Quem reprova no exame prático do Detran será um mau motorista?


Por Pauline Machado

Para especialistas, reprovar no exame prático do Detran não define o condutor. É preciso, no entanto, atualizar o processo de ensino e aprendizagem para que a culpa não continue sendo injustamente colocada nos alunos, nos instrutores e nos CFCs.

O exame prático do Detran para tirar a primeira habilitação é regulamentado pela Resolução 789/20 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). O candidato é avaliado pelo examinador de trânsito do Detran de seu estado, com o objetivo de verificar a perícia, conhecimento da legislação quanto ao respeito à sinalização e normas de circulação, bem como o domínio do candidato em realizar manobras e noção de espaço. Se aprovado, o candidato é liberado para conduzir um veículo em vias públicas sem que seja necessário um instrutor ao lado.

Por todos esses motivos, muitos alunos que pretendem tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) chegam ao local da prova prática nervosos, ansiosos e inseguros. No entanto, apesar de natural e compreensível, tais comportamentos podem interferir no resultado do exame.

Mas, afinal, se o candidato reprovar no exame prático para primeira habilitação quer dizer que ele será um mau motorista?

Para responder a essa e outras perguntas, conversamos com duas especialistas no assunto. Márcia Pontes, especialista em Inovação Pedagógica para o Aprendizado da Direção Veicular e Anna Prediger, instrutora e coordenadora em cursos de formação de profissionais, como instrutores, no Centec – Centro de Ensino Técnico de Trânsito.

Acompanhe!

Portal do Trânsito – Qual é a importância da prova prática para tirar a Carteira Nacional de Habilitação?

Márcia Pontes – A prova prática é extremamente importante, pois é o momento em que o futuro condutor  é avaliado.

A avaliação é um filtro que faz parte de tudo na vida: somos avaliados no trabalho, na vida acadêmica e também para dirigir.

Se o candidato, por qualquer motivo, comete infrações durante o exame, ele deve retornar às aulas e refazer o teste até demonstrar que sabe executar os fundamentos básicos para conduzir sem risco potencial de acidentes.

Anna Prediger- É importante justamente para ver essa perícia e conhecimento do candidato, para medir se o mesmo está realmente preparado para assumir essa responsabilidade.

Portal do Trânsito – De modo geral, quais são os maiores desafios para quem vai fazer o exame prático?

Márcia Pontes – Um dos maiores desafios de quem vai fazer o exame prático é sobreviver a um sistema de formação de condutores que não forma na maior parte e cobra caro demais pelo que entrega se considerarmos as ocorrências de acidentes com  recém-habilitados.

Muitos,  quando vão dirigir pela primeira vez com a CNH, sequer conseguem guardar o carro na garagem ou deixam algum pedaço dele no portão. Esse é um reflexo da falta de conteúdos de manobras com o veículo durante as aulas.

Isso dá ao futuro condutor a representação de que dirigir é acelerar em linha reta. A questão emocional daquele que não se prepara para lidar com as emoções para dirigir é outro fator relevante, mas não se pode culpar o emocional por tudo.

Anna Prediger- Certamente há muita pressão para o candidato. Essa pressão vem de vários lugares, como trabalho, amigos, familiares, o próprio candidato que não quer e não pode gastar com retestes, e claro, a pressão de ser avaliado por alguém desconhecido.

Portal do Trânsito – Qual é o índice de reprovação para os candidatos que fazem a prova pela primeira vez?

Márcia Pontes – As estatísticas variam de estado para estado e em alguns chega-se a alarmantes percentuais de até 70% ou mais de reprovação no primeiro exame. Tem sido comum que certos candidatos reprovem  entre 3 a 8 vezes e até mais. Muitos encerram e abrem novo processo de habilitação até conseguirem se habilitar.

Anna Prediger- No Paraná, por exemplo, a reprovação costuma acontecer em metade de todos os exames realizados.

Portal do Trânsito – Quais são os principais motivos de reprovação no exame prático do Detran?

Márcia Pontes – De modo geral, o que mais reprova os candidatos no exame prático são: a baliza, avançar sinal de parada obrigatória (placa R1), não sinalizar com antecedência a manobra pretendida ou sinalizá-la incorretamente, perder o controle do veículo em movimento. Além disso, manobras de conversões abertas, interrupção do funcionamento do motor e utilização do pedal da embreagem antes do freio nas manobras.

Anna Prediger- Acredito que a baliza seja a etapa onde há o maior índice de reprovação, pois existe um nervosismo maior nesta parte específica do exame. O aluno sabe que ela pode ser eliminatória a depender da situação. No caso da rua, falta de sinalização, não respeitar a sinalização como parada obrigatória e conversões realizadas de maneira incorreta.

Portal do Trânsito – Não conseguir passar de primeira na prova do Detran quer dizer que a pessoa dirige mal?

Márcia Pontes – Não conseguir passar de primeira na prova do Detran apenas significa que o aluno ainda não aprendeu e não domina fundamentos básicos para dirigir. Compreendendo onde errou ele pode consertar nas aulas e demonstrar ao examinador que aprendeu.

Romantiza-se muito o fato de passar de primeira na prova prática, mas não é isso que vai dizer que a pessoa será um bom condutor ou não.  Só dirige mal aquele que não busca aprender o que a autoescola, por algum motivo, não ensinou, o que vai para o trânsito tentar dirigir por tentativa e erro, sem treinar os movimentos e a coordenação motora.  Vale ressaltar que a CNH não forma bom motorista, mas sim, o conhecimento para praticar sem treinar os erros.

Anna Prediger- Com certeza,não! Como falado anteriormente, existem outras considerações a serem feitas na hora do exame. Eu passei por este momento recentemente para alterar para a categoria D, e foi por pouco que não reprovei. O nervosismo, a tensão e cobrança interna fizeram com que esquecesse de coisas bastante corriqueiras, até mesmo para quem dirige todos os dias.

Portal do Trânsito – Quais são os fatores que influenciam no resultado da prova prática?

Márcia Pontes – São três os principais fatores: o método de ensino defasado, o emocional do aluno e as aulas passivas demais.

O sistema não consegue formar condutores e em pleno século 21 ainda forma instrutores a ensinarem a “tremidinha do volante”, a buscar o ponto da embreagem apoiando o calcanhar no assoalho do carro como se o aluno fosse dirigir um kart.

O excesso de pontos de referência para a baliza confundem o candidato com contagem de voltinhas e pontos coloridos em diferentes partes do veículo em vez de ensinar a relação entre volante, roda e frente/traseira do carro.

Muitas vezes se cria o medo de dirigir no próprio ambiente de aprendizagem que joga as pessoas no trânsito para fazer muitas coisas sem noção básica já na primeira aula. Como, por exemplo, sem conhecimento prévio de cada pedal, para que serve, suas combinações, e, inclusive, a frenagem de emergência e exercícios para desenvolver a noção de espaço que todo recém-habilitado deveria dominar previamente.

Do mesmo modo que não se ensina a nadar jogando alguém na piscina e não se forma cirurgiões abrindo o paciente sem conhecimento, também não se deveria ensinar a dirigir dessa forma.

Enquanto o emocional desestabiliza e faz errar até o que o aluno já sabe, não se aplica exercícios rápidos para eliminar os erros básicos como o ponto de embreagem no plano e na ladeira, além de exercícios de volante para eliminar conversões e curvas abertas ou fechadas demais. É justamente o que mais reprova no exame prático.

O mesmo sistema que ainda não forma condutores também não consegue ensinar os instrutores a ensinar alunos idosos, que sofrem de depressão, Síndrome do Pânico e dislexia, por exemplo.

Anna Prediger- Resumo em manter a concentração no que está fazendo e no que for solicitado.


Leia também:

Detran/PR estuda mudanças no exame prático de direção 

Portal do Trânsito – O que faz de uma pessoa um bom condutor?

Márcia Pontes – Entender que a CNH não forma bom condutor. Nenhum condutor sabe tudo. No trânsito aprendemos o tempo todo e ter essa humildade é o primeiro passo para se tornar um bom motorista.

O condutor, não pode pensar e agir como se soubesse tudo sempre culpando os outros. Além disso, acreditar demais na habilidade que tem ou pensa que tem. No trânsito se aprende todo dia e o principal para se tornar um bom motorista é buscar o conhecimento sobre como executar corretamente os fundamentos,  repetir devagar e corretamente até automatizar, ser gentil, educado e praticar a empatia. O ato de dirigir é uma soma de habilidades que precisam ser desenvolvidas e treinadas.

Anna Prediger-  Certamente a condução preventiva.

Além do respeito às regras de trânsito, atenção e concentração total neste ato e consciência de que o veículo é apenas um meio de nos locomover. Devemos fazer isso de forma a não tornar esse, que é um sonho, em pesadelo, para nós e para os demais.

Portal do Trânsito – Que dicas você pode deixar para que os alunos possam fazer uma boa prova prática?

Márcia Pontes:

Anna Prediger:

Portal do Trânsito – Para finalizar, se considerar importante acrescente outras informações que não tenham sido abordadas durante a entrevista.

Márcia Pontes – Muitos recém-habilitados saem do processo de habilitação sem saber o básico do básico, que é a frenagem de emergência. Já na primeira aula o aprendiz  vai para o trânsito fazendo um monte de coisas que não domina, ao mesmo tempo como se o mais importante fosse acelerar sempre em frente.  Pouco se aprende sobre manobras para o dia a dia e o pouco que sabem é com foco na decoreba que logo “esquecem”.

Muitos, quando dirigem pela primeira vez, sequer conseguem guardar o carro na garagem. E o pior, são empurrados para o trânsito em busca de prática, sem dominar o conhecimento básico. Dessa forma, potencializa-se o risco de acidentes envolvendo recém-habilitados.

Vale reforçar que estamos em pleno século 21. Com veículos cada vez mais modernos e silenciosos, mas a prática da “tremidinha” de volante para buscar o ponto da embreagem ainda prevalece. Assim como apoiar o calcanhar da embreagem no assoalho do carro para buscar o ponto e as balizas decoradas com tantos pontos de referência que obrigam o aluno a fazer muitas operações mentais para concluir uma manobra que nem quem ensina faz no dia a dia porque não funciona.

O núcleo e a questão mais importante da formação de condutores e de instrutores no país está no aspecto pedagógico. Ou se atualiza urgentemente o modo de ensinar e de aprender a dirigir com o envolvimento de todas as partes do sistema ou continuaremos, injustamente, colocando a culpa só nos alunos e nos instrutores de trânsito.

Sair da versão mobile