Micromobilidade cresce e muda o perfil das mortes no trânsito no Brasil

O aumento dos acidentes com bicicletas elétricas e patinetes revela uma mudança no perfil das vítimas do trânsito no Brasil, segundo dados oficiais e especialistas.


Por Mariana Czerwonka
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A micromobilidade aparece ao mesmo tempo como parte da solução e como um novo desafio para a segurança viária. Foto: Canetti para Depositphotos

O aumento dos acidentes envolvendo bicicletas elétricas, patinetes e outros veículos autopropelidos não é apenas um fenômeno isolado ou pontual. Ele faz parte de uma mudança maior: a transformação do perfil das vítimas no trânsito brasileiro.

Reportagens recentes mostram que os acidentes com veículos de micromobilidade praticamente triplicaram em algumas cidades, como o Rio de Janeiro. O crescimento acompanha a popularização desses veículos, que passaram a fazer parte da mobilidade urbana, especialmente em deslocamentos curtos.

Mas quando esse aumento é analisado junto com os dados de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, surge um alerta importante: o trânsito está mudando e o perfil das vítimas também.

O trânsito não mata mais como antes

Durante décadas, o trânsito brasileiro matava principalmente em colisões entre veículos, especialmente em rodovias. Hoje, o cenário é diferente.

Os dados mostram que o perfil das vítimas varia conforme a idade:

Faixa etáriaPerfil mais comum das vítimas
0 a 4 anosPassageiros
5 a 14 anosPedestres e ciclistas
15 a 29 anosMotociclistas
30 a 59 anosMotociclistas e motoristas
60+Pedestres

Isso revela uma mudança importante: as vítimas mais frequentes hoje são usuários vulneráveis, ou seja, pessoas que estão fora do carro.

E é exatamente nesse grupo que entram os usuários de micromobilidade.

A micromobilidade entrou no trânsito — mas as cidades não se adaptaram

Bicicletas elétricas, patinetes e outros veículos autopropelidos se popularizaram rapidamente porque resolvem um problema real: o deslocamento curto nas cidades.

Eles são mais baratos que um carro, mais rápidos que caminhar e muitas vezes mais práticos que o transporte público para pequenas distâncias.

Do ponto de vista urbano e ambiental, a micromobilidade tem vantagens importantes:

O problema é que esses veículos passaram a circular em cidades que ainda não têm infraestrutura adequada para eles.

Eles disputam espaço com:

E essa mistura aumenta o risco.

Um novo usuário vulnerável

O usuário de micromobilidade é, na prática, um usuário vulnerável, assim como o pedestre e o ciclista. Ele não tem a proteção da carroceria de um veículo, é menos visível e está mais exposto ao impacto em caso de colisão.

Quando esse usuário é uma criança, um adolescente ou um idoso, o risco é ainda maior.

Conforme o especialista em trânsito Celso Mariano, o problema não está necessariamente na micromobilidade, mas na forma como o sistema viário está organizado. “A micromobilidade é uma solução de mobilidade urbana. O problema é que as cidades brasileiras ainda são pensadas para o carro. Quando você coloca bicicletas elétricas e patinetes para dividir espaço com ônibus e caminhões, o risco aumenta muito. E quem paga essa conta são os usuários mais vulneráveis.”

O que os dados mostram

Quando se analisam os dados de mortalidade no trânsito ao longo dos últimos anos, aparece uma tendência clara:

Ou seja, o trânsito brasileiro está deixando de matar principalmente quem está dentro do carro e está matando principalmente quem está fora dele.

“O trânsito mudou. Antes, o grande risco estava dentro do carro, nas rodovias. Hoje, o grande risco está nas cidades, para quem está a pé, de bicicleta, de moto ou em veículos leves. O sistema viário brasileiro ainda não acompanhou essa mudança”, explica Celso Mariano.

O desafio agora é outro

O crescimento da micromobilidade traz benefícios importantes para a mobilidade urbana, mas também cria novos desafios de segurança viária.

Entre os principais problemas apontados por especialistas estão:

Ou seja, a micromobilidade não é o problema em si — o problema é a falta de planejamento para a convivência entre modais tão diferentes.

Uma mudança silenciosa no trânsito

O acidente que matou mãe e filho na Tijuca, envolvendo uma bicicleta elétrica e um ônibus, é um exemplo dessa mudança silenciosa que está acontecendo no trânsito.

O trânsito continua matando passageiros, pedestres e motociclistas. Mas agora também começa a matar com mais frequência usuários de micromobilidade.

E isso muda completamente o foco das políticas públicas de segurança viária.

“A discussão de trânsito hoje não pode mais ser só sobre carro. Tem que ser sobre pessoas. Sobre pedestres, ciclistas, motociclistas e agora também sobre a micromobilidade. A cidade precisa ser pensada para proteger quem é mais vulnerável”, afirma Celso Mariano.

O que precisa mudar

De acordo com especialistas, reduzir mortes no trânsito nesse novo cenário passa por medidas como:

Porque o trânsito está mudando — e as cidades precisam mudar com ele.

Hoje, o maior risco no trânsito brasileiro não está apenas nas rodovias. Está nas cidades, na convivência entre modais diferentes e na falta de proteção aos usuários mais vulneráveis.

E, nesse cenário, a micromobilidade aparece ao mesmo tempo como parte da solução e como um novo desafio para a segurança viária.

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