Quais são as infrações mais perigosas do trânsito brasileiro? Especialistas apontam as condutas de maior risco
Nem sempre a infração mais registrada é a que representa o maior perigo. Levantamento do Portal do Trânsito reúne especialistas para apontar os comportamentos que mais colocam vidas em risco nas vias brasileiras.

Excesso de velocidade, dirigir sob efeito de álcool, usar o celular ao volante, avançar o sinal vermelho e forçar ultrapassagens. Embora algumas dessas infrações apareçam com frequência nas estatísticas de fiscalização e outras sejam menos comuns, todas têm uma característica em comum elas são perigosas e aumentam significativamente o risco de mortes e lesões graves no trânsito.
Por isso, o Portal do Trânsito elaborou um ranking das infrações mais perigosas do trânsito brasileiro. Diferentemente do levantamento anterior, que mostrou as infrações mais registradas no país entre janeiro e maio de 2026, esta classificação considera critérios técnicos relacionados à segurança viária.
O ranking leva em conta o potencial de provocar sinistros graves, a gravidade prevista no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o impacto sobre usuários vulneráveis e evidências consolidadas em estudos de segurança viária e direção defensiva.
Ranking das infrações mais perigosas
| Posição | Infração | Por que representa alto risco? |
|---|---|---|
| 1º | Dirigir sob influência de álcool ou drogas | Compromete reflexos, percepção, julgamento e capacidade de reação. |
| 2º | Excesso de velocidade | Aumenta tanto a probabilidade de um sinistro quanto sua gravidade. |
| 3º | Avançar o sinal vermelho | Favorece colisões transversais, uma das mais violentas nas áreas urbanas. |
| 4º | Usar o celular ao volante | Provoca distração visual, manual e cognitiva ao mesmo tempo. |
| 5º | Forçar ultrapassagem | Está entre as principais causas de colisões frontais em rodovias. |
| 6º | Não usar o cinto de segurança | Multiplica o risco de morte e lesões graves em caso de colisão. |
| 7º | Participar de rachas e realizar manobras perigosas | Combina alta velocidade com perda deliberada de controle do veículo. |
| 8º | Não reduzir a velocidade próximo a pedestres, ciclistas, escolas, hospitais e obras | Coloca em risco usuários mais vulneráveis da via. |
| 9º | Deixar de dar preferência aos pedestres | Está diretamente associado aos atropelamentos. |
| 10º | Transitar na contramão | Favorece colisões frontais, entre as mais letais do trânsito. |
Muito além da quantidade de multas
Conforme Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, existe uma diferença importante entre as infrações mais registradas e aquelas que efetivamente representam maior ameaça à vida. “Existe uma diferença entre uma infração administrativa e uma infração que coloca vidas em risco imediatamente. Nem toda conduta irregular provoca um sinistro, mas praticamente todos os sinistros graves têm relação com comportamentos como excesso de velocidade, álcool, distração, ultrapassagens indevidas ou desrespeito à preferência. É por isso que precisamos olhar para além da multa”, explica.
De acordo com Mariano, o trânsito ainda é visto por muitos motoristas sob a lógica da fiscalização, quando o foco deveria estar na prevenção.
“O motorista costuma perguntar: ‘Tem radar nessa via?’ ou ‘Tem fiscalização aqui?’. A pergunta correta deveria ser: ‘O que pode acontecer se eu fizer isso?’. Quando a percepção de risco passa a orientar as decisões, o comportamento muda naturalmente. É essa mudança de mentalidade que salva vidas”, alerta.
Velocidade continua sendo um dos maiores desafios
Embora ocupe a segunda posição no ranking de risco, o excesso de velocidade merece uma atenção especial porque reúne duas características preocupantes: é extremamente frequente e potencializa a gravidade dos sinistros.
Levantamento publicado anteriormente pelo Portal do Trânsito mostrou que, apenas entre janeiro e maio de 2026, as duas faixas mais comuns de excesso de velocidade somaram mais de 19 milhões de notificações de penalidade em todo o país.
Segundo o especialista, o problema não está apenas na possibilidade de perder o controle do veículo. Quanto maior a velocidade, menor é o tempo disponível para reagir diante de um imprevisto, maior é a distância necessária para a frenagem e maior é a energia liberada em uma colisão.
O celular ao volante também preocupa
Outro comportamento que aparece entre os mais perigosos é o uso do telefone celular durante a condução. Mesmo uma rápida consulta à tela pode fazer com que o motorista percorra dezenas de metros sem observar adequadamente a via. Esse tipo de distração favorece colisões traseiras, atropelamentos, saídas de pista e outros sinistros que poderiam ser evitados.
Além disso, o celular reúne três formas de distração simultaneamente: visual, manual e cognitiva, tornando essa uma das infrações mais preocupantes da atualidade.
Educação para o trânsito vai além de decorar regras
Na avaliação de Celso Mariano, esse cenário também serve de reflexão sobre a forma como o Brasil prepara seus futuros condutores.
“Desenvolver percepção de risco exige aprendizado, prática e reflexão. Não é algo que surge espontaneamente depois que a pessoa recebe a CNH. Quanto melhor for o processo de formação, maiores são as chances de o motorista compreender que as normas de trânsito não existem para dificultar sua vida, mas para proteger a dele e a dos outros”, diz.
Para o especialista, a discussão ganha ainda mais importância diante das mudanças recentes no processo de habilitação. “Sempre que reduzimos oportunidades de aprendizagem, precisamos nos perguntar se estamos formando condutores capazes de reconhecer situações de risco antes que elas se transformem em sinistros. A verdadeira eficiência de um sistema de trânsito não se mede pela quantidade de multas aplicadas, mas pelo número de vidas preservadas”, reflete.
O objetivo nunca foi arrecadar
Mais do que estabelecer multas e penalidades, o Código de Trânsito Brasileiro busca reduzir comportamentos que aumentam a probabilidade de mortes e lesões.
Conhecer essas infrações é importante, mas compreender por que elas existem é ainda mais essencial. Quando o condutor respeita os limites de velocidade, evita distrações, dirige sem consumir álcool e adota uma postura defensiva, ele não está apenas evitando multas. Está contribuindo para um trânsito mais seguro para todos.
