
O aumento dos acidentes envolvendo bicicletas elétricas, patinetes e outros veículos autopropelidos não é apenas um fenômeno isolado ou pontual. Ele faz parte de uma mudança maior: a transformação do perfil das vítimas no trânsito brasileiro.
Reportagens recentes mostram que os acidentes com veículos de micromobilidade praticamente triplicaram em algumas cidades, como o Rio de Janeiro. O crescimento acompanha a popularização desses veículos, que passaram a fazer parte da mobilidade urbana, especialmente em deslocamentos curtos.
Mas quando esse aumento é analisado junto com os dados de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, surge um alerta importante: o trânsito está mudando e o perfil das vítimas também.
O trânsito não mata mais como antes
Durante décadas, o trânsito brasileiro matava principalmente em colisões entre veículos, especialmente em rodovias. Hoje, o cenário é diferente.
Os dados mostram que o perfil das vítimas varia conforme a idade:
| Faixa etária | Perfil mais comum das vítimas |
|---|---|
| 0 a 4 anos | Passageiros |
| 5 a 14 anos | Pedestres e ciclistas |
| 15 a 29 anos | Motociclistas |
| 30 a 59 anos | Motociclistas e motoristas |
| 60+ | Pedestres |
Isso revela uma mudança importante: as vítimas mais frequentes hoje são usuários vulneráveis, ou seja, pessoas que estão fora do carro.
E é exatamente nesse grupo que entram os usuários de micromobilidade.
A micromobilidade entrou no trânsito — mas as cidades não se adaptaram
Bicicletas elétricas, patinetes e outros veículos autopropelidos se popularizaram rapidamente porque resolvem um problema real: o deslocamento curto nas cidades.
Eles são mais baratos que um carro, mais rápidos que caminhar e muitas vezes mais práticos que o transporte público para pequenas distâncias.
Do ponto de vista urbano e ambiental, a micromobilidade tem vantagens importantes:
- reduz o uso do carro;
- diminui congestionamentos;
- reduz poluição;
- amplia o acesso à mobilidade;
- facilita a integração com transporte público.
O problema é que esses veículos passaram a circular em cidades que ainda não têm infraestrutura adequada para eles.
Eles disputam espaço com:
- carros,
- ônibus,
- caminhões,
- motocicletas,
- pedestres,
- ciclistas.
E essa mistura aumenta o risco.
Um novo usuário vulnerável
O usuário de micromobilidade é, na prática, um usuário vulnerável, assim como o pedestre e o ciclista. Ele não tem a proteção da carroceria de um veículo, é menos visível e está mais exposto ao impacto em caso de colisão.
Quando esse usuário é uma criança, um adolescente ou um idoso, o risco é ainda maior.
Conforme o especialista em trânsito Celso Mariano, o problema não está necessariamente na micromobilidade, mas na forma como o sistema viário está organizado. “A micromobilidade é uma solução de mobilidade urbana. O problema é que as cidades brasileiras ainda são pensadas para o carro. Quando você coloca bicicletas elétricas e patinetes para dividir espaço com ônibus e caminhões, o risco aumenta muito. E quem paga essa conta são os usuários mais vulneráveis.”
O que os dados mostram
Quando se analisam os dados de mortalidade no trânsito ao longo dos últimos anos, aparece uma tendência clara:
- as mortes de ocupantes de automóveis reduziram ao longo do tempo;
- as mortes de motociclistas aumentaram muito;
- pedestres continuam morrendo em grande número;
- ciclistas e usuários de veículos leves começam a aparecer cada vez mais nas estatísticas.
Ou seja, o trânsito brasileiro está deixando de matar principalmente quem está dentro do carro e está matando principalmente quem está fora dele.
“O trânsito mudou. Antes, o grande risco estava dentro do carro, nas rodovias. Hoje, o grande risco está nas cidades, para quem está a pé, de bicicleta, de moto ou em veículos leves. O sistema viário brasileiro ainda não acompanhou essa mudança”, explica Celso Mariano.
O desafio agora é outro
O crescimento da micromobilidade traz benefícios importantes para a mobilidade urbana, mas também cria novos desafios de segurança viária.
Entre os principais problemas apontados por especialistas estão:
- falta de ciclovias e infraestrutura;
- velocidade incompatível em áreas urbanas;
- conflito entre modais diferentes;
- uso em calçadas;
- falta de fiscalização;
- falta de equipamentos de segurança;
- regulamentação ainda em adaptação em muitas cidades.
Ou seja, a micromobilidade não é o problema em si — o problema é a falta de planejamento para a convivência entre modais tão diferentes.
Uma mudança silenciosa no trânsito
O acidente que matou mãe e filho na Tijuca, envolvendo uma bicicleta elétrica e um ônibus, é um exemplo dessa mudança silenciosa que está acontecendo no trânsito.
O trânsito continua matando passageiros, pedestres e motociclistas. Mas agora também começa a matar com mais frequência usuários de micromobilidade.
E isso muda completamente o foco das políticas públicas de segurança viária.
“A discussão de trânsito hoje não pode mais ser só sobre carro. Tem que ser sobre pessoas. Sobre pedestres, ciclistas, motociclistas e agora também sobre a micromobilidade. A cidade precisa ser pensada para proteger quem é mais vulnerável”, afirma Celso Mariano.
O que precisa mudar
De acordo com especialistas, reduzir mortes no trânsito nesse novo cenário passa por medidas como:
- redução de velocidade em áreas urbanas;
- ampliação de ciclovias;
- melhor regulamentação da micromobilidade;
- fiscalização;
- educação para o trânsito;
- planejamento urbano com foco em segurança viária.
Porque o trânsito está mudando — e as cidades precisam mudar com ele.
Hoje, o maior risco no trânsito brasileiro não está apenas nas rodovias. Está nas cidades, na convivência entre modais diferentes e na falta de proteção aos usuários mais vulneráveis.
E, nesse cenário, a micromobilidade aparece ao mesmo tempo como parte da solução e como um novo desafio para a segurança viária.