28 de outubro de 2026

Quase metade das mulheres leva mais de uma hora para chegar ao trabalho em algumas cidades brasileiras

Índice Municipal de Gênero revela desigualdades nos deslocamentos femininos e mostra que tempo de viagem, localização da moradia e atividades de cuidado ainda impõem barreiras à mobilidade das mulheres.


Por Redação Publicado 28/10/2026 às 16h50
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mulheres trabalho
Em cidades com mais de 500 mil habitantes, 17,98% das mulheres levam mais de uma hora no deslocamento diário. Foto: joasouza para Depositphotos

O tempo gasto para chegar ao trabalho pode consumir uma parcela significativa do dia de milhares de brasileiras. Em alguns municípios do país, quase metade das mulheres que se deslocam para trabalhar leva mais de uma hora para completar o trajeto entre a residência e o emprego.

É o que revela o Índice Municipal de Gênero (IMG), levantamento desenvolvido pela Tewá 225 a partir de dados públicos dos 5.570 municípios brasileiros.

Os casos mais extremos estão em Japeri (RJ), onde 49,93% das mulheres enfrentam trajetos superiores a uma hora; Francisco Morato (SP), com 47,09%; e Águas Lindas de Goiás (GO), com 45,37%.

Os três municípios têm algo em comum: estão inseridos nas periferias de grandes regiões metropolitanas. O resultado chama atenção para um problema que vai além do trânsito ou da duração de uma viagem: a distância entre onde as pessoas vivem e onde estão concentrados empregos, serviços e oportunidades.

Nos municípios analisados pelo levantamento que, juntos, concentram 41,7% da população brasileira, uma em cada dez mulheres gasta mais de uma hora no deslocamento diário entre casa e trabalho.

Para Luciana Sonck, mestre em planejamento territorial, especialista em governança e CEO da Tewá 225, os resultados do índice ajudam a tornar visíveis desigualdades que nem sempre aparecem nas estatísticas tradicionais.

“Existe um enorme vazio de dados de gênero no Brasil, o que faz com que as mulheres sigam invisíveis e deixem de ser prioridade nas políticas públicas”, afirma.

Conforme ela, o IMG busca justamente oferecer informações que permitam aos municípios identificar onde estão seus principais problemas e orientar políticas públicas.

Quanto maior a cidade, maior o peso do deslocamento

O levantamento mostra uma diferença expressiva conforme aumenta o tamanho dos municípios.

Nas cidades com até 5 mil habitantes, 2,98% das mulheres gastam mais de uma hora no deslocamento diário. Já nos municípios com mais de 500 mil habitantes, essa proporção chega a 17,98% — cerca de seis vezes mais.

O dado ganha relevância porque a dimensão de infraestrutura e mobilidade recebeu média nacional de 91,35 pontos no Índice Municipal de Gênero, uma pontuação elevada.

Isso, porém, não significa que a mobilidade feminina esteja resolvida.

O próprio estudo ressalta que o indicador utilizado não consegue captar aspectos como a segurança durante o percurso, a qualidade do transporte público e os diferentes deslocamentos realizados pelas mulheres ao longo do dia.

IBGE também mostra o peso dos deslocamentos no país

Os resultados do Censo Demográfico 2022 ajudam a dimensionar o problema da mobilidade cotidiana.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 40 milhões de brasileiros levam entre seis minutos e meia hora para chegar ao trabalho, enquanto cerca de 1,3 milhão gasta mais de duas horas apenas para chegar ao local de trabalho.

O automóvel é o principal meio utilizado nesse deslocamento no país, representando 32,3% das viagens, seguido pelo ônibus, com 21,4%.

Os dados também revelam diferenças entre homens e mulheres. Entre elas, 9,5% trabalham em outro município; entre os homens, são 11,6%.

Essas diferenças mostram que olhar apenas para a distância entre residência e trabalho não é suficiente para compreender como homens e mulheres utilizam a cidade.

O caminho das mulheres nem sempre é apenas casa-trabalho

Um conceito que vem ganhando espaço nos estudos de planejamento urbano ajuda a entender essa diferença: a chamada “mobilidade do cuidado”.

Enquanto as estatísticas tradicionais de transporte costumam privilegiar o deslocamento pendular — sair de casa, ir ao trabalho e retornar —, uma parcela das viagens realizadas diariamente envolve outras necessidades.

Levar e buscar crianças na escola, acompanhar familiares a consultas médicas, cuidar de idosos, fazer compras ou acessar serviços públicos são alguns exemplos.

Estudos sobre mobilidade do cuidado mostram que esses trajetos são realizados de maneira desproporcional pelas mulheres e podem envolver várias paradas, diferentes horários e mais de um meio de transporte.

Por isso, uma viagem relativamente curta até o trabalho não necessariamente significa que aquela mulher tenha uma rotina simples de deslocamentos.

Essa limitação também é reconhecida pelo próprio IMG. O estudo ressalta que o indicador de deslocamento não captura “a segurança do trajeto, a qualidade do transporte público nem os deslocamentos fragmentados associados ao cuidado”.

Deslocamentos longos também têm recorte racial

Outro resultado do Índice Municipal de Gênero mostra que o problema não está distribuído igualmente pelo território brasileiro.

Nos 200 municípios com maior proporção de deslocamentos longos, 62,74% da população é negra. Nos demais municípios, essa participação é de 55,72%.

Japeri, Francisco Morato e Águas Lindas de Goiás, que aparecem no topo do levantamento, são exemplos de cidades periféricas integradas a grandes áreas metropolitanas.

O resultado reforça a relação entre mobilidade, localização da moradia e acesso às oportunidades urbanas.

O Censo 2022 também mostra como os deslocamentos ultrapassam os limites municipais. Em todo o país, milhões de brasileiros precisam sair diariamente da cidade onde vivem para trabalhar.

Essa dinâmica é especialmente importante nas regiões metropolitanas, onde municípios residenciais mantêm forte relação com os grandes centros de emprego.

Mobilidade também interfere no acesso a oportunidades

Tempo de deslocamento não significa apenas minutos perdidos dentro de um ônibus, trem ou automóvel.

Quando uma pessoa precisa gastar uma ou duas horas para chegar ao emprego — e repetir o percurso na volta —, o transporte passa a ocupar uma parcela importante do tempo disponível para descanso, estudo, convivência familiar e outras atividades.

Para as mulheres, a questão pode ser ainda mais complexa quando o deslocamento profissional é combinado às atividades de cuidado.

Por isso, políticas de mobilidade pensadas exclusivamente para acelerar o deslocamento entre residência e emprego podem deixar de atender uma parte importante das viagens realizadas diariamente.

O que as cidades podem fazer

A discussão sobre mobilidade feminina envolve medidas que vão desde o planejamento urbano até a segurança viária.

Calçadas acessíveis e bem conservadas, iluminação pública, pontos de ônibus seguros, integração entre diferentes meios de transporte, oferta adequada de transporte coletivo e acesso próximo a escolas, unidades de saúde e outros serviços reduzem a necessidade de deslocamentos longos e complexos.

Também é necessário produzir informações capazes de mostrar quem se desloca, por qual motivo, em quais horários e de que maneira.

Essa necessidade está no centro do próprio Índice Municipal de Gênero. Para Luciana Sonck, as políticas públicas voltadas às mulheres não podem ser pensadas apenas quando os problemas aparecem nas estatísticas de violência.

“Não podemos lembrar das mulheres apenas quando elas aparecem nas estatísticas de violência, isso é a ponta do iceberg. Devemos antes disso, avaliar os fatores que determinam seu acesso a direitos”, afirma.

Segundo ela, melhorar a disponibilidade de informações municipais é parte desse processo. “Sem dados não há diagnóstico e política pública.”

Os números mostram, portanto, que reduzir o tempo perdido nos deslocamentos pode exigir mais do que melhorar a fluidez do trânsito. Exige aproximar moradia, emprego e serviços e planejar sistemas de transporte capazes de atender às diferentes formas como a população efetivamente se movimenta pelas cidades.

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Matérias escritas pela equipe de Redação do Portal do Trânsito.

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