O maior risco nas estradas não é a imprudência, mas o cansaço que ninguém vê

Neste artigo, Rony Neri, diretor da Platform Science, explica como a video-telemetria ajuda a identificar sinais de fadiga em tempo real.


Por Artigo
fadiga caminhão
Foto: adriaticphoto para Depositphotos

Quando se fala em acidentes nas estradas brasileiras, a explicação costuma ser quase automática: imprudência. Excesso de velocidade, uso do celular ao volante, ultrapassagens perigosas ou desrespeito à sinalização aparecem, frequentemente, como os principais responsáveis pelas tragédias que ocorrem diariamente no país.

Embora esses fatores sejam, de fato, relevantes, concentrar todo o debate apenas no comportamento do motorista nos impede de enxergar um dos maiores riscos presentes nas operações de transporte: a fadiga.

O cansaço ao volante ainda é um problema silencioso, subestimado e, muitas vezes, invisível. Diferentemente de uma infração de trânsito, ele nem sempre deixa evidências claras. Mas, seus efeitos são conhecidos como por exemplo redução da atenção, aumento do tempo de reação, lapsos de memória, dificuldades na tomada de decisão e, nos casos mais graves, episódios de sono involuntário. 

Em uma operação logística cada vez mais pressionada por prazos curtos, crescimento do comércio eletrônico, congestionamentos e longas jornadas, ignorar a fadiga deixou de ser apenas uma falha operacional.

Tornou-se um risco estratégico.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a privação de sono compromete capacidades cognitivas de forma semelhante ao consumo de álcool. Em outras palavras, um motorista extremamente cansado pode apresentar níveis de atenção comparáveis aos de alguém que não deveria estar dirigindo.

Ainda assim, a gestão da fadiga permanece fora da prioridade de muitas empresas. Isso acontece porque, historicamente, a segurança viária foi construída sob uma lógica reativa de agir após o acidente, investigar as causas e corrigir processos posteriormente. Hoje, a tecnologia permite uma mudança de paradigma.

Com ferramentas de vídeo-telemetria, análise comportamental e monitoramento em tempo real, já é possível identificar padrões que indicam risco elevado de fadiga antes que um incidente aconteça. Cruzamentos com contextos adicionais como tempo contínuo de direção, horários recorrentes de sonolência, oscilações no padrão de condução, frenagens bruscas e redução na atenção podem revelar situações críticas que exigem intervenção imediata.

Mas tecnologia, sozinha, não resolve o problema.

É necessário que empresas, gestores de frota e embarcadores incorporem a fadiga como uma variável central da gestão operacional. Isso significa revisar escalas, planejar jornadas de forma mais inteligente, criar políticas efetivas de descanso e utilizar dados para apoiar decisões, e não apenas para fiscalizar motoristas.

A discussão sobre segurança no trânsito precisa evoluir. Acidentes não são resultado exclusivo de escolhas individuais equivocadas. Muitas vezes, eles refletem falhas de planejamento, pressão excessiva por produtividade e ausência de mecanismos capazes de antecipar riscos.

O maior perigo nas estradas brasileiras pode não ser a imprudência que todos enxergam, mas o cansaço que ninguém vê. E se já somos capazes de identificar esse risco antes que ele provoque uma tragédia, deixar de agir passa a ser uma escolha, e não uma limitação técnica.

*Rony Neri é diretor-executivo da Platform Science na América Latina. Formado em Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Londrina, possui especialização em Gestão de Negócios e Liderança pelo IESB/FIEP, além de MBAs em Gestão Comercial pela Fundação Getúlio Vargas e em Executive Business Management pela Swiss School of Business and Management. O executivo coleciona passagens por empresas de tecnologia como Unilab, Senior Sistemas e Guenka Software.

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