
O transporte por aplicativo facilitou a vida de milhões de brasileiros, mas ainda não foi pensado para todos. Idosos, pessoas com deficiência e quem tem mobilidade reduzida, temporária ou permanente, enfrentam barreiras que começam antes da corrida, no próprio celular, e continuam no embarque, no veículo e no pagamento. Algumas soluções já existem; outras dependem de mudanças nas plataformas, na formação dos motoristas e na regulamentação municipal.
O tema ganha urgência com o envelhecimento da população. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tem 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, 10,9% da população. Em 2010, eram 14,1 milhões: um crescimento de 57,4% em 12 anos. É um público que precisa se deslocar para consultas, exames, compras e convívio social, e que muitas vezes já não dirige.
Quais são as principais barreiras hoje?
1. O acesso ao aplicativo
Para muitos idosos, a primeira barreira é a tecnologia. Letras pequenas, muitos passos até confirmar a corrida, cadastro com validações por SMS e e-mail, pagamento vinculado a cartão de crédito e notificações que somem rápido da tela tornam o processo difícil. O resultado é a dependência de filhos e netos para pedir cada viagem.
2. O embarque e o desembarque
O ponto de encontro definido pelo GPS nem sempre é o mais acessível. Calçadas irregulares, ausência de rampas e a necessidade de atravessar a rua até o carro são obstáculos para quem usa bengala, andador ou cadeira de rodas. Muitas vezes o passageiro precisa de mais tempo para embarcar, e nem todo motorista está preparado para esperar ou ajudar.
3. O veículo
A maioria dos carros de aplicativo não é adaptada. Quem usa cadeira de rodas que não dobra precisa de veículo com rampa ou plataforma elevatória, oferta ainda rara fora das capitais. Mesmo para cadeiras dobráveis, o porta-malas precisa comportar o equipamento, informação que normalmente o passageiro não tem ao pedir a corrida.
4. A comunicação
Pessoas com deficiência visual dependem de aplicativos compatíveis com leitores de tela. Pessoas com deficiência auditiva precisam de comunicação por texto com o motorista. Quando o aplicativo não oferece esses recursos, a corrida simplesmente não acontece.
O que a legislação já garante
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) trata do direito ao transporte e à mobilidade. Entre outros pontos, determina:
- Táxis: as frotas das empresas de táxi devem reservar 10% de seus veículos acessíveis à pessoa com deficiência, e é proibida a cobrança diferenciada de tarifas ou valores adicionais por esse atendimento (art. 51).
- Locadoras: devem oferecer um veículo adaptado a cada 20 da frota (art. 52).
- Embarque e desembarque: no transporte coletivo, a pessoa com deficiência tem prioridade e segurança no embarque e no desembarque (art. 48).
O Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003) também garante prioridade e direitos no transporte, com foco no transporte coletivo.
O transporte por aplicativo, regulado pela Lei 13.640/2018, não tem uma cota federal específica de veículos acessíveis como a dos táxis. Como a regulamentação do serviço é municipal, cabe a cada cidade decidir se inclui exigências ou incentivos de acessibilidade nas suas regras.
O que já existe nas plataformas
Algumas soluções já estão disponíveis, em graus diferentes conforme a plataforma e a cidade:
- Categorias específicas, com veículos mais espaçosos ou adaptados, em algumas grandes cidades;
- Agendamento de corridas, útil para consultas e exames com horário marcado;
- Pedido feito por outra pessoa, para que um familiar solicite e acompanhe a viagem;
- Compartilhamento de rota em tempo real, que dá tranquilidade à família;
- Chat com o motorista, que permite avisar sobre necessidades antes da chegada;
- Centrais de atendimento por telefone, ainda comuns em empresas de táxi e em aplicativos regionais.
O que ainda falta
Aplicativos desenhados para todos
Acessibilidade digital não é um recurso extra, é uma decisão de projeto. Um aplicativo inclusivo deveria ter:
- modo simplificado, com letras grandes, alto contraste e poucos passos até a confirmação;
- compatibilidade com leitores de tela e comandos de voz;
- campo para informar necessidades no pedido, como cadeira de rodas dobrável, andador, cão-guia ou ajuda para embarcar;
- indicação clara de quais veículos comportam equipamentos de mobilidade;
- pagamento simples, com opções além do cartão de crédito;
- atendimento humano acessível por telefone ou mensagem, para quem não consegue usar o aplicativo sozinho.
Motoristas preparados
A tecnologia resolve parte do problema; a outra parte é atendimento. Treinamento sobre como ajudar no embarque com segurança, como acomodar uma cadeira de rodas, como se comunicar com pessoas com deficiência auditiva ou visual e como agir com paciência faz diferença real. Motoristas também precisam ser estimulados, e não penalizados, quando o embarque leva mais tempo.
Oferta de veículos adaptados
Veículos com rampa ou plataforma custam mais e rodam menos corridas. Sem incentivo, essa oferta não cresce. Prefeituras podem incluir acessibilidade na regulamentação municipal, com metas, benefícios ou prioridade de cadastro para veículos adaptados, e as plataformas podem criar categorias com remuneração que torne esse serviço viável para o motorista.
Soluções para as cidades menores
No interior, onde muitos idosos moram e o transporte coletivo é limitado, o desafio é maior. Aplicativos regionais têm uma vantagem: proximidade. Um operador local conhece a cidade, pode manter atendimento por telefone, cadastrar motoristas preparados para esse público e criar categorias específicas. A tecnologia para isso já está disponível. Plataformas de mobilidade como a Mind Mobilidade Urbana permitem que operadores locais configurem categorias de atendimento, agendamento de corridas e atendimento próprio, adaptando o serviço ao perfil da população da cidade.
O que a prefeitura pode fazer
- Incluir acessibilidade na regulamentação municipal do transporte por aplicativo, com exigências ou incentivos proporcionais ao porte da cidade.
- Mapear pontos de embarque acessíveis perto de hospitais, clínicas, unidades de saúde e terminais.
- Estimular veículos adaptados, com prioridade de cadastro, redução de taxas ou outros benefícios.
- Promover capacitação de motoristas em parceria com operadores e entidades de pessoas com deficiência.
- Ouvir os usuários, por meio de conselhos municipais da pessoa idosa e da pessoa com deficiência.
Dicas para idosos, pessoas com mobilidade reduzida e suas famílias
- Se possível, agende a corrida com antecedência para compromissos com horário marcado.
- Use o chat do aplicativo para avisar o motorista sobre a necessidade de ajuda ou sobre a cadeira de rodas.
- Escolha um ponto de embarque acessível, mesmo que fique alguns metros adiante.
- Familiares podem pedir a corrida pelo próprio celular e acompanhar o trajeto em tempo real.
- Confira placa, modelo e foto do motorista antes de embarcar, como em qualquer corrida.
- Avalie o atendimento após a viagem: é assim que bons motoristas são reconhecidos.
Perguntas frequentes
Os aplicativos de transporte são obrigados a ter carros adaptados?
Não há cota federal específica para aplicativos, como existe para os táxis (10% da frota, pela Lei Brasileira de Inclusão). Cada município pode incluir exigências ou incentivos na regulamentação local.
O motorista pode cobrar a mais para levar uma cadeira de rodas?
No táxi, a Lei Brasileira de Inclusão proíbe cobrança diferenciada para pessoas com deficiência. No aplicativo, o valor segue as regras da plataforma, e cobranças extras indevidas devem ser denunciadas a ela.
Um familiar pode pedir a corrida para um idoso?
Sim. Muitos aplicativos permitem pedir a corrida para outra pessoa e acompanhar a viagem em tempo real.
Como saber se o carro comporta uma cadeira de rodas?
Use o chat para perguntar ao motorista antes da chegada ou escolha uma categoria com veículos maiores ou adaptados, quando a plataforma oferecer.
Artigo da Mind Mobilidade Urbana, vertical de mobilidade da Mind Group, empresa que desenvolve sistemas, aplicativos e soluções com inteligência artificial. A Mind Mobilidade Urbana desenvolve aplicativos de transporte e entregas com marca própria para empreendedores, cooperativas e empresas de táxi. Texto de João Paulo, gestor de projetos.