Infraestrutura pode estar pesando mais que imprudência nas mortes em rodovias

Anuário da PRF mostra que pistas simples concentram muito mais mortes nas BRs e amplia debate sobre segurança viária além da conduta do motorista.


Por Mariana Czerwonka
Signpost of sharp curve on road of Sao Paulo, Brazil
Reduzir mortes no trânsito depende de um conjunto de fatores e não apenas da conduta individual dos motoristas. Foto: AdobeStock

Mesmo com recorde de fiscalização e milhões de autuações por excesso de velocidade, o Brasil segue convivendo com um cenário alarmante nas rodovias federais. E os dados do novo Anuário da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ajudam a ampliar um debate importante: o erro humano continua existindo, mas a infraestrutura muitas vezes define o tamanho da tragédia. Em um sistema viário que ainda não é tolerante ao erro, falhas como distração, reação tardia ou ultrapassagens indevidas frequentemente terminam em colisões graves e mortes.

Os números reforçam essa percepção. Em 2025, as pistas simples registraram 4.143 mortes, enquanto as pistas duplas concentraram 1.603 óbitos. A diferença chama atenção porque evidencia que o problema vai além da imprudência individual e envolve também as condições das rodovias brasileiras.

Embora comportamento de risco, velocidade excessiva e distração continuem entre os principais fatores das ocorrências, especialistas defendem que o ambiente viário influencia diretamente na gravidade dos sinistros.

Rodovias que não “perdoam” falhas

A própria PRF associa a alta mortalidade das pistas simples às colisões frontais, um dos tipos mais violentos de sinistro no trânsito rodoviário. Sem separação física entre os sentidos opostos, qualquer erro pode ter consequências devastadoras.

Na prática, isso significa que uma distração momentânea, uma ultrapassagem malsucedida ou até uma reação tardia acabam tendo potencial muito maior de provocar mortes quando acontecem em rodovias sem duplicação.

Para Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, os números ajudam a demonstrar que segurança viária não depende apenas do comportamento individual.

“Quando analisamos os dados das pistas simples, percebemos claramente que o erro humano continua existindo, mas a infraestrutura muitas vezes define o tamanho da tragédia. Rodovias brasileiras ainda não são tolerantes ao erro”, afirma.

Conforme ele, países que conseguiram reduzir de forma consistente as mortes no trânsito passaram a investir em conceitos de “Sistema Seguro”, que consideram o erro humano inevitável e buscam impedir que ele resulte em fatalidades.

Fiscalização cresce, mas redução das mortes segue tímida

O anuário mostra que a fiscalização da PRF permaneceu intensa em 2025. Foram mais de 10 milhões de pessoas fiscalizadas e quase 10 milhões de veículos abordados em rodovias federais. O excesso de velocidade, sozinho, gerou mais de 7,2 milhões de autuações.

Ainda assim, a redução nas mortes foi pequena. Em 2024, as rodovias federais registraram 6.160 mortes. Em 2025, o número caiu para 6.043. Os sinistros também tiveram leve redução, passando de 73.156 para 72.529.

Os dados levantam uma discussão importante: apenas ampliar fiscalização e aumentar multas é suficiente para reduzir a violência no trânsito brasileiro?

Mariano, por exemplo, defende que punição e fiscalização continuam sendo fundamentais, mas alerta que isso não substitui investimentos estruturais em engenharia viária, planejamento e infraestrutura segura.

Velocidade e infraestrutura formam combinação perigosa

O levantamento da PRF também mostra como velocidade e infraestrutura acabam se relacionando diretamente.

Além dos milhões de autuações por excesso de velocidade, a PRF registrou quase 195 mil ultrapassagens em faixa contínua e mais de 10 mil saídas de pista ao longo de 2025.

Em rodovias simples, sem barreiras físicas ou áreas adequadas de recuperação, velocidades incompatíveis tornam qualquer falha muito mais grave. A chance de colisões frontais aumenta, assim como o risco de perda de controle do veículo e de impactos fatais.

Outro dado que chama atenção é o número de colisões traseiras: foram 14.360 casos em 2025, o tipo de sinistro mais frequente nas BRs federais.

O cenário ajuda a demonstrar que muitas rodovias operam atualmente sob forte pressão de fluxo, especialmente em regiões urbanizadas e corredores logísticos.

BR-101 e BR-116 seguem concentrando ocorrências

As rodovias com maior número de sinistros foram justamente algumas das mais movimentadas do país. A BR-101 registrou 13.014 ocorrências no ano, enquanto a BR-116 teve 11.021 casos.

As duas atravessam grandes centros urbanos e importantes corredores de transporte de cargas, convivendo diariamente com trânsito intenso, mistura de veículos pesados e leves, acessos urbanos e longos deslocamentos.

Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná lideraram o número de sinistros registrados pela PRF. Juntos, os três estados somaram 1.792 mortes em rodovias federais.

No caso do Paraná, corredores como as BRs 277, 376 e 116 frequentemente entram no debate sobre segurança viária por reunirem grande fluxo de caminhões, turismo e trechos de geometria complexa.

Debate sobre segurança viária vai além da punição

Os números do Anuário da PRF reforçam um entendimento cada vez mais presente entre especialistas: reduzir mortes no trânsito depende de um conjunto de fatores e não apenas da conduta individual dos motoristas.

Duplicação de rodovias, melhoria da sinalização, áreas de escape, controle inteligente de velocidade e projetos viários mais seguros aparecem entre as medidas apontadas como fundamentais para reduzir a letalidade nas BRs brasileiras.

“Mais do que cumprir regras, o trânsito exige compreensão de risco e responsabilidade coletiva”, afirma Celso Mariano.

De acordo com ele, o Brasil ainda precisa avançar na transformação dos dados estatísticos em políticas permanentes de prevenção e infraestrutura.

Clique aqui e acesse o Anuário completo da PRF

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