Nova CNH: entenda as 10 etapas da formação de condutores que podem mudar tudo no processo de habilitação

O novo modelo de formação de condutores proposto pela Senatran traz 10 etapas que prometem mais flexibilidade e foco no desempenho. No entanto, segundo especialistas, a proposta é temerária.


Por Mariana Czerwonka
Nova CNH processo
O tema segue mobilizando o setor e a sociedade. Foto: Divulgação Detran/CE

O processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e da Autorização para Conduzir Ciclomotor (ACC) pode mudar. A minuta da nova regulamentação da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) propõe um modelo de dez etapas sucessivas, que pretende tornar a formação de condutores mais flexível.

A proposta ficou em consulta pública entre 2 de outubro e 2 de novembro de 2025, período em que especialistas, instrutores, entidades representativas e cidadãos puderam enviar contribuições. Agora, o texto aguarda a análise técnica dos resultados antes de seguir para deliberação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran).

Apesar de ser apresentada como uma modernização do sistema, a proposta tem gerado forte reação entre especialistas em segurança viária.

O Portal do Trânsito recebeu dezenas de manifestações contrárias à flexibilização do processo, especialmente à ideia de tornar as aulas práticas optativas — ponto considerado por muitos como um retrocesso na formação de novos condutores.

O especialista em trânsito Celso Mariano, diretor da Tecnodata Educacional, avalia que a intenção de modernizar o processo é positiva, mas precisa ter pontos que garantam a qualidade da formação.

“A tecnologia e a autonomia podem contribuir muito, mas não substituem o aprendizado guiado. A formação de condutores não é apenas um requisito burocrático; é um processo educativo que ensina responsabilidade, percepção de risco e convivência segura no trânsito”, ressalta Mariano.

Dez etapas para conquistar a nova CNH

O novo modelo estrutura o processo de formação em dez fases consecutivas, com foco na autonomia e no desempenho do candidato.

1. Abertura do processo de formação

O primeiro passo é a solicitação de abertura junto à Senatran, por meio digital, ou ao Detran do estado de residência. O sistema verificará requisitos como idade mínima, imputabilidade penal e inscrição no CPF. O candidato também definirá a categoria pretendida (A, B ou ACC) e se deseja a observação de atividade remunerada.

2. Curso teórico com novas modalidades de ensino

O curso teórico, que comprova a capacidade de leitura e escrita, poderá ser feito de forma presencial, híbrida ou totalmente online (EaD), inclusive de maneira gratuita pelo portal da Senatran. A flexibilidade é um dos pilares da proposta: o candidato poderá estudar no seu próprio ritmo, precisando atingir 70% de aproveitamento para passar.

“O curso teórico é a base de toda a formação de um condutor seguro. Reduzir a rigidez ou a responsabilidade pelo conteúdo em nome de formatos mais flexíveis pode comprometer a qualidade da aprendizagem e, consequentemente, a segurança no trânsito. O EaD pode ser uma ferramenta útil, mas jamais pode substituir a supervisão pedagógica rigorosa que apenas as autoescolas capacitadas conseguem oferecer”, afirma Celso Mariano.

3. Coleta de dados biométricos

Nesta etapa, o candidato realizará a coleta da imagem facial, assinatura e impressões digitais, que servirão para autenticar sua identidade nas etapas seguintes. A partir desse momento, o Detran poderá cobrar as taxas referentes ao processo.

4 e 5. Exames médicos e psicológicos

Profissionais credenciados, escolhidos livremente pelo candidato, realizarão os exames de aptidão física e mental e a avaliação psicológica. O resultado poderá classificá-lo como apto, apto com restrições ou inapto — com direito a recurso em caso de discordância.

6. Exame teórico

Será possível aplicar a prova escrita, de pelo menos 30 questões de múltipla escolha, presencialmente, de forma híbrida ou remota, mediante monitoramento eletrônico. Para ser aprovado, o candidato precisa acertar 70% das questões. A aprovação nesta etapa libera duas opções: solicitar a Licença de Aprendizagem Veicular (LAV) para realizar aulas práticas ou agendar diretamente o exame de direção veicular.

Fase 7: Aulas práticas se tornam optativas

A principal mudança do novo modelo está na fase 7, que transforma as aulas práticas de direção veicular em atividade opcional.

O candidato poderá escolher fazer as aulas com um instrutor credenciado — utilizando um veículo do profissional ou o próprio — ou decidir ir direto ao exame prático, sem instrução prévia obrigatória.

Para defensores da proposta, a medida democratiza o acesso à habilitação e reduz custos. Já para críticos, o risco é evidente: “a formação prática é o momento mais importante do processo e garante que o novo condutor desenvolva habilidades de direção defensiva e segurança viária”, afirmam instrutores e representantes de autoescolas que se manifestaram ao Portal do Trânsito.

Celso Mariano destaca que a prática supervisionada é insubstituível.

“A experiência prática orientada por um profissional é o que diferencia um motorista preparado de alguém que apenas sabe ligar o carro. Dirigir é um ato complexo, que exige coordenação, controle emocional e tomada de decisão rápida. Isso não se aprende sozinho, muito menos por tentativa e erro nas ruas”, adverte o especialista.

Exame prático e emissão da CNH

Na fase 8, o candidato realiza o exame de direção veicular, que será possível ter acompanhamento por tecnologia de monitoramento eletrônico (imagem, áudio e georreferenciamento). A pontuação inicial é de 100 pontos, com descontos conforme o tipo de falta cometida. Caso reprove, o candidato poderá refazer a prova sem limitação de tentativas — inclusive no mesmo dia, dependendo da disponibilidade do órgão.

As fases 9 e 10 tratam da expedição da Permissão para Dirigir (PPD), com validade de um ano, e da emissão da CNH definitiva, após o período probatório sem infrações graves, gravíssimas ou reincidência em médias.

Debate continua aberto

A Senatran defende que o novo modelo diminui os custos do processo, já especialistas em trânsito, alertam que o excesso de flexibilização pode comprometer a segurança nas vias e enfraquecer o caráter educativo da habilitação.

Celso Mariano reforça que a modernização do processo é bem-vinda, mas não pode abrir mão da essência da formação.

“Formar condutores não é apenas emitir documentos. É preparar pessoas para compartilhar o espaço público com responsabilidade. Precisamos de inovação, sim, mas sem perder de vista que o trânsito brasileiro já é violento demais. Reduzir exigências pode significar aumentar riscos”, conclui.

A expectativa é que o Contran analise a minuta ainda em 2025, após a consolidação das contribuições da consulta pública. Até lá, o tema seguirá sendo debatido amplamente — tanto por órgãos gestores quanto pela sociedade —, pois o futuro da formação de condutores no Brasil envolve uma questão essencial: como equilibrar inovação e segurança no trânsito.

Veja tabela com as etapas em análise na minuta da nova CNH

EtapaDescriçãoObjetivo / ResultadoObservações
1Abertura do processo de formaçãoInscrição junto à Senatran ou Detran, verificação de requisitos (idade, CPF, imputabilidade penal) e escolha da categoria (A, B ou ACC)Marca o início oficial da jornada; inclusão de observação de atividade remunerada opcional
2Curso teóricoFormação inicial para avaliar leitura, escrita e conhecimentos de trânsitoModalidades: presencial, híbrido ou EaD (gratuito via Senatran); aprovação com 70% de aproveitamento
3Coleta de dados biométricosRegistro de imagem facial, assinatura e impressões digitaisNecessária para identificação nos exames subsequentes; início da cobrança de taxas
4Exame médicoAvaliação da aptidão física geralInclui visão, cardiorrespiratória, locomotor e neurológica
5Avaliação psicológicaAvaliação da aptidão mental e comportamentalClassificação: apto, apto com restrições ou inapto; possibilidade de recurso
6Exame teóricoProva objetiva de múltipla escolha sobre o conteúdo do curso teóricoMínimo 30 questões; aprovação com 70% de acertos; libera solicitação da LAV ou agendamento direto do exame prático
7Aulas práticas de direção veicular (optativa)Treinamento prático com veículo e instrutor credenciadoFlexibilidade: escolha de carga horária, tipo de veículo e instrutor; etapa optativa
8Exame de direção veicularAvaliação prática das habilidades de conduçãoPode usar monitoramento eletrônico; pontuação inicial 100 pontos, descontos por faltas; reprovação permite novas tentativas
9Expedição da PPDPermissão para dirigir válida por 1 anoCondutor apto a dirigir sem acompanhante; restrições para infrações graves ou reincidência
10Expedição da CNH ou ACCEmissão do documento final que habilita a condução de veículos ou ciclomotoresConclui o processo de formação; CNH definitiva após período probatório sem infrações graves
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