um exemplo prático de como pequenas mudanças na distribuição dos deslocamentos podem influenciar o trânsito em grandes centros urbanos.
Nem tudo favorece o trabalho remoto
Ao mesmo tempo em que reduz deslocamentos, o home office também apresenta desafios.
O levantamento mostra que o ambiente presencial continua sendo valorizado por favorecer a integração entre equipes, fortalecer relacionamentos profissionais, facilitar a comunicação e ampliar a percepção de produtividade. Para muitos profissionais, o escritório continua exercendo um papel importante na construção de vínculos e na colaboração entre colegas.
Já se associa o trabalho remoto principalmente à economia de tempo, maior flexibilidade de horários, redução de custos e melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Em contrapartida, os entrevistados também apontam riscos como isolamento profissional, dificuldades de colaboração, perda do senso de pertencimento e impactos na saúde mental.
Esses resultados reforçam que a discussão deixou de ser uma disputa entre trabalho presencial e remoto.
O desafio é encontrar equilíbrio
De acordo com a pesquisa, o mercado ainda busca um modelo capaz de equilibrar produtividade, colaboração e qualidade de vida.
Quatro em cada dez trabalhadores aumentaram a frequência de idas ao escritório em relação ao ano passado, enquanto outros quatro em cada dez mantiveram a rotina sem alterações. O cenário indica que empresas e profissionais ainda estão ajustando suas políticas de trabalho.
O próprio estudo conclui que o futuro do trabalho não passa pela escolha exclusiva entre escritório ou home office, mas pela construção de modelos híbridos que conciliem os benefícios da interação presencial com a flexibilidade desejada pelos trabalhadores.
No caso da mobilidade urbana, episódios como o registrado durante o jogo da Seleção reforçam que políticas de flexibilização da jornada — mesmo quando adotadas de forma ocasional — podem contribuir para distribuir melhor os deslocamentos ao longo do dia, reduzindo congestionamentos e seus impactos sobre a qualidade de vida da população.