18 de agosto de 2026

“Luz de Obrigado” propõe novo sinal entre motoristas para estimular gentileza no trânsito

Iniciativa prevê uma luz específica para agradecer, pedir desculpas ou demonstrar cortesia ao volante; proposta recebeu apoio conceitual da Abramet e já inspirou um projeto de lei no Congresso


Por Mariana Czerwonka Publicado 18/08/2026 às 08h15
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Luz de obrigado
Trânsito também é comunicação e relacionamento entre pessoas. Foto: OscarMartin para Depositphotos

Buzina, farol alto, setas, luz de freio e pisca-alerta fazem parte da comunicação cotidiana no trânsito, cada um com funções próprias. Mas os veículos não possuem um sinal específico para uma situação muito mais simples: quando um motorista quer agradecer a outro por uma gentileza, reconhecer que recebeu passagem ou até demonstrar que percebeu uma atitude de cooperação.

É a partir dessa ideia que surgiu a Luz de Obrigado, iniciativa idealizada por Marcos Winter e Thiago Paschoa que propõe a criação de uma sinalização luminosa adicional destinada à comunicação positiva entre condutores.

Mais do que acrescentar outra luz ao automóvel, o projeto parte de uma questão comportamental: se boa parte das interações no trânsito acontece em poucos segundos, seria possível oferecer aos motoristas uma forma simples e padronizada de demonstrar cortesia sem recorrer à buzina, ao farol alto ou a outros sinais que possuem finalidades específicas?

A proposta recebeu uma moção de apoio da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) e também chegou ao campo legislativo. O Projeto de Lei 2729/2026, apresentado pelo deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM), propõe incluir no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) a possibilidade de utilização facultativa de uma sinalização luminosa auxiliar de cortesia.

Isso não significa, entretanto, que a Luz de Obrigado já esteja autorizada para utilização nos veículos. O PL ainda é uma proposta legislativa, e uma eventual implantação dependeria também de regulamentação e homologação.

Como funcionaria a Luz de Obrigado

O conceito desenvolvido pelos idealizadores prevê uma iluminação adicional integrada ao conjunto óptico do veículo, mas independente das luzes obrigatórias.

A proposta é deliberadamente simples: haveria um único acionamento associado à ideia de gentileza. A situação permitiria interpretar a intenção do motorista como um “obrigado”, “desculpa”, “pode passar” ou mesmo “eu vi você”.

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Modelos da “Luz de Obrigado” conforme seus idealizadores. Foto: Divulgação.

Em vez de criar diferentes comandos para diferentes mensagens, a intenção é estabelecer um gesto luminoso de cortesia que seja fácil de reconhecer.

O projeto prevê acionamento por botão dedicado ou comando de voz. Também estabelece como princípio que o recurso não interfira na luz de freio, nas setas, lanternas ou pisca-alerta nem prejudique a leitura das sinalizações essenciais à segurança.

Esse é um ponto particularmente importante. No trânsito, a comunicação precisa ser previsível. Acrescentar um novo elemento luminoso sem critérios poderia provocar justamente o problema que a iniciativa pretende evitar: dúvida sobre o que o outro motorista está tentando comunicar.

Por isso, o próprio projeto prevê etapas como estudo técnico e regulatório, prototipagem e ensaios de visibilidade e usabilidade antes de uma eventual implantação.

Por que falar em gentileza quando o assunto é segurança viária?

A discussão pode parecer apenas relacionada às boas maneiras, mas o comportamento humano tem participação importante na segurança do trânsito.

Na moção de apoio à Luz de Obrigado, a Abramet destaca que fatores comportamentais, emocionais e cognitivos fazem parte da dinâmica dos sinistros e chama atenção para os efeitos de estresse, impulsividade, intolerância e agressividade nas relações entre os usuários das vias.

Uma disputa por espaço, uma fechada, uma tentativa de mudança de faixa ou uma simples interpretação equivocada da atitude de outro motorista podem elevar rapidamente a tensão.

Nesse ambiente, a proposta da Luz de Obrigado é criar uma ferramenta para facilitar o movimento contrário: reconhecimento, cooperação e cortesia.

A Abramet relaciona a iniciativa ao conceito de nudge, utilizado nas ciências comportamentais para descrever pequenas intervenções no ambiente de decisão capazes de favorecer determinados comportamentos sem recorrer necessariamente à obrigação ou à punição.

A lógica aplicada ao projeto é que disponibilizar uma maneira simples de agradecer ou demonstrar consideração poderia facilitar esse tipo de comportamento.

Isso não permite afirmar, porém, que instalar uma nova luz nos veículos reduziria sinistros, conflitos ou agressividade. Esses possíveis efeitos precisariam ser estudados e demonstrados na prática.

Apoio da Abramet não significa homologação

A própria Abramet estabelece uma distinção importante em sua manifestação. A entidade reconhece o mérito conceitual, educativo e preventivo da iniciativa e considera que ela dialoga com aspectos relacionados ao comportamento humano, saúde mental e convivência segura no trânsito.

Ao mesmo tempo, deixa expressamente registrado que sua moção de apoio não constitui endosso comercial, validação regulatória, homologação do dispositivo ou recomendação de uma implementação prática específica.

Essa ressalva ajuda a colocar a Luz de Obrigado em seu estágio atual: trata-se de uma proposta que pretende avançar para desenvolvimento, testes e discussão regulatória, e não de um equipamento já aprovado para instalação nos automóveis.

Ideia já chegou ao Congresso

Desde maio de 2026, a discussão ganhou também uma dimensão legislativa. O PL 2729/2026 propõe alterar o CTB para disciplinar a utilização facultativa de uma “sinalização luminosa auxiliar de cortesia”, destinada a manifestações breves de agradecimento, comunicação preventiva ou urbanidade entre condutores.

O texto estabelece algumas salvaguardas. O dispositivo não poderia comprometer a segurança, provocar ofuscamento ou distração, substituir a sinalização obrigatória nem apresentar características que pudessem ser confundidas com luzes utilizadas por veículos de emergência, fiscalização ou segurança pública.

A proposta também define o recurso como facultativo, educativo e não prioritário.

Isso significa que uma eventual Luz de Obrigado não serviria para conceder preferência, autorizar uma manobra ou modificar qualquer regra de circulação.

Caso a proposta avance no Congresso e seja transformada em lei, caberia ainda ao Conselho Nacional de Trânsito (Contran) regulamentar aspectos como cores, padrões luminosos, intensidade, localização, instalação, tempo máximo de acionamento e requisitos para homologação e certificação.

O próprio PL estabelece que fabricação, importação, comercialização, instalação e utilização dependeriam de homologação prévia pelos órgãos competentes.

Portanto, a existência do projeto de lei não autoriza atualmente a instalação do dispositivo nos veículos nem representa uma mudança já realizada no CTB.

Tecnologia poderia ajudar a estudar o comportamento no trânsito

A proposta dos idealizadores vai além da comunicação luminosa. O projeto considera a possibilidade de integração do recurso aos sistemas multimídia dos veículos para produzir dados estatísticos anonimizados sobre sua utilização.

A ideia seria permitir, no futuro, a análise de padrões de uso e o cruzamento dessas informações com outros indicadores relacionados ao trânsito.

Novamente, trata-se de uma possibilidade prevista no projeto, e não de um resultado já existente. Seriam necessários desenvolvimento tecnológico, critérios para tratamento das informações e estudos capazes de verificar o que esses dados efetivamente poderiam revelar sobre comportamento e segurança viária.

Ainda assim, esse aspecto mostra que a iniciativa pretende transformar um gesto aparentemente simples — agradecer — também em objeto de observação sobre as relações entre motoristas.

Gentileza não pode substituir as regras de trânsito

Há uma diferença fundamental entre dirigir de maneira cooperativa e criar regras próprias de circulação.

Permitir a entrada de outro veículo quando isso pode ser feito com segurança, respeitar quem tem preferência e evitar disputas desnecessárias por espaço são comportamentos que favorecem uma convivência mais segura.

Por outro lado, um gesto de cortesia nunca deve ser interpretado como autorização para descumprir a sinalização ou executar uma manobra proibida.

Essa preocupação ganha ainda mais importância quando se discute uma eventual nova linguagem luminosa. Para funcionar, um sinal precisa ter significado suficientemente claro e não competir com mensagens que o motorista já precisa interpretar rapidamente.

É justamente por isso que qualquer eventual implantação da Luz de Obrigado dependeria de padronização e regulamentação.

A proposta, portanto, levanta uma discussão que ultrapassa a criação de mais um componente no automóvel. Trânsito também é comunicação e relacionamento entre pessoas.

Uma nova luz não substituiria fiscalização, engenharia viária, educação, formação dos condutores ou respeito às normas. Mas a iniciativa coloca uma questão pouco explorada no debate sobre segurança viária: se a tecnologia já é utilizada para alertar sobre riscos e orientar comportamentos, ela também poderia ajudar a estimular cooperação e reduzir a hostilidade entre quem divide as ruas?

Antes de saber se a Luz de Obrigado algum dia estará efetivamente nos veículos brasileiros, essa talvez seja a principal contribuição da proposta para o debate sobre um trânsito mais seguro.

Mariana Czerwonka
Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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